Mesmo com desaceleração, Brics estão maiores do que se imaginava

Jornal GGN – O economista britânico Jim O’Neill, estudioso dos países emergentes e especialmente dos Brics, deu entrevista ao jornal O Globo e falou sobre sua percepção a respeito do grupo.

“A percepção sobre a desaceleração da China está errada. A China desacelerou menos do que eu imaginava. Para quem achava que ia crescer 10% para sempre, é um grande problema, sobretudo para países que dependem de commodities, inclusive o Brasil”, afirmou.

“A Rússia e o Brasil me preocupam. Têm um problema comum que é a dependência de commmodities. Isso faz com que sejam um pouco preguiçosos. Não implementam reformas em tempos de bonança e isso torna tudo mais difícil nos momentos ruins”.

Do O Globo

‘Está na moda odiar o Brasil’, diz inventor do termo Bric

Por Vivian Oswald

Para Jim O’Neill, país pode crescer até 4%, se medidas certas forem tomadas

O economista Jim O’Neill – Vivian Oswald

LONDRES – Um dia depois de participar de almoço para investidores em Londres com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o economista britânico Jim O’Neill, contou ter ouvido dele uma perspectiva razoável, de que a tendência de crescimento para o país é de 3%, talvez 4%, se muitas medidas acertadas forem tomadas.

O que houve com o Bric? Brasil e Rússia não vão bem. Índia tem problemas. E a China reduz o passo…

A percepção sobre a desaceleração da China está errada. A China desacelerou menos do que eu imaginava. Para quem achava que ia crescer 10% para sempre, é um grande problema, sobretudo para países que dependem de commodities, inclusive o Brasil. A China é um dos Bric que não me decepcionam. A Índia mostra sinais de aceleração. Já a Rússia e o Brasil me preocupam. Têm um problema comum que é a dependência de commmodities. Isso faz com que sejam um pouco preguiçosos. Não implementam reformas em tempos de bonança e isso torna tudo mais difícil nos momentos ruins.

Quais as perspectivas para o grupo?

Mesmo com problemas de desaceleração, 14 anos depois, os quatro estão muito maiores do que imaginei. Ultrapassaram as expectativas na primeira década. A China continua no páreo para ultrapassar os Estados Unidos em 2027. Temos de olhar no longo prazo. Está na moda dizer que o Bric acabou. É ridículo. Mas o Brasil claramente tem problemas.

Como o senhor percebe o Brasil hoje?

Participei do almoço com o seu ministro da Fazenda. Foi muito bom conversar com ele e ouvir o que tinha a dizer. É a pessoa de que o Brasil precisa para restabelecer a credibilidade do país. É bastante conservador do ponto de vista fiscal, respeita a importância da meta de inflação e espero que a presidente esteja dando a ele autonomia de verdade.

Quais são os desafios da economia?

O Brasil, desde os últimos dias do presidente anterior (Lula), se perdeu no caminho. Seus assessores se deixaram levar. Não posso esquecer, em 2009 e 2010, havia uma visão de que o Brasil poderia ter um crescimento chinês, de 10%. Isso era loucura. E alguns assessores de Lula diziam 7%. Se você perguntar ao novo ministro da Fazenda, como fiz na quarta-feira (passada), qual é a tendência para a taxa de crescimento, a resposta é outra. Ele me disse 3%, talvez 4%, “se fizermos muitas coisas boas”. Parte do trabalho de recuperar a credibilidade é justamente ser mais razoável.

Levy disse que o resultado do ajuste só virá em 2016. Os investidores esperarão?

A realidade é que os investidores são sempre movidos por ganância e medo. Estamos sempre entre os dois extremos. No que diz respeito ao Brasil, os sentimentos têm tido altos e baixos. Atualmente, está na moda odiar o Brasil. Mas aqueles com instinto mais aguçado, pensam: “Peraí!”. Eu mesmo estou pensando nisso. Você olha para o Brasil e para Índia. O retorno do mercado de capitais em dólar é grande. Mas o Brasil está barato frente à Índia.

Qual é o calcanhar de Aquiles?

O ministro falou muito de investimentos em infraestrutura, foi ótimo. Mas é só o começo. Uma das razões para ter incluído o Brasil no Bric era o fato de o país ter metas de inflação. Não se pode fingir, se tem uma meta de inflação, tem que segui-la. Isso é o que digo que, durante Dilma (Rousseff), foi um retrocesso. Eles precisam dar ao Banco Central (BC) independência de fato, caso contrário, não tenha meta de inflação. Nos últimos anos, é quase como se o BC estivesse fingindo que está perseguindo a meta. É clara a pressão do governo para parar de prestar atenção nisso. Em contexto: uma taxa de 8% para o Brasil é ruim comparado com anos recentes, mas, meu Deus, muito melhor do que 20 anos atrás. Mas uma das razões para pensar no potencial do Brasil estava ligado à inflação baixa e estável. Não me incomoda que esteja um pouco acima. Mas é preciso explicar o que está acontecendo. Se a meta é de 3% a 6%, tem que assegurar que, quando estourar, você vai trazê-la de volta. Se quer que a meta passe a ser de 7% a 10%, explique o motivo. Não mexa nisso apenas por mexer. Tem que explicar.

Os investidores que estiveram com Levy reclamaram de uma crise de comunicação do governo, de falta de explicações ou satisfações. O senhor concorda?

Os brasileiros não sabem se promover no palco internacional com confiança ou autoridade. E isso é um problema. Costumo trabalhar com um conceito que é Q (qualidade da ideia) X A (aceitação) = E (eficiência). Mas se A é zero, E também é zero. E, com frequência, o Brasil tem problemas com o A. Os americanos são sempre bons no A. O Brasil tem que trabalhar no A. O governo está meio que se escondendo. Numa era de tecnologias de mídia que funcionam 24 horas, sete dias por semana, você tem que ter uma mensagem simples, clara e crível. E isso está acontecendo em um momento em que o Brasil tem vulnerabilidades. Se os EUA começarem a mexer com juros, como nos velhos tempos, o real pode estar sob pressão de novo.

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11 Comentários

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Mariano S Silva

- 2015-05-20 20:33:39

Chorou-se a desvalorização

Chorou-se a desvalorização cambial e esta se fez! Cadê o incremento das exportações? Quem ainda pensa que a mágica desvalorização cambial resolve tudo se esquece: que nossas commodities tem seus preços feitos alhures, que o mercado de armamentos é cativo do poder político (Quem não se lembra da perda da venda do tanque Osório, concorrência na Arábia Saudita que havíamos ganho?), que a venda de industrializados envolve uma feroz competição tecnológica (que nossa educação tradicional não tem como dar suporte). Temos uma certa pujança na produção científica, quase sempre empreendida com parcerias no exterior, mas quase nenhuma produção tecnológica autóctone.

Um artigo em Nature revela que o Brasil já possui um dos maiores e bem suportados contingentes de pesquisa do mundo. Entretanto, além das necessárias colaborações internacionais, teremos que empreender (também na ciência) mais em pesquisas próprias, que tenham relevância interna. Exatamente como a China está fazendo atualmente. Só por este caminho surgirão tecnologias que irão caracterizar nossas exportações como singulares e, consequentemente,  competitivas.  

rdmaestri

- 2015-05-20 15:20:33

A exportações de

A exportações de manifaturados por multinacionais tem limitações da matriz.

Geralmente estas empresas estabelecem regiões de atuação, por exemplo, para as fábricas do Brasil podem exportar para a América do Sul e o mercado da África, da Ásia ou da América Central e do Norte é entregue para a matriz ou para outras fábricas no mundo, isto não é uma regra fixa nem absoluta, depende do modelo do produto, do câmbio e inclusive da origem dos componentes do produto. Por exemplo, uma fábrica de um determinado equipamento recebe da matriz, um equipamento de alto valor agregado que representa menos de 1% do equipamento em peso, este equipamento vem com um valor muito superior ao custo de fabricação e serve para remeter lucro para a matriz, agrega-se equipamento pesado ou de uso intensivo de mão de obra e faz-se a exportação.

Um exemplo típico é a Volkwagen, ela exporta usualmente para a América Latina, sendo que o mercado africano, asiático e norte-americano é para a matiz ou outras subsidiárias. Eventualmente ela exportou para os Estados Unidos (o Voyage) para o Iraque (no tempo do Sadan). O Gol é um dos exemplos típicos do que pode acontecer quando é feito o projeto no Brasil, o Gol é o único automóvel da linha Volkwagen que foi projetado no Brasil, e por não ser fabricado em outros locais ele é um dos mais exportados para diferentes países, apesar da matriz ter já várias vezes anunciado em terminar a fabricação do Gol o carrinho resiste aos ataques dos projetistas alemães. Graças a um engenheiro projetista alemão, Phillip Schmidt, que vivia no Brasil, foi projetado este sucesso de vendas e exportação desenvolvido no Rio de Janeiro. Como todo alemão, Phillip Schmidt era teimoso e teimou contra a matriz, montou uma equipe de projeto no Brasil e projetou um carro que por anos foi o líder de venda da fábrica. Entretanto o exemplo é uma excepcionalidade, na realidade empresas multinacionais não acreditam em projetos feitos fora da matriz, salvo na presença de teimosos como Phillip Schmidt.

Poderia contar uma história de lá pela década de 80 que ilustraria muito bem isto, mas é muito longa, porém o que é claro que aquela balela que capital não tem nacionalidade e que o mercado é livre para quem quer exportar é uma imensa bobagem.

 

Márcio de Carvalho

- 2015-05-20 12:38:28

De novo, pois o link da fonte

De novo, pois o link da fonte acima está sem acesso:

https://brasilfatosedados.wordpress.com/2014/08/22/investimentos-externos-diretos-ied-u-bilhoes-brasil-evolucao-1995-2014/

Andre Araujo

- 2015-05-20 03:02:52

A exportação de manufaturados

A exportação de manufaturados do Brasil em grande parte de produtos manufaturador por subsidiarias brasileiras de multinacionais que escolheram o Brasil como plataforma para algumas linhas de seus catalogos.

Fiat e Caterpillar exportam bilhões de dolares de suas fabricas brasileiras, Volkswagen tambem, Voith e Siemens fazem certas turbinas só no Brasil. De empresas brasileiras há clçados, cosmeticos, aviões, material belico, só de aviões são 4 bilhões de dolares por ano.

Como todo Pais o Brasil PODE ser competitivo em ALGUNS tipos de produtos, não em tudo, essa é o modelo atual.

Márcio de Carvalho

- 2015-05-20 02:06:32

Para comprovar, vejam estes

Para comprovar, vejam estes dados / gráficos comparativos e evolutivos dos Brics:

 

INVESTIMENTOS EXTERNOS DIRETOS - IED - U$ bilhões - % - BRASIL x BRICS - Média (2005 - 2007) x 2013 - rev. BINVESTIMENTOS EXTERNOS DIRETOS - IED - U$ bilhões - BRICS x NAFTA x MERCOSUL - M (05 - 07) - 2013INVESTIMENTOS EXTERNOS DIRETOS - IED - pergentagem do total mundial - BRICS x NAFTA x MERCOSUL - M (05 - 07) - 2013

 

 

Fonte: https://brasilfatosedados.wordpress.com/2014/08/22/investimentos-externos-diretos-ied-u-bilhoes-brasil-evolucao-1995-2014/

rdmaestri

- 2015-05-20 02:05:48

Realmente, temos que parar de vender carne...

Realmente, temos que parar de vender carne e deixar para a exuberante pecuária inglesa que vende CARNE DE VACA CARNÍVORA nos substituir no mercado de carne.

O que Mariano diz é perfeito, temos com o dinheiro que conseguirmos investir em educação e P&D, não adianta dizer: OHH vamos parar de vender commodities e começar a vender aviões militares para os USA, navios para a Coreia, e eletrônicos para Taiwan!

O que me da raiva dos economistas deste tipo, é que eles acham que vender produtos industrializados de alto valor agregado é só uma questão de "vontade política".

O problema é que nossos "empreendedores" não sabem o que é pesquisa e copiam modelos antigos para vender no mercado interno, quando chega a hora de exportar quem vai querer artigos industrializados ultrapassados.

wendel

- 2015-05-20 00:23:07

Ahahaaha.............

Esquecí de postar no comentário anterior, mas aquí vai para reflexões;

"esta na moda odiar o Brasil " (Jim O’Neill), e como está, principamente para os pseudos-brasileiros que vão lá fora para falar mal da Nação !!!!!!!!!!!!!!!!!

wendel

- 2015-05-20 00:19:32

E ..........

Realmente o economista britânico Jim O'Neillste, sabe bem o que fala - " independência do BC.

Eles querem porque querem manipular o BC, e vivem dizendo isto, para convencerem os incautos de que, se isto acon tecer, não mais precisarão conversar com o Executivo e sim com o presidente do BC.

Criariam outro poder, e todos sabemos o que poderia ocorrer !!!

Na realidade, com os acordos fechados hj com a China, eles têm mais é que enfiar o dedo e se rasgarem!!!

Mas me preocupa a noticia de que o império esta movimentando tropas militares na costa do Peru!

Será que irão ficar quietos vendo que a águia pode estar sendo derrubada? Por enquanto economicamente, é claro !!!

Mariano S Silva

- 2015-05-19 20:46:04

O "engraçadinho da autonomia

O "engraçadinho da autonomia do BC" já deve estar sabendo do que aconteceu hoje...

O curioso é a eterna cantilena da dependência da economia brasileira das commodities. Como se pudéssemos jogar no lixo as imensas vantagens comparativas das quais o Brasil dispõe hoje. Porque será que os chineses estão aportando pesados investimentos no país? Porque será que estão investindo U$ 50 bilhões no canal da Nicarágua? Será para adquirir produtos do Caribe? E na ferrovia transoceânica? Por favor abram bem os olhos: o Brasil ainda dependerá durante um bom tempo das commodities. Como aliás, dependeram os EUA há cerca de um século atrás.

Industrialização, no mundo de hoje, só é possível com altíssima educação. Maquiladoras só se prestam ao discurso dos idiotas incultos, ou dos espertalhões sem um mínimo de escrúpulos. É muito didático assistir o filme: A Cidade do Silêncio. Só para informar a quem não sabe: a China já está desenvolvendo e testando projetos de mineração na Lua e asteróides! Quem ainda pensa que a China é u'a mera copiadora está redondamente enganado. Está quase pronto um avião de combate, com motor chinês e tudo, que assumirá a liderança no ar nos próximos anos. Vejam só o nome dos autores de inúmeros "papers" em ciência e tecnologia que estão sendo publicados atualmente. O espanto é garantido...

Seu Zé

- 2015-05-19 20:03:33

"O economista britânico Jim

"O economista britânico Jim O’Neill" mais "o jornal O Globo" não poderia ser outro o discurso.

Athos

- 2015-05-19 19:25:11

O velho lobby para

O velho lobby para independência do BC...

 

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