A Selic e o jogo das previsões

Batata! Vocês acompanharam aqui as análises sobre o crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2010. Um conjunto de argumentos fortes mostrando que o crescimento foi atípico e não se repetiria nos trimestres seguintes. Portanto, não haveria necessidade de aumento na taxa Selic para conter a demanda.

O Banco Central e o mercado ignoraram espertamente as evidências. Agora, com o aumento da Selic sacramentado, aparece a confirmação do que dizíamos, a produção industrial não se mantém. E as consultorias mais manjadas – integrantes da orquestração dos juros – passam a repetir, a posteriori, as explicações sobre a razão da produção industrial ter arrefecido. Mas, agora, sem risco de segurar a alta da Selic – que já ocorreu.

Estadão

Produção industrial surpreende e desacelera

Com crescimento zero em maio em relação a abril, estabilidade é interpretada como ‘acomodação’; aumento acumulado de 17,3% de janeiro a maio é recorde

Jacqueline Farid / RIO – O Estado de S.Paulo

A produção industrial surpreendeu economistas com crescimento zero em maio. A estabilidade foi interpretada como “acomodação”, provocada por “fatores pontuais”, pelo técnico do IBGE André Macedo. Mas analistas apontam desaceleração no ritmo de expansão do setor, cuja velocidade vinha gerando preocupação por causa de possíveis reflexos na inflação. Em relação a maio do ano passado, houve alta de 14,8%.

As projeções de analistas ouvidos pela Agência Estado apontavam, em média, crescimento de 1,5% na produção em maio ante abril. Apesar do resultado fraco no mês nessa comparação, o aumento acumulado de 17,3% na produção de janeiro a maio é o maior para o período apurado na série histórica iniciada em 1991.

Macedo argumentou que é difícil mensurar em indicadores antecedentes o desempenho dos bens de consumo semi e não duráveis (alimentos, carburantes, remédios). “A indústria se encontra muito próxima do seu patamar mais elevado, de março de 2010, e agora atinge uma acomodação”, disse Macedo. “É preciso esperar os resultados seguintes para ter uma visão mais exata de como está se comportando o setor industrial.”

Macedo cita, como exemplo de impacto negativo pontual, a parada técnica programada que atingiu em maio o setor de refino de petróleo e álcool (a gasolina está na categoria de semi e não duráveis), causando queda mensal de 4,6% nessa atividade. Outro exemplo foi o recuo, também de 4,6%, na indústria farmacêutica, após meses de crescimento.

Ainda do lado do consumo, os bens duráveis (automóveis, eletrodomésticos) também mostraram acomodação ante abril, com expansão de apenas 0,1%. Na avaliação de Macedo, a retirada de benefícios fiscais, como a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), está levando a uma perda de ritmo no crescimento dessa categoria.

A economista do Santander Luiza Rodrigues concorda que os dados não permitem avaliar que o forte aquecimento industrial ficou no passado. “Mantemos nossa previsão de alta de 13,6% para o crescimento da produção industrial em 2010.” Para ela, o saldo abaixo do esperado “não é sinal de desaceleração generalizada, mas adaptação”.

Para o analista da Tendências Consultoria Bernardo Wjuniski, o resultado aponta desaceleração do ritmo de expansão no segundo trimestre, em parte pela retirada dos estímulos fiscais e monetários e pelo fim do processo de recomposição de estoques.

O estrategista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani, vê um processo de desaceleração no crescimento não apenas da indústria, mas de toda a economia. “A impressão que tenho é que assistimos, no segundo trimestre, a um processo de mudança de ritmo de crescimento.”

Investimentos. A produção de bens de capital, que sinaliza o desempenho dos investimentos, apontou, em maio, o 14.º crescimento seguido ante o mês anterior, destacou Macedo. “Talvez esse seja o grande resultado positivo de maio, em razão da qualidade que os bens de capital trazem para a indústria, significando aumento de capacidade e ampliação do parque industrial.” No acumulado de 12 meses (0,8%) essa categoria mostrou, em maio, o primeiro resultado positivo desde abril de 2009.

Segundo Macedo, os bens de capital vêm apresentando, nos últimos meses, desempenhos acima da média industrial, com aceleração no crescimento. A produção dessa categoria aumentou 1,2% em maio ante abril e subiu 38,5% ante maio do ano passado. Em relação a maio de 2009, a alta foi puxada por bens de capital para transporte (34,2%, com destaque para caminhões) e para uso misto (46,7%, com destaque para equipamentos para telefonia e de informática), além de bens de capital para construção (154,7%), uso industrial (33,6%) e agrícola (51,2%). / COLABOROU FLAVIO LEONEL 

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