Juros e ineficiência – 2

Vamos explorar mais um pouco o tema juros versus ineficiências, a partir dos comentários do leitor Marcos, postado na nota anterior.

Diz ele:

“Vamos nos lembrar de quem estava de que lado da discussão. Eu defendia (e defendo) que deve ser computado o custo de oportunidade do capital. Você dizia que não. Ergo, quem mudou de idéia foi você”.

“Quanto à tributação, claro que é custo, mas o argumento do Schwartzman -se bem entendi – não é que se investe pouco porque não tem estrada, ou porque tem burocracia, mas porque a carga tributária “come” o retorno do investimento por um lado e que o gasto público reduz a disponibilidade de recursos pelo outro”.

“Falta quantificar, mas a lógica faz sentido”.

Vamos aos pontos centrais:

É evidente que o custo de oportunidade é peça central em qualquer decisão de investimento. Marcos sustenta que a tributação excessiva “come” o retorno do investimento e é por isso que não se investe.

Para que seu raciocínio fosse correto, as empresas teriam que mostrar balanços com resultados pífios. No entanto, o grupo das maiores empresas nacionais (as que comandam as decisões de investimento) tem apresentado balanços invejáveis, retornos consistentes sobre o capital investido, apesar da tributação excessiva e outros componentes do custo Brasil. Portanto a premissa do Schwartzman (apud Marcos) é rebatida pela simples análise dos resultados das empresas.

O Marcos dá toda essa volta para fugir do tema central, que são as taxas de juros. Como tem muita tributação, as empresas analisam o custo de oportunidade e não investem. Como não investem, o Banco Central é obrigado a aumentar os juros para impedir o excesso de demanda.

Esqueceu de dizer que o custo de oportunidade é função direta da taxa de juros básica da economia. Quanto maior a taxa de juros básica, maior a taxa de retorno que a empresa irá querer para poder investir.

Se a taxa básica é 5% ao ano, por exemplo, a empresa começa a investir a partir da convicção de que o investimento produtivo possa render, digamos, 10% ao ano. Se a taxa é 15% ao ano, só começará a investir a partir da garantia de taxa de retorno de 20% ao ano (já que a atividade produtiva embute riscos que a aplicação em títulos públicos não têm). Uma taxa Selic a 14,5% mata todos os investimentos cuja taxa interna de retorno prevista é inferior a 14,5%.

Mais ainda. Para melhorar a taxa interna de retorno, é fundamental perspectiva de crescimento da demanda. É a escala que garante o aumento da rentabilidade.

Ao aumentar os juros, o BC estanca a demanda. Estancando a demanda, estanca o investimento. Estancando o investimento, aumenta os juros para estancar a demanda, porque o investimento não vai ser efetuado.

Mais que isso: quando o real se valoriza (como efeito da taxa de juros elevada) há um movimento de repatriação de lucros de muitas multinacionais, para aproveitar o real forte. Suponha uma empresa telefônica que tenha um lucro de R$ 500 milhões. Com o dólar a R$ 2,10, esse valor corresponderá a US$ 238 milhões. Com o dólar a R$ 2,50, a US$ 200 milhões (16% a menos). Em vez de investir, ela repatria recursos.

Dá para notar a fragilidade desse paradigma da bolacha Tostines?

Não é apenas uma questão de quantificar, como diz o Marcos. É também o de estabelecer as relações corretas de causalidade entre juros, demanda e investimento.

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