Mitos econômicos

A discussão política apaixonada é como cobertura de creme de leite: iguala tudo, impede a identificação de nuances dos diversos sabores. É essa a razão para a perpetuação de alguns mitos na história econômica recente do país.

Vamos a alguns deles.

1. A crise cambial de 2002 não foi resultado nem de receios em relação ao governo do PT nem de alertas do PSDB em relação ao risco de uma “venezuelização” do Brasil.

Foi resultado, primeiro, da vulnerabilidade externa brasileira, que continuava deixando o país muito sensível a movimentos do mercado internacional. Naquele ano houve a crise da a crise da Argentina, provocando uma retração global nos fluxos financeiros para os emergentes e contaminando o Brasil. Essa foi a razão primordial. O resto foi decorrência.

Com a gasolina vazando, é evidente que qualquer fósforo aumentaria o potencial da crise. O discurso pré-Carta aos Brasileiros ajudou, assim como as acusações do PSDB. Mas foi secundário. Na época apareceu um cientista social louco nos Estados Unidos, dizendo ter provas de que, se eleito, Lula traria 200 mil guerrilheiros de Chaves e daria o golpe. O mercado tratou como chacota.

Ajudaram também erros do Banco Central, basicamente a imposição da “marcação a mercado” em ambiente de tensão; e a venda de títulos pré-fixados amarrados a “swaps” cambiais.

O BC tentou reduzir a taxa de juros no meio do tiroteio e apostou na colocação de títulos pré-fixados como condição para vender “swaps” cambiais ao mercado. O mercado comprou os dois, ficou com os “swaps” e vendeu os títulos. Embora em pequena quantidade, a venda dos títulos jogou as cotações para baixo e contaminou todo o estoque de títulos do governo.

Os erros arranham, mas não comprometem a enorme contribuição de Armínio Fraga para a modernização institucional do Banco Central. Principalmente sabendo-se do tamanho do abacaxi que precisaria descascar, com os movimentos financeiros internacionais tornando a economia brasileira uma casca de noz no oceano.

2. O segundo ponto de controvérsia é em relação à política monetária do primeiro ano de Lula, tratada como se tivesse salvo o país do fim do mundo. Na verdade, comprometeu por muitos anos a saída do país da armadilha do câmbio.

Até abril, a atuação do Banco Central foi perfeita. Havia a necessidade de uma política monetária rigorisíssima para impedir a propagação da inflação.

Em abril de 2003, contidas as ondas inflacionárias subseqüentes à desvalorização cambial, Lula teve a maior oportunidade de seu governo, a chance de eliminar definitivamente a vulnerabilidade cambial. A inflação estava contida, a economia se derretendo, a nova safra entrando. Bastaria afrouxar a política monetária, deixar o câmbio em patamar competitivo e estimular setores que produziam bens de consumo popular, onde havia grande capacidade ociosa. Nos anos seguintes o PIB brasileiro conseguiria, tranquilamente, romper a casa dos 5% ao ano, talvez mais.

O único que entendeu claramente, na época, as conseqüências dessa loucura foi o vice-presidente José Alencar.

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