Comportamento Conservador dos Investidores: “tem que manter isso aí, viu?”, por Fernando Nogueira da Costa

Por Fernando Nogueira da Costa

Quem sabe quanto custa ganhar dinheiro com trabalho tem medo de perdê-lo, devido a uma decisão equivocada na escolha do portfólio. É estressante a escolha da carteira de ativos – formas de manutenção de riqueza. Esta é o estoque em que são transformadas as sobras não gastas do fluxo de renda recebida, seja pelo trabalho, seja por outras posses, por exemplo, alugueis de imóveis ou automóveis, juros de empréstimos, lucros de capital produtivo e ganhos de especulação. O comportamento usual dos investidores, na hora de decisões, se pauta por conservadorismo.

Ser conservador em Finanças Pessoais é uma virtude. Em política, é um defeito. Em país instável, temos de ser conservadores para não perder dinheiro frente à instabilidade política e econômica, provocada por conservadores que dão golpes de Estado, seja militar, seja civil semi-parlamentarista. Eles nos tiram a segurança pública e financeira.

Além do cenário futuro a ser avaliado, racionalmente, temos de dedicar enorme esforço emocional em autocontrole. O autoengano é comum. Por exemplo, você entra em uma sorveteria cara. Pede uma bola e a atendente pergunta se você deseja “copinho” ou “copão”. Qual resposta você dá? Copinho, lógico! Assim, sairá feliz com o copinho transbordando e não com uma bolinha de sorvete perdida no meio do copão…

Esta “Síndrome do Copo-de-Sorvete” alerta que, se o cérebro prefere o caminho mais curto para decidir, não se deve decidir por impulso, mas sim preocupando-se com as informações essenciais e excluindo as inúteis. Sendo a economia um sistema complexo, necessitamos ponderar todos os componentes que interagem para a emergência de uma trajetória dinâmica. Feito isso, cuidadosamente, saberemos transformar complexidade em simplicidade, colocando foco no que realmente importa.

Assim, não nos deixaremos iludir por propaganda enganosa, seja oficial, seja oficiosa, de economistas neoliberais que desejam “dourar a pílula” das consequências amargas de suas pregações não contestadas pela imprensa chapa-branca. A carência de debate pluralista entre ideias antagônicas, na mídia brasileira, leva a erros recorrentes.

O viés heurístico da validação ilusória ocorre quando, depois de feitas suas previsões, os economistas buscam só dados que corroborem suas projeções. Eles só conversam com colegas que pensam da mesma maneira, leem matérias e reportagens que apoiam sua decisão. O que deviam procurar fazer era ter contatos com profissionais ou fontes de informações que questionassem suas projeções, fazendo-os refletir, procurar por pontos que não foram capazes de prever.

Depois de concluída a projeção, ao invés de buscarem dados e informações que pudessem mostrar se estão errados, estudam casos particulares para provar que estão certos. Essa sutil diferença pode causar grandes erros de previsão, pois o assessor de investimentos não recebe questionamentos e, portanto, não revê suas análises de maneira criteriosa. Economistas ortodoxos desdenham heterodoxos – e erram!

Em geral, investidores se apoiam em assessoria apenas para transferência de responsabilidade pelas decisões. É espécie de “recall psicológico”: se os investimentos forem bem, o investidor assume os créditos; se o investimento fracassar, o investidor protege seu ego e diminui seu arrependimento colocando a culpa no assessor. Este é o fenômeno psicológico conhecido como o viés da auto atribuição, a pessoa atribui às suas competências os sucessos, e os fracassos ou às outras pessoas ou à má sorte.

O medo do arrependimento por parte de investidor não é, exatamente, a aversão à perda, mas sim à sensação de ser o responsável direto pela perda. Isso afeta a autoestima e faz com que os investidores tomem decisões rotineiras e uniformes, ao longo do tempo, sem reavaliação frequente do contexto conjuntural.

A busca pela minimização do arrependimento também leva os investidores a preferir reter do que resgatar, para novos investimentos, pois, se o valor de mercado subir, depois, eles se arrependerão. Cria-se a heurística da afeição em relação àquela ação ou qualquer outra propriedade, principalmente por parte de colecionadores. As respostas afetivas a determinado estímulo ocorrem rápida e automaticamente, até em test-drive.

Os investimentos passionais são aqueles realizados em ativos emocionais, ou seja, itens de coleção como carros clássicos, moedas, selos, vinhos, obras de arte, cavalos de raça, etc. Por exemplo, é apenas um equívoco esnobe o investimento por razão de status social (efeito demonstração) em imóveis imensos e luxuosos. São bens de consumo conspícuo.

Esse consumo é o dispêndio feito com finalidade precípua de demonstração de condição social. Manifesta-se por meio da compra de artigos de luxo e de quaisquer gastos para ostentação. É praticado principalmente pelas camadas sociais de alta renda, cujo padrão de vida as camadas de renda mais baixa procuram imitar – ou louvar como ocorre no “funk ostentação”. O conceito foi definido pelo economista norte-americano Thorstein Veblen em sua obra A Teoria da Classe Ociosa (1899).

O fenômeno chamado de miopia em Finanças Comportamentais refere-se à Síndrome do Peru do Natal. Durante vários dias seguidos, o peru recebe alimento abundante. Ele passa a acreditar que essa fartura é porque o admiram. Ele não tem uma visão do cenário futuro: vai ser degolado. Quanto mais é bem-sucedido, mais a falsa segurança aumenta. Muitos investidores não conseguem enxergar o problema que estão criando para seu próprio futuro. Enxergam perto, mas não longe. São curto-prazistas.

O termo heurístico designa o processo de aprendizagem experimental que leva os investidores a desenvolverem as chamadas regras de bolso (ou regras simplificadoras), que são usadas para simplificar o processo de tomada de decisão. Em geral, elas se apoiam em generalizações perigosas ou falsas. Um grande avanço da Psicologia Cognitiva na Economia foi a identificação dos princípios que regem essas regras de bolso e os erros sistemáticos que elas causam.

Os citados vieses heurísticos, entre diversos outros existentes e estudados pela Economia Comportamental, se agravam em uma sociedade tão desigual como a brasileira? Aqui, o grupo dos 1% mais ricos tem cerca de 1,4 milhão de pessoas, com renda anual a partir de R$ 287 mil ou R$ 24 mil mensais. A renda média anual da população é de R$ 35 mil ou R$ 3 mil/mês. Mas a distribuição do estoque da riqueza é muito pior que a distribuição do fluxo da renda: os 10% mais ricos detém 74,2% do patrimônio total. Como o Top 1% possui 47,9%, sobra para os 9% mais ricos 26,3%, que é mais do que têm os 90% restantes: 25,8%.

Estudo a concentração de riqueza financeira desde 2013. A maioria dos outros especialistas ainda não se atentou para ela. Por exemplo, levanto a hipótese de que o apartheid existente entre os detentores de “moeda de pobre”, cujo poder aquisitivo era corroído pela inflação, e a “moeda de rico”, indexada e detida pela elite que tinha conta bancária, durante o regime de alta inflação (1974-1994), talvez tenha sido a maior causa para a brutal concentração de riqueza financeira no País.

Pelas DIRPF2016-AC2015, existiam 749.571 milionários em média per capita de bens e direitos. Quase a metade (49%) era composta por ativos financeiros: cerca de R$ 3,5 trilhões de Pessoas Físicas ou 63% do total de Haveres Financeiros (M4) no final de 2015. Quando a taxa de juro Selic permaneceu 14,25% aa durante quinze meses, os milionários recebiam juros mensais do capital financeiro de 1,2%. Logo, a cada milhão de reais, R$ 12.000 mensais, ou seja, 15,2 salários mínimos de 2015. Cerca de 3,5 milhões de declarantes recebiam a partir dessa faixa salarial mensal, o que representava 12,7% deles. Um quinto desses ou 3% do total, provavelmente, ficaram nesses quinze meses recebendo renda do capital financeiro superior à renda do trabalho.

Recentemente, denunciei que o retardo da queda da taxa de juro Selic, ocorrida só a partir de outubro de 2016, muito após queda da taxa de inflação em fevereiro, levou a Selic acumular 14% no ano passado. A elevação percentual da riqueza financeira dos ricaços foi exatamente 14%, enquanto a da classe média baixa foi 6% e a da alta, 7%.

Com a publicação de novos dados pela ANBIMA, atualizei os quadros que revelam a estratificação social da riqueza financeira no País. Confirmam a continuidade da “dependência de trajetória”: o capital de Pessoas Físicas não é investido de maneira produtiva na geração de empregos para os milhares de desocupados pela Grande Depressão de -7,2% no PIB bienal. Os investidores optam por conservar títulos de dívida pública. Aí, agradecem o ajuste fiscal realizado para garantir a solvabilidade do Tesouro Nacional no pagamento de juros arbitrados pelo Banco Central do Brasil de maneira disparatada em relação ao resto do mundo. Enquanto cai a renda per capita dos trabalhadores, os ricaços elevam cada vez mais sua riqueza financeira per capita.

Confira que há 59 milhões de depositantes de poupança com saldo acima de R$ 100 e saldo médio de R$ 10.729, totalizando R$ 620 bilhões. Geram autofinanciamento.

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