Setor público garantindo emprego nos EUA

Por MiriamL

Uol

Recessão leva universitários a buscar empregos no serviço público

The New York Times

Catherine Rampell

 

                                  J.Emilio Flores/The New York Times

  • Alison Sadock pega o elevador a caminho do trabalho em uma fundação pública que ajuda crianças doentes

    Alison Sadock pega o elevador a caminho do trabalho em uma fundação pública que ajuda crianças doentes

Se Alison Sadock tivesse terminado a faculdade antes da crise financeira, ela provavelmente teria ido para alguma grande empresa. Talvez para um emprego em vendas ou finanças, ou então no gerenciamento de marca de uma grande companhia – o tipo de trabalho que sua irmã mais velha, que se formou no ano economicamente efervescente de 2005, faz na PepsiCo.

“Você sabe, um trabalho normal”, diz Sadock.

Mas ela se formou em meio à profunda recessão da primavera de 2009, quando os empregos eram escassos. Em vez da carreira em vendas que ela tinha imaginado, ela foi para o terceiro setor, trabalhando em prol das crianças mais doentes dos Estados Unidos.

Sadock faz parte de um grupo grande de universitários recém-formados que acabaram fazendo o bem porque a economia lhes fez mal.

À medida que a procura por emprego ficou mais difícil depois da crise, cresceu o número de relatos que sugerem que cada vez mais jovens estão considerando o serviço público. O tamanho exato dessa mudança está ficando mais claro agora: só em 2009, o número de jovens recém-formados que trabalhavam para o governo federal foi 16% maior em relação ao ano anterior e 11% maior nas organizações sem fins lucrativos, de acordo com uma análise feita pelo The New York Times, baseada em dados da Pesquisa da Comunidade Norte-Americana do Departamento de Censo dos Estados Unidos. Uma pesquisa menor do Departmanto de Trabalho mostrou que a quantidade de jovens com ensino superior nesses empregos continuou a aumentar no ano passado.

“Não é incomum ouvir falar em mais de 100 candidatos para uma vaga numa instituição sem fins lucrativos, às vezes muito mais que isso, e também há muito mais jovens de boas faculdades se inscrevendo do que antes”, disse Diana Aviv, diretora-executiva da Setor Independente, uma associação de organizações sem fins lucrativos. “Algumas dessas pessoas já estavam desempregadas há algum tempo e ficaram felizes em conseguir alguma coisa. Mas uma vez que chegam lá, elas mudam e reorientam suas aspirações para o serviço público.”

Não está claro, entretanto, se um diferente ponto de partida irá de fato “reorientar” as aspirações de longo prazo desses trabalhadores – ou seja, se os caminhos recém-descobertos durarão, ou se eles migrarão para carreiras mais lucrativas quando houver mais empregos disponíveis.

O interesse renovado pelo serviço público é visível em todo o país. As inscrições para vagas da AmeriCorps quase triplicaram de 91.399 em 2008 para 258.829 em 2010. O número de candidatos da Teach for America subiu 32% no ano passado, para um recorde de 46.359. Organizações como o Centro de Carreiras de Interesse Público de Harvard ficaram surpresas – e mais do que contentes – com o aumento da demanda por parte de jovens talentosos na faixa dos 20 anos.

É provável que vários fatores tenham contribuído para esse fenômeno. Talvez o presidente Barack Obama tenha de fato tornado o serviço público “legal”, como prometeu durante sua campanha presidencial. Alguns especialistas dizem que os jovens do milênio – aqueles que cresceram nos anos 90 ou no século 21 – costumam ser mais generosos, talvez por causa do serviço comunitário obrigatório que tiveram na escola.

“A geração do milênio é uma geração que está mais interessada em fazer alguma diferença do que em ganhar dinheiro”, disse Max Stier, presidente e diretor-executivo da Partnership for Public Service, uma organização sem fins lucrativos que aconselha as iniciativas de recrutamento do governo.

E de fato, os números de jovens com ensino superior trabalhando em empregos de serviço público vêm aumentando gradualmente desde a virada do milênio. O aumento súbito em 2009, entretanto, sugere que a ausência de empregos tradicionais no setor privado obrigou muitos dos melhores e mais brilhantes do país a aceitarem salários mais baixos, em trabalhos mais gratificantes emocionalmente.

Desde que a recessão começou há três anos, o setor privado cortou 7% de suas vagas. O governo federal, enquanto isso, expandiu sua folha de pagamento em 3%.

Enquanto muitos dos que se formaram em 2008 foram atraídos para empregos com bons salários em consultoria e finanças, os formandos dos anos de recessão, 2009 e 2010, não foram cortejados da mesma forma. Eles acabaram tendo de correr atrás de seus próprios empregos.

“Temos que pensar com mais profundidade em nossas carreiras, e em diferentes tipos de carreiras”, disse Sadock.

Com um diploma de administração e relações com consumidores da Universidade de Wisconsin-Madison, Sadock passou o verão antes de seu último ano de faculdade como estagiária no departamento de compras da Kohl’s. Ela achou que sairia da faculdade com um emprego em vendas, como analista de mercadorias.

“Eu não tinha muita ideia de que tipos de empregos existiam”, disse ela. “As vendas eram tudo o que eu conhecia, e não pensei que havia oportunidades de emprego no terceiro setor.”

Ela enviou currículos para todo lugar, sem sorte. No verão depois que se formou, ela voltou para casa em Greenwich, Connecticut, onde se reunia com mais seis colegas do colegial para falar sobre suas perspectivas de emprego desastrosas. Eles se juntaram para formar a Grads4Hire, um grupo semelhante aos clubes de babás norte-americanos, que fazia bicos em bufês e trabalhos de secretariado.

Os membros da Grads4Hire também divulgavam que fariam uma hora de serviços comunitários para cada trabalho que conseguissem. Todos eles foram voluntários ativos na faculdade – no caso de Sadock, por meio da parceria de sua república com a Fundação Make-A-Wish, uma organização dedicada a crianças doentes com risco de vida.

Esta era uma forma de “retribuir” à sociedade, disse Sadock, e também torná-los “um pouco mais vendáveis”. Essa foi sua primeira pista de que seus interesses pelo serviço público estavam relacionados com seu interesse em pagar suas contas.

No final do verão, ela se mudou para Los Angeles para trabalhar meio período como assistente pessoal. Enquanto isso, começou a procurar um trabalho de tempo integral. Um conhecido mencionou uma vaga na Fundação Starlight Children, uma organização que oferece entretenimento, educação e outros tipos de apoio para crianças gravemente doentes.

Sadock era uma candidata atraente para a Starlight. Além de seu trabalho voluntário para a Fundação Make-A-Wish, ela tinha um item no currículo que a Starlight não está acostumada a ver: um diploma em administração.

Sadock foi contratada quase imediatamente como assistente contábil corporativa, trabalhando com doadores corporativos como a California Pizza Kitchen e Wyndham Hotels em marketing e oportunidades de patrocínio para os programas da Stralight.

Segundo ela, o emprego é uma aplicação perfeita de tudo o que ela foi treinada para fazer, e originalmente havia planejado fazer, para o setor privado.

“Mas agora estou servindo a uma causa”, diz ela, em vez de simplesmente “ajudar alguma grande corporação a vender mais produtos.”

Como Sadock, muitas dezenas de outros jovens formados entrevistados para esta matéria dizem que, em retrospectiva, sentem-se gratos pelo fato de terem sido rejeitados pelo setor privado.

“Eu sempre achei que o trabalho no terceiro setor era uma coisa que eu faria por caridade, e que teria um emprego numa agência para ganhar dinheiro”, disse John Warren Hanawalt, 26, designer gráfico de Boston. Ele se candidatou em empresas de relações públicas depois de se formar no Stonehill College em Easton, Massachusetts, em dezembro de 2009, mas o trabalho que lhe ofereceram não era suficiente para pagar as contas.

Quase um ano depois, ele encontrou um emprego na Fenway Health, um grupo sem fins lucrativos que trabalha com a comunidade de gays, lésbicas e transgêneros. “Levou um tempo para eu ver como o design gráfico poderia se encaixar com minha paixão por justiça social de uma forma integral.”

Embora feliz por ter encontrado um grupo de trabalhadores energéticos, com boa escolaridade e baratos para substituir a geração do baby boom, algumas organizações do terceiro setor temem que sua popularidade entre a juventude de hoje não sobreviva ao período de alto desemprego. Vários estudos descobriram, entretanto, que as condições econômicas no começo da carreira podem afetar os objetivos dos trabalhadores a longo prazo. Para a maioria das vagas de menos experiência, a diferença entre os salários de empregos no terceiro setor e nas companhias que visam o lucro costuma ser insignificante.

“Eu não recebo um milhão de dólares, com certeza”, diz Sadock, que recebe US$ 35 mil por ano. “Mas sou independente financeiramente, e pago minhas contas.”

Mas depois de alguns anos no trabalho, os empregados do setor privado costumam ganhar mais. Funcionários de administração, por exemplo, ganham cerca de 22% a mais do que seus colegas no terceiro setor.

É mais fácil ser idealista e relativamente despreocupado com o salário quando os trabalhadores são jovens, não têm filhos nem hipotecas para pagar; as atitudes em relação à importância da remuneração financeira podem mudar quando as responsabilidades aumentam.

“Não sou contra trabalhar no setor privado, dependendo do que estiver disponível quando eu ficar mais velha e precisar de uma carreira mais lucrativa para sustentar a família e assim por diante”, diz Sadock. “Mas eu ainda gostaria de fazer alguma coisa mais significativa. Talvez algo na filantropia corporativa funcione.”

Tradução: Eloise De Vylder

 

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2011/03/06/recessao-leva-…

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