É hora de começar a pensar em regras para a globalização da mídia, Luis Nassif

São curiosas as mudanças do negócio jornal dos anos 90 para cá, não apenas no Brasil, como nos Estados Unidos.

Em ambos os casos, no Brasil mais ainda, os anos 90 marcaram a tentativa da imprensa de cativar o mais amplo espectro ideológico de leitores. No Brasil celebrava-se o grande pacto nacional em defesa da redemocratização. Assim, as distâncias ideológicas tinham se estreitado, permitindo a um mesmo veículo disputar um leque amplo de leitores.

Por esta época, havia ocorrido uma grande profissionalização das agências de publicidade, que passavam a trabalhar com métricas e pesquisas qualitativas de opinião.

O maior fenômeno foi a Folha que, em um mesmo momento, conseguiu uma boa fatia de leitores do PSDB, do PT, e conservadores. A maneira de conquistar esses leitores era, de um lado, uma distribuição de colunistas de várias linhas de pensamento. De outro, uma cobertura espetaculosa, atirando a torto e a direito contra qualquer símbolo de autoridade.

Era um estilo simplista e, muitas vezes, forçando a barra. Mas de uma inegável eficiência mercadológica. 

Esse modelo começa a se esgotar a partir de meados dos anos 2.000 . Com a maxidesvalorização de 1999, todas entraram em crise profunda, agravada pelo crescimento dos novos modelos de negócios que nasciam com a Internet.

Em 2005, inspirados por Roberto Civita, da Editora Abril, todos os grupos decidem incorporar a radicalização política da ultra-direita americana. Dois pontos atraiam na prática de Murdoch. 

O primeiro, a intenção explícita de ser um ator político relevante. Através da influência política, julgava ele, seria possível enfrentar os novos gigantes que surgiam no mercado de mídia, no bojo da digitalização.

O segundo, o inegável sucesso de público, que transformou a Fox News na empresa jornalístico de cabo com maior audiência no país. Mas havia o contraponto do The New York Times, CNN e outros grupos jornalísticos. 

No Brasil, houve um alinhamento total em relação ao discurso de ódio. É como se houvesse um único Murdock comandando toda a imprensa brasileira. Ali se mostrou, em toda sua intensidade, os malefícios de um mercado de opinião cartelizado.

O mercado de opinião é a base de todo modelo democrático. É nele que há a disputa de ideias, que se pratica o direito à informação, que se permite a auto-regulação e a eficiência dos sistemas e freios e contrapesos. Por isso mesmo, qualquer forma de cartelização da mídia é uma ameaça direta à democracia e às instituições.

A mídia brasileira vive uma crise terminal. Seu modelo de negócio se esgotou, não tem fôlego para enfrentar s grandes grupos globais que começam a se impor no mundo. E quem está se candidatando ao seu espólio são grandes grupos econômicos.

O BTG Pactual praticamente assumiu o controle da Editora Abril, além de investir em muitos sites independentes. Agora, se fala em tratativas da JBS para assumir as Organizações Globo.

A fórmula é nítida. Nenhum grande grupo internacional, de mídia ou financeiro, aceitará ser sócio minoritário de um grupo nacional, em função do fato de serem grupos familiares com pouca transparência de gestão. Além disso, há restrições na legislação, impedindo mais do que 30% de participação do capital estrangeiro na mídia nacional. Há movimentos da mídia para elevar esse percentual para 49%.

A maneira de driblar as resistências dos investidores estrangeiros já foi aberta pela CNN Brasil. Nela, um grupo empresarial forte, a MRV, assume a maior parte do capital e traz, como franquia e como sócio, o grupo internacional.

Caso se concretize esse movimento, os maiores grupos de mídia nacional ficarão sob controle direto de grupos financeiros e empresariais. E, mais do que nunca, haverá ameaças não apenas à democracia, mas a todos os competidores em todos os setores em que esses grupos atuam.

O recente episódio da licitação da Zona Azul em São Paulo, um escândalo que deu a vitória a uma empresa do grupo BTG Pactual, não mereceu uma linha sequer dos grandes grupos de mídia, mostrando o extraordinário poder de influência já exercido por esses grupos financeiros.

É hora dos partidos políticos, Congresso e sociedade civil acordarem para esse fenômeno. Deve-se começar, desde já, a pensar em maneiras de definir a regulação da mídia, aproveitando a transição que se desenha.

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