Mercado espera mudança na política monetária do Fed

Do Estadão

Wall Street vê como certa mudança na política do Fed até dezembro

Dúvida do mercado agora é em que momento até o fim do ano isso vai acontecer

Altamiro Silva Júnior

NOVA YORK – A política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) para estimular a economia norte-americana vai mudar nos próximos meses, de acordo com 100% dos economistas e estrategistas de renda fixa e moedas ouvidos em uma pesquisa que acaba de sair nos Estados Unidos. A dúvida entre os especialistas é em que momento até dezembro isso vai acontecer, fato que tem gerado estresse nos mercados financeiros e aumento da aversão ao risco pelo mundo desenvolvido.

Uma pesquisa que acaba de ser divulgada pelo Blue Chip Economic Indicators, que desde 1976 monitora Wall Street, e publicada com exclusividade pelo site MarketWatch, revela que todos os entrevistados preveem redução do ritmo de compras este ano pelo Fed e a parada completa das aquisições no final de 2014. A dúvida é em que mês até dezembro isso vai acontecer. Dos entrevistados, 2,7% acham que alterações na estratégia serão anunciadas em julho, 35,3% em setembro, 27% em outubro e 35% em dezembro.

Na reunião de junho do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), na semana que vem, ninguém espera mudanças. A razão apontada é o relatório do mercado de trabalho divulgado na sexta-feira, que mostrou a criação de 175 mil postos de trabalho e alta da taxa de desemprego para 7,6%, estatísticas consideradas fracas.

“Os números de emprego são um reflexo da economia atual, que tem tido dificuldade para ganhar impulso”, destaca o economista-chefe do RBC Capital Markets, Tom Porcelli, que aposta que as mudanças na estratégia do Fed virão em outubro, com redução em US$ 15 bilhões nas compras mensais.

Desde 2008, quando começou com a política de compras de ativos para tentar reaquecer a economia dos EUA abalada pela crise financeira mundial, o Fed já injetou US$ 3 trilhões no mercado financeiro, comprando títulos públicos de longo prazo e ativos lastreados em papéis hipotecários. Na estratégia atual, vem injetando US$ 85 bilhões no mercado por mês.

O temor dos economistas é de que as mudanças no ritmo de compras do Fed afetem mais profundamente os preços dos bônus no mercado financeiro. Esse movimento já vem sendo antecipado, especialmente nos Treasuries de maior prazo, como os papéis de dez anos. Outros argumentam que a economia dos EUA ainda não está totalmente recuperada para o Fed mudar sua política monetária em 2013. Ou seja, mudar a estratégia iria comprometer a recuperação da atividade.

Já o Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta, entre outros pontos, para mudanças nos fluxos internacionais de capital em meio à estratégia de saída dessas políticas pelos bancos centrais. América Latina e Ásia foram as regiões que mais receberam o capital que os BCs injetaram no mundo desenvolvido e podem, como resultado, sofrer as maiores consequências. Por isso, o Fundo sugere aos bancos centrais a saída gradual e comunicada com antecedência ao mercado.

As celebridades do mundo econômico-financeiro também entraram no debate. Na semana passada, o ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, recomendou que o BC mude já seu programa de compras. Já o economista Nouriel Roubini, conhecido como o Senhor Apocalipse por ter previsto o estouro a bolha imobiliária nos EUA, argumenta que o Fed terá que fazer reduções moderadas e fala que as compras devem ser interrompidas apenas em 2015. “A economia (norte-americana) está anêmica”, disse em entrevista ao canal de TV CNBC. 

Em busca de indícios dos próximos passos da política, não só do Fed, mas dos bancos centrais dos países desenvolvidos, a equipe de economistas da gestora BlackRock, uma das maiores do mundo, destaca que o mercado deixou de ficar “interessado” no assunto para se tornar “obcecado” pelo tema. “Os investidores estão agora atrás de qualquer declaração, em busca das menores mudanças na linguagem ou no tom das falas dos dirigentes”, ressalta uma análise da gestora.

Desde que o Fed começou a sinalizar a possibilidade de reduzir o ritmo de compras de ativos, seja em declarações de seus dirigentes, seja na ata da reunião do Fomc, o estresse dos mercados aumentou. “Os investidores parecem estar preferindo o remédio à cura completa. A mera sinalização de que o Fed pode mudar a política monetária provocou uma corrida para realocar posições”, destaca a equipe de gestores da Standard Life Investiments.

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