‘FMI Go Home’, por Daniel Gros

Vinculação com financiadores europeus reduziria os juros e os custos para os gregos

Jornal GGN – As cortinas subiram para um novo drama da dívida grega: os ministros das Finanças da zona do euro e do FMI (Fundo Monetário Internacional) entraram em acordo para que a Grécia, atendendo aos pedidos do FMI, gere algum alívio para as dívidas do país e libere 10,3 bilhões de euros em fundos de resgate. Por sua vez, os gregos concordaram em adotar uma nova rodada de austeridade e reformas estruturais.

Até recentemente, o FMI afirmou que iria integrar o próximo programa de resgate grego apenas se considerasse a dívida sustentável. “Com base na recente análise de sustentabilidade efetuada pelo FMI, isso não vem ao caso”, explica Daniel Gros, diretor do European Policy Studies de Bruxelas, em artigo publicado no site Project Syndicate. “Contudo, a Alemanha insistiu que o FMI continuasse a bordo – e, como o recente acordo parece ter prevalecido, em troca do alívio da dívida ao qual se opôs”.

Contudo, Gros acredita que o sacrifício pode não ter valido a pena, e que poderia ter sido melhor deixar o FMI de fora. “Em primeiro lugar, as avaliações do FMI de sustentabilidade da dívida na Grécia são minadas por um profundo conflito de interesses. Segundo, e mais importante, os créditos do FMI são muito caros”, pontua o articulista.

Em um processo de resgate normal, o FMI age como um “juiz imparcial da sustentabilidade da dívida do país” e então, caso deseje, pode entrar em cena como o credor de último recurso, e foi o que ocorreu em 2010, quando o setor privado quis fugir da Grécia. Contudo, atualmente possui algumas obrigações no setor privado. Os governos da zona do euro são os que oferecem grandes quantidades de financiamento. Por seu lado, o FMI tem um grande volume de créditos pendentes.

“Se os credores da Grécia aceitassem um corte, os créditos do FMI seriam mais seguros – daí o conflito de interesses”, explica Gros. “Com efeito, a análise da sustentabilidade da dívida do FMI dificilmente pode ser considerada neutra, e certamente seria rejeitada por representantes do setor privado. Um juiz neutro – E não um dos credores – geralmente define os termos em processo de falência”.

Para o articulista, isso não quer dizer que a conclusão do FMI esteja necessariamente errada. “Na verdade, pode-se debater a questão da sustentabilidade da dívida da Grécia indefinidamente”, diz Gros. “Alguns podem suspeitar que a dívida da Grécia é sustentável, uma vez que o governo grego tem de pagar menos juros do que Portugal ou Itália, sendo que ambos têm níveis de dívida muito mais baixos”.

Contudo, o FMI diz que as necessidades de refinanciamento grego irão superar o limite arbitrário de 15% do PIB (Produto Interno Bruto) em algum momento – possivelmente, em 15 anos. Segundo o articulista, “o que o FMI não consegue destacar é que, se isso acontecer, será principalmente por causa do próprio FMI – ou, mais precisamente, o alto custo de seus empréstimos”. 

O fundo monetário cobra uma taxa de juro muito mais elevada (até 3,9%) do que os europeus (ligeiramente acima de 1%, em média), em grande parte porque ele tem sobretaxas de até 300 pontos-base sobre os seus próprios custos de financiamento, em comparação com menos de 50 pontos base para os credores europeus. Além disso, os empréstimos do FMI são reembolsados ​​em um período de cinco a sete anos, em média, em comparação com o período de até 50 anos para o financiamento europeu. “O FMI afirma que os empréstimos serão substituídos por empréstimos do setor privado com taxas de juros ainda mais elevados (mais de 6%). Isso faria com que a dívida da Grécia se tornasse uma bola de neve, uma vez que o crescimento do PIB é altamente improvável para alcançar essa taxa no futuro previsível”, diz o articulista.

Segundo Gros, o que se pode fazer para evitar esse resultado é substituir o financiamento do FMI por empréstimos europeus de longo prazo – “com essa mudança, a dívida grega pode muito bem tornar-se sustentável, mesmo para os padrões do FMI”, diz o economista. “Isso exigiria mais financiamento do fundo de resgate da zona do euro, mas os riscos também seriam menores, uma vez que o FMI possui “status de super-sênior”, o que significa que seus empréstimos tem prioridade no reembolso (note-se que o credor mais antigo geralmente cobra o menor juro, e não o mais elevado, como faz o FMI)”.

O articulista ressalta que não é apenas a Grécia que sofre com os altos custos de empréstimos do FMI. “Os empréstimos pendentes do FMI efetuados por Irlanda e Portugal também devem ser refinanciados. Se os empréstimos do FMI são substituídos por financiamento do mecanismo de resgate europeu, os contribuintes da zona do euro vão economizar centenas de milhões de euros por ano”.

 

(Tradução livre por Tatiane Correia)

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