Meirelles e o pensamento binário

São os gênios que controlam o país. O câmbio é um preço fundamental. Serve de parâmetro para decisões de investimento de longo prazo, para cálculos de retorno, para decisões de importar ou exportar. Portanto, volatilidade no câmbio é barbeiragem, é algo que mexe com toda estrutura de preços do país – independentemente de se considerar o real apreciado ou não.

Mas criou-se um bordão no mercado, uma tolice tratada como se fosse uma verdade científica: o BC tem meta para inflação, não para o câmbio.

O país está entrando no novo milênio, descobrindo o pensamento sistêmico, saindo das simplificações de se privilegiar um tema em detrimento do conjunto. Mas o Dr. Meirelles continua a apregoar a velha máxima ultrapassada como um sábio.

Acha curioso que se critique quando o dólar cai e quando o dólar sobe. Ora, a barbeiragem consiste justamente nessa gangorra permitida pelo BC

Do Estadão

“Temos meta de inflação e não de câmbio”

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, rebateu as críticas de setores da sociedade que defendem que o BC intervenha no mercado de câmbio para evitar que o real continue perdendo espaço em relação ao dólar – a moeda americana, que valia R$ 1,72 no início do ano, chegou a ser negociada por R$ 1,90 na semana passada. Ontem, fechou cotada a R$ 1,847.

“Acho curioso. Quando o dólar estava caindo e passou de R$ 1,90, houve críticas muito fortes de que o BC estava “deixando” o dólar. Agora que a moeda se aproxima de R$ 1,90, mas subindo, o BC é criticado por deixar subir para esse nível.”

Em relação à crise que afeta alguns países europeus e jogou novamente os mercados em um ambiente de incerteza, disse que, em tese, pode afetar os fluxos de capitais no mundo. Mas, mesmo que isso ocorra, não terá efeito negativo sobre a economia brasileira.

Quanto essa crise na Europa preocupa? É o temido W?

Temos, repetidas vezes nos últimos meses, alertado os agentes econômicos contra o excesso de euforia, mostrando que existiam e existem problemas à frente. Portanto, temos de tomar cuidado com o excesso de euforia, que leva muitas vezes a excesso de correção. O que estamos vendo é um pouco isso. De fato, era previsível que teríamos problemas com a situação fiscal de alguns países. É previsível também que nem todas as perdas dos grandes bancos já estejam reconhecidas, até porque não se sabe exatamente onde vão aparecer. Mas não está configurada uma probabilidade elevada de uma recessão no modelo W.

Pode atrapalhar as expectativas favoráveis à economia brasileira?

As expectativas que tínhamos e temos, não. Evidentemente, atrapalha um pouco aquele clima de euforia, de um mundo sem problemas, com liquidez abundante, com aversão a risco baixíssima e, portanto, um mercado exuberante. Isso muda um pouco o quadro de aversão a risco com algumas consequências para o fluxo de capitais. Não contávamos com um cenário de exuberância absoluta durante este ano e os próximos. Portanto, estávamos alertando os mercados para isso.

O sr. falou de fluxo de capitais. Isso pode trazer alguma dificuldade para o Brasil se financiar?

Não. Estamos muito longe disso. (A crise) elimina a exuberância de caráter excessivo. O quadro é completamente diferente do passado. As perspectivas de crescimento da economia brasileira continuam sólidas, com expansão baseada no mercado interno. A Ásia está se recuperando relativamente bem. Os Estados Unidos, dentro do esperado, com as dificuldades já conhecidas. O sistema financeiro internacional funcionando normalmente, num quadro muito diferente de um pouco mais de um ano atrás. Portanto, voltamos à normalidade, corrigindo um excesso de euforia.

É quase benéfico?

Dizer que um problema é benéfico é um pouco exagerado.

Diante da necessidade de o Brasil se financiar, a crise força o País a mudar sua estratégia? Preocupa?

Não acho preocupante. No curto prazo, digamos este ano e possivelmente no próximo, o déficit em conta corrente brasileiro será financiado pelo investimento estrangeiro direto, na medida em que a expansão do mercado doméstico já está demandando investimentos das companhias. Esses investimentos vão atender ao déficit em conta corrente, independentemente de outros fluxos que continuam a existir. De outro lado, se o déficit em conta corrente continuar a aumentar e for objeto de preocupação, para isso temos o câmbio flutuante. A combinação de câmbio flutuante com reservas elevadas é a adequada para que agentes refaçam projeções, de forma que as taxas de câmbio sejam ajustadas a níveis sustentáveis.

O real foi a moeda que mais se valorizou em relação ao dólar em 2009 e a que mais se desvalorizou em 2010 até agora. Por que o real é uma moeda tão volátil?

Pode-se dizer que uma coisa é consequência da outra. Quando se valoriza muito, é normal que haja uma correção maior. Não há dúvida de que, em um certo momento, houve uma aposta muito grande no mundo todo de que o real sofreria um processo de valorização muito grande. Alertamos contra essa euforia para que os investidores tomassem cuidado para não se decepcionarem. Ao mesmo tempo, existe também certa mudança de expectativas sobre a conta corrente.

Mas o BC age para conter a conter a volatilidade do câmbio?

Não diretamente. Não temos metas de taxa de câmbio nem bandas. Não olhamos a taxa de câmbio para nossas atuações. Olhamos o fluxo. Nosso sistema, ao final de um certo tempo, tende a se aproximar do fluxo total de compras, apesar de não existir uma decisão de comprar o fluxo.

Em 2008, quando houve volatilidade ao contrário, o BC atuou na ponta oposta. Foi com igual objetivo?

Naquele momento, houve falta de liquidez. Houve saída liquida de capitais por repatriação, saque de fundos. Um segundo fenômeno ligado a esse, mas um pouco mais abrangente, foi a queda na oferta de linhas externas. Ao mesmo tempo, as companhias tinham falta de crédito externo e tinham de tomar reais no Brasil. Houve, ainda, o problema dos derivativos tóxicos, que gerou grande demanda (por dólar). O BC atuou nos três canais de transmissão: remessa de capitais, oferta de linhas de crédito em dólares e mercado futuro.

Hoje é diferente?

Completamente diferente. Não há problemas de liquidez. O fluxo em fevereiro é positivo. O BC atendeu lá a um problema de liquidez.

Não há risco de o dólar mais alto criar problemas para a inflação?

A taxa de câmbio é um dos componentes da inflação, como a oferta e a demanda, os preços administrados e uma série de outras expectativas e fatores. Levamos em conta todos os fatores e tomamos uma decisão no Copom, baseados nos nossos modelos de projeção de inflação. Temos meta de inflação e não de câmbio. Não tomamos decisão de câmbio baseado em inflação.

Nos últimos anos, o BC foi criticado por deixar o dólar cair demais. Como o sr. vê, agora, os pedidos para que o BC intervenha para segurar a alta da moeda americana?

Acho curioso. Quando o dólar estava caindo e passou de R$ 1,90, houve críticas muito fortes de que o BC estava ‘deixando’ o dólar. Agora que amoeda se aproxima de R$ 1,90, mas subindo, o BC é criticado por deixar subir para esse nível. Acredito que há todo um passado de câmbio controlado e muitas pessoas ainda não concordam, aceitam completamente a ideia de que o câmbio flutuante existe para corrigir desequilíbrios.

O BC parou de comprar dólar?

Estamos fazendo leilões diariamente, comprando de acordo com as condições de mercado.

Então não parou de comprar?

Não. Os volumes diminuíram muito, o que é normal e esperado. Neste mês, são volumes significativamente menores. Em janeiro, não, as compras ainda foram substanciais. Os fluxos ainda estão positivos.

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