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Bolsonaro não convenceu as FFAAs, mas continuará fazendo barulho, por Luis Nassif

Foi um dia bastante agitado, com a reforma ministerial de Jair Bolsonaro. Como Bolsonaro é fundamentalmente uma mente desequilibrada, há um curto circuito nas análises: as mudanças foram planejadas ou fruto de um dos impulsos irracionais de Bolsonaro? Ele tem base nas Forças Armadas, ou se indispôs com ela?

Depois de um dia de boatos, declarações e reafirmações, chega-se às seguintes conclusões.

1. Bolsonaro corteja o golpe.

Até aqui, nenhuma novidade. Desde o primeiro dia de governo ele já prepara o golpe. Se terá condições, são outros quinhentos.

2. A manipulação do orçamento explicitou a tentativa de golpe.

O orçamento aprovado pelo Congresso – com a participação do Ministro Paulo Guedes, saliente-se – foi o mais fantasmagórico das últimas décadas. Os parlamentares não respeitaram as destinações constitucionais, atropelaram a Lei do Teto, com duas intenções nítidas:

* cooptar o Centrão, destinando recursos gigantesco para as emendas parlamentares;

* cooptar as Forças Armadas, destinando 1/3 do orçamento para o setor.

Foi um movimento primário, que esbarrará no Tribunal de Contas da União e no próprio Supremo Tribunal Federal. É possível que haja recuo antes das penalizações.

3. As motivações da tentativa de golpe

Alguns fatos precipitaram os movimentos de Bolsonaro.

O primeiro foi a entrada de Lula no jogo político. Ontem, um experiente senador me explicava a razão do pânico de Bolsonaro. Alguns análises apressadas sustentaram que a entrada de Lula ajudaria Bolsonaro, por reforçar seu discurso de polarização contra o PT.

Esse senador vê o oposto. Bolsonaro percebeu em Lula a condição de montar o pacto com o centro, algo que nenhum dos factoides criados pela mídia logrou conseguir – o governador de São Paulo João Dória Jr, Luciano Huck ou o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite.

O discurso conciliatório de Lula acendeu a luz amarela do bolsonarismo. Como me explicava o senador, em 2018, a vitória de Bolsonaro no 1o turno foi navegando na criminalização da política; no 2o turno, foi enfrentando Fernando Haddad e o PT, isolados. Em uma eleição com uma frente política, não teria nenhuma possibilidade.

O segundo fato foi a percepção de esvaziamento de seu governo, como o fracasso da luta contra o Covid-19 e, especialmente, os sinais de que as Forças Armadas buscam se afastar de seu governo, especialmente depois da tragédia do ex-Ministro Eduardo Pazuello. Leve-se em conta que Bolsonaro é filho direto do envolvimento dos militares com a política.

4. O endurecimento político

Por tudo que se viu, as Forças Armadas não embarcarão em uma aventura perdida com Bolsonaro. Há um movimento para que, na lista tríplice a ser apresentada a ele, haverá apenas militares comprometidos com a institucionalizada.

Por isso mesmo, a reação contra os críticos virá de dois organismos: a Advocacia Geral da União (AGU), transformada em um centro de repressão, ainda mais com a ida para lá do ex-Ministro da Justiça André Mendonça.

Outro centro será o Ministério da Justiça, entregue a um delegado de polícia com ligações com a bancada da bala e as polícias militares estaduais.

Ontem, algumas lideranças ligadas a Bolsonaro, tentaram incluir em uma lei de 2007 a possibilidade de pandemias permitirem a decretação de estado de mobilização nacional – situação pela qual o presidente da República tem controle total sobre todos os funcionários públicos federais, estaduais e municipais.

A tentativa foi abortada.

Provavelmente, nos próximos dias o STF revogará definitivamente a Lei de Segurança Nacional, principal instrumento de repressão usado pela AGU.

É possível que, nos próximos dias, haja uma radicalização ainda maior das forças bolsonaristas armadas, com possibilidade de ataques radicais isolados, criando um clima de terrorismo.

Especialmente porque Bolsonaro é incontrolável. É aguardar as próximas loucuras. 

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