As discussões sobre o pacote Biden e o pensamento econômico, por Luis Nassif

Há uma discussão em curso, fundamental para a futura definição de políticas econômicas nacionais. De um lado, o pacote Biden, de injeção maciça de recursos na economia, dentro da lógica da flexibilização quantitativa. De outro, os alertas sobre os limites dessas discussões. 

Trata-se de uma polêmica curiosa. Historicamente, o pensamento econômico divide-se entre os chamados keynesianos – favoráveis aos investimentos públicos como motores da economia, em períodos de recessão – e os monetaristas, que acreditam apenas em instrumentos monetários e fiscais.

Agora, as discussões sobre os limites da flexibilização quantitativa (compra de títulos e outros ativos pelo Banco Central para injetar dinheiro na economia), coloca em confronto herdeiros de grandes sobrenomes da economia.

De um lado, James Kenneth Galbraith, economista americano filho de John Kenneth Galbraith, um profundo crítico do modelo de desenvolvimento americano, mas defensor do pacote Biden. De outro Lawrence Summers, ligado ao Partido Democrata, Secretário do Tesouro na administração Clinton, e sobrinho de Paul Samuelson, um dos grandes economistas keynesianos, e crítico do pacote.

Até algum tempo atrás, o indicador mais relevante para a política monetária era a chamada “curva de Phillips”, desenvolvida por Paul Samuelson e Robert Solow. Por ela, o nível de emprego é o indicador do aquecimento da economia. A partir de determinado nível, o Banco Central precisa adotar políticas restritivas para evitar a inflação. Com o tempo, tornou-se uma camisa de força e a visão mecânica de que qualquer tentativa de reduzir o desemprego abaixo do que se convencionou chamar de “taxa natural”, produziria hiperinflação.

A crise pós 2008 colocou a “curva de Phillips” em xeque. O dinheiro injetado na economia deveria reduzir a taxa de desemprego e pressionar a inflação. Em tese, as pessoas que recebem ajuda do governo por estarem na parte inferior da pirâmide, deveriam gastar mais e economizar menos. Não ocorreu. Não foi o primeiro desmentido à teoria.

Tempos atrás, outro economistas referencial – Olivier Blanchard – passou a questionar a ideia da “taxa natural de emprego”, um suposto nível de emprego que seria neutro em relação à inflação. Nas últimas décadas, nenhum dos fatores inflacionários – desvalorizações do dólar, preços de petróleo, custo maior do trabalho industrial – influenciou os indicadores. Houve pleno emprego no final dos anos 90 e nos anos que antecederam a pandemia. E não houve inflação.

Segundo Galbraith, o ponto fora da curva foi a economia chinesa. A valorização do dólar destruiu a competitividade da manufatura americana e o fortalecimento da chinesa, que se tornou o maior fornecedor mundial de manufaturados. Os preços do petróleo também tiveram pouco impacto porque a maioria do emprego nos EUA é no setor de serviços.

Discute-se se a recuperação da demanda nos EUA – com o pacote Biden – permitiria à China aumentar os preços. Segundo Galbraith, não está no horizonte, porque o modelo econômico chinês privilegia a estabilidade social e o crescimento constante da produção, e não a maximização dos lucros no curto prazo.

Haveria riscos com o aumento do frete e acúmulo de produção em alguns setores. Mas nada significativo, segundo ele. 

A conclusão de Galbraith é que a macroeconomia neokeynesiana não é mais uma boa ferramenta para explicar a economia americana, devido às suas vinculações profundos com o resto do mundo e basicamente com a ascensão da China.

Já Summers teme os excessos dessas políticas. Em 2013, Summer foi o primeiro a trazer de volta a tese da “estagnação secular”, que identifica longos períodos de política monetária permissiva, com demanda fraca e estagnação econômica. Passou a defender mais ênfase na política fiscal, e menos na política monetária.

Embora ligado ao Partido Democrata, no entanto, Summers passou a criticar o que julga excesso das políticas quantitativas. O problema, diz ele, é a falta de prioridades econômicas e análise da realidade.

O motivo é simples.

O aumento da liquidez se dá através de injeção na veia da economia através do sistema bancário. Com a economia andando de lado, não há muito demanda por crédito. O dinheiro, então, acaba fluindo para ativos reais, já existentes, provocando bolhas especulativas.

É esse o receio de Summers, agravado pelos números em jogo. De um lado, as previsões do começo do ano, de que a Covid reduziria salários e renda familiar em US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões por mês, diminuindo ao longo do ano. No total, haveria um rombo de US$ 250 bilhões a US$ 300 bilhões. Do outro lado, o pacote de estímulo de dezembro foi de US$ 900 bilhões; um segundo pacote de US$ 1,9 trilhão. É uma enorme diferença.

Agora, segundo Summers, o risco seria maior, devido ao estimulo fiscal de 14% do PIB, medidas monetárias extraordinárias e efeitos estruturais da Covid – especialmente uma grande poupança excedente.

Em 2009, diz ele, houve importantes investimentos em novo capital de risco verde, pesquisas, ampliação da banda larga e reparos e investimentos em infraestrutura. Se o programa Biden fosse destinado a um programa plurianual de investimento público em larga escala, atendendo às preocupações sociais, o rumo estaria dado, diz ele. Mas não é isso.

Segundo o economista Martin Wolf, colunista do Financial Times, outro problema seria a apreciação do dólar, um forte aumento da demanda e das importações, aumentando o déficit em conta corrente, especialmente depois que a elevação dos juros promovesse uma apreciação do dólar.

Summers traça dois cenários.

O primeiro é o “déficit Reagan”: boom temporário, déficit e conta corrente, protecionismo crescente, apreciação do dólar e aumento das dívidas de terceiros.

O outro risco é o cenário pré-Bretton Woods, ou déficit Carter: emissão indiscriminada de moeda, aumento substancial da dívida trazendo insegurança monetária.

Summers aposta no crescimento do Estado. Isso porque o preço relativo de bens coo educação e saúde aumentaram muito mais dramaticamente do que bens de consumo. Para entregar os mesmos bens, o setor público tem que ser maior.

Um governo maior exigirá impostos maiores. E o caminho é buscar naqueles que mas ganharam nas últimas décadas. 

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