Mantega e a dificuldade de explicar o novo tempo econômico

Folha de S.Paulo – Entrevista – Guido Mantega: Primeiras ações de Dilma parecem governo “Lula 3” – 27/02/2011

Primeiras ações de Dilma parecem governo “Lula 3”

MINISTRO DA FAZENDA DIZ QUE CORTE DE GASTOS DÁ CONTINUIDADE À POLÍTICA ECONÔMICA, VÊ INFLAÇÃO SOB CONTROLE E ADMITE QUE ESTADO PRECISA RECUAR

Ministro da Fazenda, Guido Mantega, em seu gabinete, em Brasília

ELEONORA DE LUCENA
ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA

Cortes, aumento de juros, reajuste contido do salário mínimo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, diz que esses primeiros movimentos do novo governo não significam virada na economia, nem choque ortodoxo.
Para ele, há apenas continuidade: “O governo Dilma não é parecido nem com Lula 1 nem com Lula 2. É parecido com Lula 3”.
Mantega declara, porém, que é hora de um recuo do Estado. Os juros do BNDES vão subir e o ministro espera que as empresas busquem financiamento privado. O titular da Fazenda afirma que não está puxando o freio de mão da economia, mas acrescenta que o Brasil ainda não tem condições de crescer 7,5% ao ano por conta dos gargalos estruturais.

Sergio Lima/Folhapress

 

Folha – Quais as diferenças entre as gestões Dilma e Lula?
Guido Mantega –
Tem muito mais semelhanças que diferenças, porque é um governo de continuidade. É a mesma estratégia, mas aplicada a um momento diferente.

E o que está diferente? Muitos relacionam o salário mínimo, o aumento de juros e o corte no Orçamento a uma virada para um aperto na economia.
Não tem virada nenhuma. Passamos por dois anos de recuperação da crise. Implantamos estímulos à economia que implicaram gastos, subsídios, desonerações.
Como a economia já adquiriu o seu dinamismo próprio, o Estado pode recuar. Estamos acabando de eliminar estímulos, o que significa diminuir o gasto público.
O BNDES vai subir as taxas de juros, que tinham baixado para estimular a economia. Estamos recuando nisso. O banco continuará tendo papel fundamental, mas não o mesmo que teve na crise. O Tesouro não continuará colocando o mesmo aporte. Criamos mecanismos para que o empresariado possa captar recurso mais barato, diretamente do setor privado.

A presidente tem enfatizado o combate à miséria. A decisão de arrochar o salário mínimo, pois ele praticamente não teve ganho real, contraria esse objetivo?
Não tem arrocho. O que tem é uma regra que foi estabelecida. O salário de R$ 545 é resultado dessa regra, mantendo o poder aquisitivo.

Mas os trabalhadores reivindicavam um reajuste maior. O salário mínimo hoje é metade do que era em 1940.
Acho que é função dos trabalhadores reivindicar. Até a oposição começou a reivindicar algo que nunca deu quando teve a oportunidade de dar. Nós não podemos trabalhar com a despesa ao sabor de pressões.

Os cortes também não vão de encontro a essa política de desenvolvimento? Eles vão atingir os investimentos?
Achamos que a demanda do setor privado é suficiente para manter a economia num ritmo de crescimento satisfatório, em torno de 5%. Estamos tirando o impulso adicional, mantendo os investimentos e o estímulo a investimento privado.

Mas o sr. não disse que vai aumentar as taxas do BNDES?
Mas acabamos de fazer medidas desonerando debêntures do setor privado. O Brasil é hoje um país de 4,5%, 5% de crescimento -7,5% [em 2010] foi um crescimento excepcional que sucedeu um ano com zero. O Brasil ainda não tem condições de crescer a 7,5%, ele terá. Porque você pode ter pontos de estrangulamento. Se continuar crescendo exageradamente, tem falta de mão de obra, de infraestrutura.

A inflação não é um temor nesse quadro?
A política anti-inflacionária desse governo é exatamente igual à do anterior: não vamos descuidar da inflação. Ela é ruim porque prejudica principalmente os trabalhadores e o governo procurou beneficiar fundamentalmente os trabalhadores.

Embora outros setores tenham se beneficiado. Acabaram de sair os dados sobre os lucros dos bancos.
Esse é o sucesso do nosso governo. Conseguimos beneficiar a população como um todo. Mais os pobres e menos os banqueiros. Mas nós beneficiamos pobres e banqueiros. Não é uma beleza?

O início de governo está mais parecido com o Lula 1, que foi de aperto? Isso tudo não é, de alguma forma, uma transferência dos mais pobres para os mais ricos, já que o superavit é para pagar juros?
O governo Dilma não é parecido nem com Lula 1 nem com Lula 2. É parecido com Lula 3. É um governo que tem condições totalmente diferentes do Lula 1, porque naquele momento pegamos o país em condições complicadas. Se quiser um paralelo, é mais parecido com Lula 2, porque já tínhamos resolvido esses problemas.

Mas esse freio de mão que está sendo puxado…
Dilma 1 é parecido com Lula 2 porque não está sendo puxado o freio de mão. Nós estamos trabalhando para um crescimento de 4,5%, 5% neste ano, o que será historicamente ímpar.

A inflação está preocupando?
A inflação é uma preocupação permanente, mas está sob controle. No final do ano, o BC pôs em prática as chamadas medidas prudenciais, que subiram as taxas de juros. A economia já está se ajustando para um ritmo menor, que é o que nós queríamos. Além disso, o BC subiu os juros também.

O Brasil não tem juros absurdamente altos?
Quando é necessário, tem que elevar os juros. Eu sou contra manter juros artificialmente altos. E sou a favor de que subam os juros quando há problema de inflação. Não que esses juros aí tenham ajudado a diminuir. Acho que as medidas prudenciais e o aumento do compulsório, que são na veia, são mais efetivos. Os juros são muito altos no Brasil? É verdade. Só que já foram mais altos.

O objetivo das medidas é sinalizar que o governo é simpático aos mercados, ortodoxo?
Não. Eu como ministro da Fazenda jamais praticarei um receituário ortodoxo. Continuo um desenvolvimentista. Isso não significa que eu não seja responsável do ponto de vista fiscal.

Contas externas. É problema de fundo na economia?
As contas externas têm que ser também uma preocupação permanente. Não vamos permitir uma deteriorização do deficit das transações correntes.

E o que será feito? Com juros subindo, invasão de dólares…
Mas o câmbio está estável. Temos feito estímulos à exportação, colocado taxas no excesso de capitais. Conseguimos controlar. Mas é inevitável que entre investimento, porque o Brasil hoje é um país sólido e muito atraente.

Claro, com essa taxa de juros…
Não é por causa da taxa de juros, é porque o país é rentável. O Brasil é um país onde as empresas têm lucro. Não são só os bancos. Espera para ver o balanço das empresas.

E as remessas de lucros? As montadoras, por exemplo, remeteram dez vezes mais do que investiram, pegando dinheiro do BNDES.
É um setor muito bem-sucedido. O Brasil passou pela crise mantendo uma indústria automobilística sólida. Eles fizeram investimentos.

Mas remeteram muito mais.
Porque as empresas aqui dentro foram lucrativas. Lá fora deram prejuízos e as matrizes pediram para remeter para preencher os buracos. Esse é o preço do sucesso. Ficou um desequilíbrio no balanço de transações correntes. Exportações subiram 30%, importações, 40%.

Mas as exportações foram mais de matéria-prima.
Não importa. É aquilo que no momento deu lucro. Apostamos na recuperação dos manufaturados. A defesa comercial vai ter atenção especial e haverá estímulo à exportação.

Cadeias produtivas não estão começando a ficar esburacadas pela importação?
Algumas importações de fato causam algum estrago. Não podemos ignorar o fato de que vivemos numa economia de concorrência. Estamos apoiando a indústria para que não haja desindustrialização. Perigo existe no mundo todo.

O que vai mudar nos impostos nesse governo?
A filosofia é diminuir impostos dentro do equilíbrio fiscal. Não há intenção de criar nenhum imposto novo.

 

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