Furtado e o mimetismo econômico

Enviado por Salvador Werneck Vianna

Prezado Nassif:

Estou há algum tempo pra te mandar essa mensagem. Certamente vc já deve ter lido, mas um clássico é sempre um clássico. E as noites de sexta lhes são sempre propícias.

Celso Furtado, Formação Econômica do Brasil, parágrafos finais do cap. 27, “A tendência ao desequilíbrio externo”. O contexto é a análise da transição da economia brasileira para o trabalho assalariado, e o objeto é a inconsistência da política monetária, baseada no padrão-ouro (e fundamentada na teoria quantitativa da moeda), que gerava grandes dificuldades para a gestação de um processo de desenvolvimento. Aí vai (dou-me ao trabalho de citar por extenso porque já o estou fazendo na minha tese):

“Se se observa a natureza dos fenômenos cíclicos nas economias dependentes, em contraste com as industrializadas, percebe-se facilmente por que aquelas estiveram sempre condenadas a desequilíbrios de balança de pagamentos e à inflação monetária.”( p.158)

“Nas economias dependentes a crise se apresenta de forma totalmente distinta, tendo início com uma queda no valor das exportações, em razão de uma redução seja no valor unitário dos produtos exportados, seja nesse valor e no volume total das exportações.(…) Em tais condições, é fácil prever as imensas reservas metálicas que exigiria o pleno funcionameno do padrão-ouro numa economia como a do apogeu do café no Brasil. À medida que a economia escravista-exportadora era substituída por um novo sistema, com base no trabalho assalariado, tornava-se mais difícil o funcionamento do padrão-ouro”. (pp. 159-60)

“(…) A ciência econômica européia penetrava através das escolas de direito e tendia a transformar-se em um ‘corpo de doutrina’, que se aceitava independentemente de qualquer tentativa de confronto com a realidade.(…)”

“Essa inibição mental para captar a realidade de um ponto de vista crítico-cientíico é particularmente óbvia no que diz respeito aos problemas monetários.(…) Na moeda que circulava no Brasil via-se apenas o aspecto ‘patológico’, ou seja, sua ‘inconversibilidade’.(…) Todos os esforços se gastam numa tarefa que a experiência histórica demonstrava ser vã: submeter às regras monetárias que prevaleciam na Europa. Esse enorme esforço de mimetismo – que derivava de uma fé inabalável nos princípios de uma doutrina que não tinha fundamento na observação da realidade – se estenderá pelos três primeiros decênios do século XX.” ( p.160)

Doutrina, Nassif. Esse é o termo correto para designar a “torrente” de pensamento a que tivemos de ser submetidos na última década e meia. Ainda não estamos salvos, é verdade, talvez nunca estaremos, mas é inegável que a maré às vezes melhora. Principalmente quando ainda tivermos um Celso pra recorrer.

Sei que o e-mail já vai longo, mas tomo a liberdade de fazer só mais uma citação, esta absolutamente genial, como vc haverá de concordar. É no brilhante cap. 18, “Confronto com o desenvolvimento dos EUA”. Comparando Hamilton e Cairu:

“Ambos são discípulos de Adam Smith, cujas idéias absorveram diretamente e na mesma época na Inglaterra. Sem embargo, enquanto Hamilton se transforma em paladino da industrialização, (…), advoga e promove uma decidida ação estatal de caráter positivo (…), Cairu crê supersticiosamente na mão invisível e repete: deixai fazer, deixai passar, deixar vender”. (p. 101, grifos no original).

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