Encobrindo um erro

Coluna Econômica – 06/04/2007

As discussões sobre as razoes da apreciação do câmbio são ociosas. Em qualquer país racional, quando o câmbio começa a despencar inviabilizando a produção interna, a primeira medida é consertar, impedir a continuidade do processo.

Por aqui, fica-se em um lenga-lenga interminável. A última do Banco Central foi atribuir a apreciação do câmbio ao superávit comercial. Nos últimos dois meses, o que o BC comprou de dólares foi muito superior aos dólares que entraram via balança comercial. Mesmo assim, o dólar não parou de cair, encerrando a semana nos R$ 2,00.

A formação de preços de ativos, como o dólar, se dá nos mercados. Quando as taxas de juros internas são muito superiores às taxas internacionais, e se permite o livre fluxo de capitais, os dólares vão entrando, ganhando nos juros e na apreciação do real, até um limite considerado perigoso. Esse limite é aquele em que as autoridades começam a pensar em reverter a valorização da moeda.

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Tanto na queda quanto na alta ocorre um movimento de manada. Hoje em dia o mercado começa a apostar no dólar a R$ 1,90. Mas muitos grandes bancos definiram que o “gatilho” (a hora de reverter) será quando o dólar bater em R$ 1,80.

Aí, mesmo que o governo não interfira, há um movimento de mola para cima. Os investidores começam a apostar em uma desvalorização do real simplesmente porque acham que outros investidores estão pensando o mesmo. Esses movimentos são quase autônomos, depois que a manada estoura.

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O ponto central é que o BC ficou prisioneiro do seu erro de, logo após o lançamento do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) ter reduzido o ritmo de queda dos juros.

Foi uma atitude voluntariosa, de demonstração de poder, que o jogou em uma armadilha. Poucos dias depois as expectativas de inflação eram muito mais baixas do que aqueles nas quais o BC estava apostando. O dólar começou a deslizar em seguida, demonstrando na prática a gravidade do erro cometido.

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A reação do BC foi, de um lado, passar a conversar reservadamente com o mercado a fim de demover as análises que mostravam seu erro. Tratou-se claramente de uma manobra intimidatória, conforme relatos colhidos pela revista “Carta Capital”.

Ao mesmo tempo, seu Departamento Econômico passou a trabalhar com expectativas inverossímeis para preços administrados. Esses preços são de fácil medição, já que entram nessa conta tarifas públicas reajustadas por índices de inflação, muito fáceis de serem estimados, ainda mais com o ano chegando a abril.

Curiosamente, o BC passou a trabalhar com expectativas de alta de até 3,6% nesses preços, enquanto o mercado trabalhava com queda de igual magnitude.

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O outro lado da manobra do BC para ocultar seu erro foi evitar de todas as maneiras explicar sua posição internamente, junto à área econômica ou ao Planalto. Criou-se esse estranhíssimo paradoxo do BC externamente prestar contas (na verdade, tentar intimidar os recalcitrantes do mercado) e internamente não dar satisfações.

Com o Ministro da Fazenda Guido Mantega jogando a toalha, com um BC em que o presidente pouco apita, vai se ver o dólar derretendo mais ainda.

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