Grande Mestre: Carlos Lessa, Intérprete do Brasil, por Fernando Nogueira da Costa

Sempre o admirei por sua imensa cultura e prazeroso humor. Assisti-lo ou conversar com ele era divertidíssimo.

Foto Metro Jornal

Grande Mestre: Carlos Lessa, Intérprete do Brasil

por Fernando Nogueira da Costa

Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa era professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 2003. Lessa foi professor do Instituto Rio Branco, ministrou cursos na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e no Instituto Latino-americano de Pesquisas (Ilpes), da ONU, da Universidade do Chile e da Unicamp. Foi ainda consultor da Fundação para o Desenvolvimento da Administração Pública (Fundap). É autor dos livros “Quinze anos de Política Econômica”, “O Conceito de Política Econômica: Ciência ou Ideologia?”, e “O Rio de todos os Brasis”, entre outros.

Foi meu professor de “Economia Brasileira”, dividindo a docência com a professora Maria da Conceição Tavares, ela ensinando a evolução cíclica, ele dando aulas sobre a política econômica, no primeiro curso oferecido em conjunto por eles no Mestrado da UNICAMP, em 1976. Era um espetáculo, cada qual dando o melhor de si. Considero o Lessa o melhor orador entre todos os economistas. Ninguém o consegue superar em metáforas humorísticas!

Sempre o admirei por sua imensa cultura e prazeroso humor. Assisti-lo ou conversar com ele era divertidíssimo. Mesmo quando tínhamos nossas diferenças políticas, ambos sendo militantes no início dos anos 80, reencontrávamos em reuniões político-sindicais, provocávamos um ao outro, e ríamos!

No início dos anos 80, ele era então militante (e candidato a deputado) do PMDB, eu era um entusiasta organizador do Núcleo de Economistas do Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro. Ele provocava: – “Fernando Mineiro, o último radical!” Eu retrucava: – “Professor Lessa, o único campineiro chaguista!” Chaguista era referência ao Governador Chagas Freitas, governador da Guanabara (1971 a 1975) e do Rio de Janeiro (1979 a 1983) pelo PMDB. Seu nome deu origem ao termo “chaguismo”, designando sua forma particular de utilizar a máquina pública estatal para vencer as eleições. Ele dominou a política carioca e fluminense de 1970 a 1982. A gozação era porque seus colegas professores da Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo, davam assessoria ao presidente do PMDB, Ulysses Guimarães.

De 21 a 23 de agosto de 1981 foi realizado o maior encontro sindical na época da ditadura militar. A importância foi histórica, dada reorganização das forças sindicais. Mais de 5 mil delegados de mil entidades participaram em Praia Grande, litoral sul paulista, da 1ª Conclat (Conferência Nacional da Classe Trabalhadora). Foram três dias de discussões envolvendo, pela primeira e única vez, todas as correntes de pensamento atuantes no sindicalismo. Ali foi aprovada a decisão de se criar uma Central Única. Isso aconteceria apenas dois anos depois com a formação da CUT.

O movimento de economistas de oposição ao regime ditatorial, no Rio de Janeiro, era organizado na época via IERJ-CORECON-Sindicato. A categoria profissional tinha direito a escolher um pequeno número de delegados para participar da 1ª Conclat. Carlos Lessa, naturalmente, foi o mais votado, mas eu fiquei em seguida com diferença muito pequena de votos. Contaram-me a Professora Conceição ter ficado espantada. Ela teria comentado: – “Que absurdo! Aquele desconhecido, o Fernando Mineiro, quase venceu o Professor Lessa!” O PT já comparecia…

Os anos se passaram e nos reencontramos no primeiro Governo Lula. Em vez em quando eu tinha o prazer de trocar ideias com ele a respeito do cenário. Ele teve a coragem de dar um verdadeiro “cavalo-de-pau” no “transatlântico BNDES”, transformando-o de “banco de negócios”, focado em privatizações, em um verdadeiro Banco de Desenvolvimento. Graças ao Carlos Lessa houve a reestatização da Vale. Mas ele não tinha nenhuma tolerância com os neoliberais ainda instalados no Banco Central do Brasil. Curiosamente, aí invertemos os papeis, eu atuava como “bombeiro”, sugerindo-o moderação. Mas ele não tinha “papas na língua”, falava tudo de impulso. Cheguei a avisá-lo, quando o Henrique Meirelles soltou uma nota impressa com críticas ao crédito direcionado do BNDES e da Caixa, em reunião do Conselhão (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – CDES), no Palácio do Planalto. Eu pude presenciar, mas ele não viu o recolhimento da nota. Porém, quando a imprensa foi entrevistar o Lessa a respeito, ele “descascou” o Meirelles. Infelizmente, este ficou, Lessa saiu…

Depois de muitos anos sem revê-lo, tive o prazer de reencontrá-lo, no saguão do Aeroporto Santos Dumont, esperando o voo para Campinas, onde iríamos participar do Seminário da Rede dos Desenvolvimentistas. Perante os colegas Ernani Torres e Ricardo Bielschowsky, generosamente, ele me brindou com um dos maiores elogios possíveis de um discípulo receber de seu mestre: o reconhecimento de mérito profissional. Emocionei-me até às lágrimas, inclusive pelo inesperado da situação.

Desfrutei de prazer imenso, no dia seguinte, presenciando sua participação ativa no Seminário, sem nenhuma autocensura. Foi divertidíssimo escutar tudo o que lhe vinha à cabeça. Ele disse: – “Depois de velho [nasceu em 1939], falo tudo que penso”. Logo depois, se corrigiu: – “Na verdade, sempre disse…” É verdade, sou testemunho; mesmo quando isso tenha lhe custado certos dissabores.

Anotei muito dito por ele, em aulas e palestras, mas não consegui guardar todas suas inesperadas intervenções bem-humoradas, chamando atenção para alguns aspectos inusitados. Arrependi-me de não ter memorizado todas as suas metáforas. Guardei a famosa “para se apresentar o Brasil a um estrangeiro, leve-o a um restaurante a quilo; será o único lugar do mundo onde verá a mistura brasileira: sushi e sashimi com arroz e feijão!” Ele acrescentou outra profunda reflexão a respeito da preocupação dos brasileiros com sua imagem pública: “verá também alface cobrindo nhoque”.

O professor Carlos Lessa, em uma aula famosa, dada nos anos 70. Usou um exemplo para ilustrar uma operação analítica, cujo objeto era: uma vaca! Dessa metáfora ele deduzia toda análise econômica ser uma operação de partição de ideias. A operação analítica se dá com um objeto idealizado. A coleção de partes obtidas pelo analista é composta de conceitos. Mas esse objeto colocado sob análise admite, da mesma maneira feita com a vaca Madalena, inúmeros modos de partição. Por trás de cada conjunto de conceitos econômicos, existem critérios implícitos ou explícitos. Dependendo dos conceitos tomados, mantendo oculto o critério de partição, podemos demonstrar qualquer coisa, mas não ressuscitaremos a Madalena, isto é, O Todo antes destrinchado, seja por um açougueiro, seja por um veterinário.

Mas quem era o Lessa? Como ele mesmo se apresentava, era filho da aristocracia carioca. No entanto, sua mãe lhe ensinou a gostar do povo brasileiro. Ela foi uma das primeiras mulheres da alta sociedade carioca a fazer assistência social nos morros. Negros frequentavam sua casa.

Carlos Lessa não era um único. Ele se desdobra em múltiplos interesses. Era capaz de discorrer com profundidade desde cerâmica chinesa (e os contextos por ela ilustrada) até sobre a Barra da Tijuca como o laboratório de uma futura “carioquização”. Passava seu olhar por todos os países, com foco incomum sobre o nosso País.

Ele é intérprete do Brasil. Ler o Lessa é ler o carioca, o nacionalista, o popular, o contra-oneomania, o crescimentista, o estadista, o protecionista, o desenvolvimentista, o estrategista.

Para entender o fio-condutor do pensamento econômico, social e político de Carlos Lessa, creio a ideia-chave ser a da Nação. A etimologia coloca a origem dessa palavra no latim natio, de natus (nascido). Seu elemento fundamental é a reunião de pessoas, geralmente do mesmo grupo étnico, falando o mesmo idioma e tendo os mesmos costumes, formando assim, um Povo. Seus componentes trazem consigo as mesmas características étnicas e se mantêm unidos pelos hábitos, tradições, religião, língua e consciência nacional.

A rigor, os elementos território, língua, religião, costumes e tradição, por si sós, não constituem o caráter da Nação. São requisitos secundários integrantes de sua formação. O elemento dominante se mostra na condição subjetiva de seus habitantes para a evidência de uma nação. Assenta-se no vínculo capaz de unir esses indivíduos, determinando entre eles a convicção de um querer viver coletivo. Fundamental é a consciência de sua nacionalidade, em virtude da qual se sentem constituindo um País, distinto de qualquer outro, com vida própria, interesses especiais e necessidades peculiares.

O Estado é uma forma política, adotada por um Povo com vontade política ou por vários povos de nacionalidades distintas. Só constitui uma Nação caso se submetam a um poder público soberano, emanado da sua própria vontade. Este lhes vem dar unidade política. Nesse caso, a Nação preexiste ainda sem qualquer espécie de organização legal. Habitualmente, é utilizada em sinonímia de Estado. Na realidade, significa sua substância humana. Atua aquele em seu nome e no seu próprio interesse, isto é, pelo seu bem-estar, por sua honra, por sua independência e por sua prosperidade.

Como posso expressar tudo aprendido com meu querido e Grande Mestre Carlos Lessa? Seu pensamento nacionalista e humor me inspiraram – e sempre me inspirarão!

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Mercados e Planejadores Imperfeitos” (2020). Baixe em: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora