Faltou a economia

Coluna Econômica – 10/10/2006

Na discussão entre Lula e Geraldo Alckmin, no debate da TV Bandeirantes, falou-se de pouco, menos ainda do essencial: a política econômica, à medida que ocorre a contagem regressiva para o final do atual ciclo mundial de bonança.

Há uma bonança de dólares no mundo. Há uma explosão no preço das principais commodities minerais. Esses dólares entram e saem livremente do país, através do mercado financeiro ou através da balança comercial. Com o superávit nas contas correntes, e o aumento da liquidez dos títulos brasileiros no exterior, ocorreu uma redução no chamado “risco Brasil” (o adicional de risco, sobre a taxa básica americana, para os papéis brasileiros). Como o Banco Central não promoveu um corte nos juros internos proporcional à queda do “risco Brasil”, aumentou o diferencial de juros, atraindo mais dólares, apreciando o real (isto é, tornando o real mais forte), e reduzindo a inflação.

Em um primeiro momento, cria-se o melhor dos mundos. Com a valorização do real a inflação cai, o salário real aumenta. Muitos setores exportadores começam a ficar sufocados pelo câmbio, mas, nesse primeiro momento, a soma dos beneficiados é maior do que a dos prejudicados.

Só que esse quadro não se sustenta. Como se permite a livre entrada e saída de dólares pelo mercado financeiro, da mesma maneira que entraram, esses dólares financeiros podem sair. Uma elevação das taxas de juros americana, uma crise no mercado habitacional de lá, a quebra de um grande fundo, um movimento especulativo mais forte do petróleo, um aumento da percepção de risco para os investidores internacionais, tudo isso é motivo para movimentos de manada, de dólares saindo..

Do lado das commodities minerais (como minério de ferro ou alumínio), um soluço da economia chinesa será suficiente para derrubar as cotações e a quantidade exportada.

Qualquer desses movimentos poderá provocar uma fuga de dólares que, por sua vez, levará a uma desvalorização do real que, por sua vez, provocará uma nova elevação da inflação que, por sua vez, provocará nova elevação das taxas de juros. Ou seja, a política de juros do BC mira um alvo só: a inflação. Mas consegue um equilíbrio instável, que poderá ser rompido a qualquer momento por uma crise internacional, jogando todos os sacrifícios por terra.

O grande desafio do próximo governo – seja um segundo governo Lula ou um primeiro Alckmin – será preparar o Brasil para enfrentar o fim dessa bonança de quatro anos, desperdiçada pela política monetária da dupla Palocci-Meirelles.

Haverá a necessidade de acelerar a redução dos juros e permitir uma desvalorização do real, recompor a balança comercial e ressuscitar as exportações de manufaturados, definir novas políticas de recuperação das cadeias produtivas massacradas pela apreciação do real. E, principalmente, começar a discutir a sério a questão do controle sobre os fluxos de capitais.

Esse acerto de contas será inevitável. A única dúvida que fica no ar é sobre quanto tempo se terá pela frente, antes que a crise internacional comece a se manifestar.

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