Entre milho e soja, onde vai parar o Brasil? (3/4), por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Não são somente os subsídios que distorcem o mercado de commodities. Justamente pelo fato de haver bolsas espelhadas pela face do globo, outros fatores influenciam o fluxo das operações. A taxa de câmbio é um deles

Entre milho e soja, onde vai parar o Brasil? (3/4)

Grãos e a fome no mundo.

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Apesar de este texto calcar-se em milho e soja, deve estar bem claro que o mesmo acontece com todas as commodities, visto que as bolsas de mercadorias, que existem há pelo menos seis séculos, estão espalhadas pelo mundo a fora. Nem todos os itens são comerciados em todas as bolsas. Café e borracha,  por exemplo, só são negociados em Londres.

O pai de Obama teve uma vida conturbada num país recém independente. Por causa disso suas ideias não foram muito divulgadas. Ele procurou explicar o motivo de a produção africana de grãos ser ínfima perante a população do continente. Ele explicou o mecanismo europeu de manutenção de reservas estratégicas.

Grãos não se podem guardar eternamente. São seres vivos e têm seu ciclo, por mais que se tente transformar os silos em microambientes ideais para sua conservação. Eles perdem água e consomem suas reservas, numa perda de 5% em peso a cada ano, no que se convencionou chamar de perda técnica. Por causa disso, é preciso manter a umidade controlada, se seco demais, protege-se contra fungos e bactérias, enquanto os grãos se desidratam; se úmido demais, resguarda-se o peso mas acelera-se o ataque por microrganismos. De qualquer forma, é preciso repor os grãos periodicamente.

Os subsídios americanos e europeus, que ultrapassam os 30% do preço final, fazem com que a produção seja maior que o consumo. Nesse regime, o produtor recebe cem unidades monetárias, enquanto o comprador paga somente setenta para o mesmo volume. É o Estado que arca com as restante trinta unidades. Para desocupar espaço na infraestrutura de armazenamento, acelera-se a reposição. A Europa descarrega gratuitamente na África como auxílio humanitário, asfixiando qualquer tentativa de produção local e gerando dependência alimentar perene. O pai de Obama pregava que a doação erra concorrência desleal e que a África só seria autossuficiente se os subsídios fossem extintos. Os subsídios também alteraram a colocação de muitos países no ranking. Um exemplo clássico é o do milho no México que, depois da entrada no Nafta, caiu da terceira posição para  a oitava, sendo suas 28 T milhões aproximadamente 20% de sua produção de há trinta anos. É que, mesmo não de graça, os estados Unidos colocam lá seu excedente ao preço praticado internamente, tirando a competitividade do agricultor local.

Os subsídios têm uma função ainda mais perversa, a de pasteurizar o padrão de consumo. Antes da descoberta da América, não se consumia milho no velho Mundo. Por que impô-lo a todos os povos? Hoje, ele é plantado em todo o planeta, até nos países mais frios, como efeito colateral do hibridismo e uso de pesticidas e herbicidas  advindo da Revolução Verde dos anos 1930, que deu o Prêmio Nobel da pas a Norman Borlaug (1914-2009). O efeito desejado era acabar com a fome no mundo e, de fato, a produção indiana e mexicana de milho e trigo realmente explodiu. Mais tarde, pelo uso de sementes transgênicas, as barreiras geográfica simplesmente desapareceram. Para que se tenha uma ideia, a China é o segundo produtor de milho com 240 T milhões, o dobro do Brasil, que é o terceiro, ambos atrás dos Estados Unidos, com seus 381 T milhões. A União Europeia vem em quarto com 77 t milhões, cabendo lembrar que o Brasil só a ultrapassou na última década, quando o milho safrinha alcançou produtividade próxima à da safra principal.

A soja fez percurso inverso, pois partiu da China para o Novo Mundo, que soma quase 60% da produção mundial, sendo o Brasil o maior produtor, os Estados Unidos o segundo e Argentina o terceiro, enquanto a China tem uma produção que não chega a 14% da brasileira.

Não são somente os subsídios que distorcem o mercado de commodities. Justamente pelo fato de haver bolsas espelhadas pela face do globo, outros fatores influenciam o fluxo das operações. A taxa de câmbio é um deles, talvez, o mais importante, pois torna a mercadoria em reserva de valor, tal e qual uma moeda forte. Se não houver estoques reguladores, a tendência é a volatilidade em ressonância, ou seja, as variações cambiais multiplicam as variações de preço das mercadorias, fomentando uma especulação predatória, não a de compra de risco como analisado na matéria anterior. O resultado só poode ser a fome num mar de grãos.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

0 Comentário

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador