Madoff e o Brasil

Coluna Econômica – 13/02/2009

A pirâmide de Bernard Madoff – o ex-presidente da Nasdaq autor de um rombo de US$ 50 bi no mercado mundial – deixou várias vítimas no Brasil.

Tempos atrás, em meu Blog (www.luisnassif.com.br), a comentarista Bianca Feijó já havia antecipado vários pontos que agora começam a vir à tona.

O maior representante de Madoff no Brasil era Bianca Hagler, do grupo Fairfield Greenwich Group), filha de Alex Haegler. A família é milionária, com trânito em Milão, Londres, Madri, Genebra e Rio de Janeiro.

Tia de Bianca, Mônica Haegler é casada com o americano Walter Noel – melhor amigo e sócio há 20 anos de Bernard Madoff. E os Haegler têm relações de parentesco com Jorge Paulo Lehman, da Inbev.
Foi através da família da esposa, que Walter trouxe a pirâmide Madoff para o Brasil. Por aqui, a distribuição dos produtos ficou a cargo do Banco Safra, com sede também na Europa e nos Estados Unidos.
Os primeiros clientes foram frequentadores do Country Club, do Rio de Janeiro. Devido ao tombo, os Haegler foram proibidos de continuar frequentando o clube.
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A posição mais delicada é a do Banco Safra. Para aplicar nos fundos Madoff, o Safra montou em abril de 2006 uma empresa, a ZEUS PARTNERS LIMITED, com sede nas Ilhas Virgens. A empresa é controlada em 100% pelos Safra e seu board é constituído por Gerard Vila, Michael Paton and Charles Galliano.
O custodiante da companhia é o Banco Safra de Gibraltar. E a companhia se responsabiliza pela avaliação da origem dos recursos depositados – para evitar qualquer risco de se envolver com dinheiro ilegal.
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É aí que o jogo começa a complicar para o lado dos Safra.

Há cerca de uma centena de investidores no Zeus Partners. Conforme divulguei em meu blog, o diretor de CRM (sistemas de gerenciamento de clientes) de um grande portal, por exemplo, perdeu US$ 3.015.431,98; um ex-dirigente do Banco Santos (que está com os bens bloqueados) tinha US$ 1.073.435,35 em sua conta; o diretor executivo de TI de uma empresa média de informática tinha fabulosos US$ 13.270.567,51; e uma funcionária de TI da Secretaria da Fazenda de São Paulo US$ 565.129,15.

Todos esses casos são, no mínimo, indicativos de possível lavagem de dinheiro.

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Nos prospectos do Safra, não havia nenhuma indicação de que o dinheiro seria aplicado no exterior, em fundos Madoff.

Mais que, isso, Nova York destinou ao caso o promotor Robert Morgenthal de Manhathan, o mesmo que atuou, por lá, no caso Banestado – que envolvia um banco nova-iorquino e está por trás do bloqueio de dinheiro do Opportunity Fund.

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A crise global acelerou um processo que era irreversível, mas fica sendo tocando lentamente: a desmontagem do enorme caldeirão das aplicações internacionais, no qual se misturavam de aplicações legal a caixa dois, passando por dinheiro de crimes políticos, de golpes corporativos e do submundo dos doleiros.

É mais um capítulo desse enorme jogo financeiro que se formou ao longo dos últimos trinta anos e que agora começa a implodir. Quebras, golpes, vítimas, todo esse caldeirão ajuda a reforçar a ação dos sistemas de repressão nacionais, agora atuando em conjunto em torno da chamada cooperação internacional.

Comentário

A quem estranhou o repeteco do assunto. Tenho uma coluna diária, que sai em vários jornais, onde, às vezes, aproveito material divulgado durante o dia pelo Blog. Daí a repetição de alguns temas.

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18 comentários

  1. Sinal dos tempos… Lilly
    Sinal dos tempos… Lilly Safra, viúva do banqueiro Edmond Safra, está vendendo a Villa Leopolda, está vendendo a Villa Leopolda, mansão na Côte d’Azur considerada a mais cara do mundo.
    O preço inicial era de 500 milhões de euros, mas ela terminou sendo comprada por um oligarca russo por 200 milhões.
    Tempos bicudos…

  2. Parece que o Brasil é um
    Parece que o Brasil é um paraíso para pirâmides, né não?

    Teve uma Amway se alastrando no circuito das compras cotidianas, teve o Boi Gordo, teve o Avestruz (que fim levaram o Boi Gordo e o Avestruz, Nassif?) e agora esse Madoff.

    O mesmo pessoal do Boi Gordo montou a pirâmide do ouro, no fim dos anos 80. Aliás, sobre o Boi Gordo, boa pergunta.

  3. A impressão que tenho é que
    A impressão que tenho é que Boi Gordo, Avestruz, Madoff são a ponta de uma (Iliteralmente) de uma pirâmide que, na realidade, é a lógica de tudo o que foi construído até o momento no mundo capitalista: quem pode mais chora menos, Wall Street e o mundo corporativo. Na ponta os trabalhadores com carteira ou autônomos, os escravos ou semi e toda a “mão-de-obra” pronta para colher as migalhas dos milhões arrecadados para uns poucos.

    Se uma mansão estava sendo oferecida por 500 milhões e acabou sendo vendida por 200, isto signfica que mesmo 200 milhões é muito dinheiro. Os 300 a mais sairiam de onde se não da exploração desta grande base de “mão-de-obra” do mundo….

    É este esquema todo que está em cheque. Tenho falado com um italiano que está em Berlin, tendo passado janeiro inteiro, na neve, morando na rua por falta de moradia. Ele tem uns 2 mil euros mas não consegue voltar ao seu país de origem. Depois de ter passado os últimos 15 dias num abrigo, amanhã volta para a rua, por não ter encontrado um lugar para morar e medo de gastar o dinheiro alugando uma casa e perder o pouco que tem. São estas experiências que acredito estejam fazendo muita gente, que nem pensava como e onde gastava o seu dinheiro, agora se preocupar com a sobrevivência imediata.

    Existe ainda muito dinheiro “sobressalente” circulando às custas desta espiral de exploração.

  4. Tenho a impressão que a
    Tenho a impressão que a familia Safra pode ter surpresas criminais nesse processo, mesmo com todo o dinheiro que possuem.

    Nos EUA é claro, onde não tem esse STF de corruptos do Brasil.

  5. Esses US$ 565.129,15. da
    Esses US$ 565.129,15. da funcionaria da Secretaria da Fazenda de São Paulo não indica, por si só, que haja alguma coisa errada. É perfertamente possivel, embora raro, que uma pessoa economize quase todo o seu salario mensal. Depois de anos de economia e boas aplicações consegue-se um pé-de-meia razoavel como parece ser o caso mencionado.

    É possível, sim. Se ela estiver com todos os rendimentos em ordem, a Receita certamente os analisará e a liberará.

  6. Realmente, aqui do Brasil, se
    Realmente, aqui do Brasil, se alguém for punido, será pela justiça americana. O nosso Supremo Tribunal Federal – STF é o grande indutor da impunidade e criminalidade ( principalmente de criminosos ricos). Temos que fazer alguma coisa; um ministro do STF tem que ter prazo determinado para exercício do Cargo, entre tantas medidas que devem ser implementadas neste Judiciário inútil. Ah, aproveitando, FORA GILMAR MENDES.

  7. Nassif,
    Aqui do Alto Xingu,m
    Nassif,
    Aqui do Alto Xingu,m os índios pedem para você resgatar o texto longo que eles postaram e que desapareceu sob a falsa alegação de que eu estava escrevendo muito rápido.
    Procure ai Nassif.

    Ih, Índio, procurei e não encontrei.

  8. Tenho muito medo de redes de
    Tenho muito medo de redes de “network marketing”. Em si, o conceito não pareceria necessariamente “criminal”, mas creio que existe muito mal cheiro em certas iniciativas.

    Creio que o Congresso precise produzir uma análise a respeito para legislar de modo preciso sobre isso. A Albânia quebrou com o ingresso de pirâmides, a Colômbia está sofrendo horrores no presente com essas pragas, e no Brasil, muita gente já foi lesada por “piramides” comerciais baseadas em “network marketing”.

    Me preocupo com uma que nasceu em Ribeirão Preto, montou depósito em Indaiatuba, está se esparramando pelo país. Seu nome é versão da palavra “todo”. Dizem comercializar lojas de comércio eletrônico, mais os produtos da loja, e seus integrantes são lojistas…

    Merece muito cuidado com a contabilidade e as práticas.

  9. Nassif,
    Repetição? Meu amigo,
    Nassif,
    Repetição? Meu amigo, eu queria mais é saber o nome de todos eles e saber que a Receita Federal está indo atrás dos peixões e cobrando de quem deve. Pode repetir à vontade, toda vez que tiver alguma informação a mais. Garanto que a galera se esbalda, como você mesmo pode perceber pelos comentários.
    Abraços,
    Ademário

  10. Algumas semelhanças com o
    Algumas semelhanças com o Zeitgeist Addendum (Capítulos iniciiais).

    Agora, se crimes estiverem por trás de todo esse dinheiro aplicado no fundo Maddof, aqui no Brasil nada ocorrerá, tendo como garantias as ações do STF.

  11. A propósito dessas perdas e
    A propósito dessas perdas e dos mecanismos que levam as pessoas a elas, em 2002 o psicólogo Daniel Kahneman ganhou o prêmio Nobel de Economia, por ter formulado a teoria de como a gente avalia as expectativas futuras, no momento de decidir (Prospect Theory). Li isto num delicioso texto de Contardo Calligaris (O fim do ano e o medo de perder), que está em

    http://contardocalligaris.blogspot.com/2005/12/o-fim-do-ano-e-o-medo-de-perder.html

    Calligaris nos explica o trabalho de Kahneman, concluindo: “quando se trata de ganhar, nossa aversão ao risco é muito maior do que quando se trata de perder. Em outras palavras, não é para ganhar, mas para não perder que estamos dispostos a mais sacrifícios. Para não perder, estamos até prontos a correr o risco de perder mais ainda.”

    É uma belíssima leitura, como aliás o são os muitos textos dele, todos a disposição dos leitores em http://contardocalligaris.blogspot.com/

  12. Nassif, perguntei se alguém
    Nassif, perguntei se alguém sabia sobre as taxas que os fundos madoff pagavam e voce disse que abordaria o assunto na sua coluna hoje. Onde está a coluna, não é esta? Está aonde?

    A fonte me pediu para segurar até hoje, mas estarei publicando logo mais aqui.

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