O ataque do Financial Times ao livro de Thomas Piketty, por Paul Krugman

Enviado por Antonio Bierrenbat

Da Carta Capital

O ataque do Financial Times

A crítica do jornal ao trabalho de Piketty é obra da indústria de negação da desigualdade

Paul Krugman

O economista Thomas Piketty respondeu extensamente à tentativa de derrubar seu trabalho em O Capital no Século XXI, feita por Chris Giles, o editor de economia do Financial Times, e o fez com muita eficiência. Basicamente, Giles tentou comparar maçãs com laranjas, e o resultado foi um limão.

O ponto central aqui é conhecido por qualquer pessoa que trabalhe há tempo em questões de desigualdade. Temos dois tipos de dados sobre distribuição de renda e de riqueza: as pesquisas, em que as pessoas são indagadas sobre quanto ganham ou possuem, e os dados do Fisco. Os dados de pesquisas são melhores ao descrever as famílias de renda mais baixa, muitas vezes não sujeitas a impostos; mas os dados subestimam notoriamente as rendas mais altas e a riqueza, grosso modoporque é difícil entrevistar bilionários. E também os dados de pesquisas começaram recentemente – depois da Segunda Guerra Mundial, e com frequência muito depois disso.

Então, Piketty trabalhou principalmente com dados fiscais, embora também tenha feito certo uso de dados de pesquisas; quando os combinou, fez ajustes para o conhecido viés descendente das estimativas de grande riqueza das pesquisas. Giles, entretanto, basicamente notou que algumas estimativas relativamente recentes de grandes fortunas são menores que algumas estimativas baseadas em impostos de períodos anteriores, e usou isso para alegar que não há qualquer tendência clara para a concentração de riqueza.

Bzzzzz! Errado! Isso deveria realmente resolver a questão, mas é claro que não resolverá. Os negadores da desigualdade vão aproveitar a má crítica do Financial Times e ela se tornará parte do que eles “sabem” que é verdade.

Está bem, eu não sei o que Giles pensou que estivesse fazendo – mas sei o que ele realmente fazia, e é aquela velha negação da desigualdade. Desde que ficou óbvio o aumento da desigualdade – lá na década de 1980 –, houve uma indústria de negação da desigualdade bastante substancial na direita. Essa negação não contava com nenhum argumento específico, nem continha objeções consistentes. Em vez disso, envolvia atirar na parede muitos argumentos diferentes, esperando que algum colasse: a desigualdade não está aumentando; está aumentando, mas é compensada pela mobilidade social; é cancelada pela maior ajuda aos pobres (que estamos tentando destruir, mas não importa); de qualquer modo, a desigualdade é boa. Todos esses argumentos foram defendidos ao mesmo tempo; nenhum deles jamais é abandonado diante das evidências – continuam retornando.

Veja o artigo que escrevi para The American Prospect há 22 anos, “The Rich, the Right, and the Facts” (“Os Ricos, a Direita e os Fatos”). Todos os argumentos falsos que identifiquei ali continuam sendo defendidos hoje. E sabemos perfeitamente por quê: tudo tem a ver com a defesa do 1% da ameaça de impostos mais altos e outras ações que poderiam limitar as rendas mais altas.
O que é novo na última rodada é o local. Tradicionalmente, a negação da desigualdade foi efetuada na página editorial de The Wall Street Journal e outros semelhantes. Vê-la expandir-se para oFinancial Times é uma novidade, e é um sinal de que o FT pode estar sofrendo de uma paralisante “murdochização”.

Tive, recentemente, uma conversa com alguém que se sentia decepcionado com Barack Obama, essa pessoa se queixava pelo presidente não ter realizado as grandes esperanças de seus apoiadores. Minha resposta, ao que parece, foi uma surpresa: eu gosto cada vez mais de Obama enquanto ele prossegue em seu segundo mandato.

É claro que você está decepcionado se acreditou que a retórica grandiloquente poderia modificar nossa vida política, ou se acreditou que Obama poderia, por mera força de vontade, transformar direitistas malucos em centristas. Mas eu nunca acreditei em nada disso. Na verdade, sempre fiquei exasperado pelos discursos inspiradores, que para mim sugeriam que Obama não compreendia o que estava enfrentando.

O que importava eram as conquistas concretas, coisas que, com o tempo, modificariam os Estados Unidos para melhor. E, afinal, Obama produziu. A reforma da saúde está funcionando e a turma da rejeição se encolhe lentamente.

Agora, o meio ambiente. Sua recente proposta de cortar a poluição de carbono das usinas energéticas não é suficiente, por si só, para salvar o planeta, e, como a reforma da saúde, poderia ser desfeita se um número suficiente de juízes da Suprema Corte decidisse que sua lealdade partidária supera a lei e a política sensata. Mas se o plano entrar em vigor poderá ter enormes implicações.

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8 comentários

  1. A praga do título no jornalismo

    Krugman, indiretamente, bota o dedo nesta praga do atual jornalismo, que alguns tentam chamá-lo de técnico. Título e subtítulo dizem algo para ser repercurtido, mas o texto não suporta o que lá está. Os jornalões daqui copiam esta escola, muitas vezes conseguindo a façanha do texto dizer exatamente o oposto do vendido logo acima. Maldade explícita. Sabido é que leitores passam os olhos nas páginas, lendo apenas alguns textos. Subtítulos, olhos e outras frescurites do “moderno” jornalismo vieram para ajudar nestas enganações. 

  2. Tradução brasileira

    Este livro está sendo traduzido para o português brasileiro por Mônica De Bolle, economista, sócia-diretora da Galanto Consultoria e diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica – Casa das Garças (IEPE/CdG), além de professora do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Membro do Instituto do Millenium. O que ela dirá a respeito de desigualdade social e econômica? Seus textos em “O Globo” não deixam margem para qualquer dúvida. Ela tem lado, intelectual, econômico, social. E não é o lado dos que defendem a dimuinuição da desigualdade. 

    • Por essas e outras que

      Por essas e outras que comprei em inglês mesmo. A máxima “tradutor, traidor” nunca foi tão iminente.

      Mas o pensamento conservador brasileiro está tranquilo. Além dos “argumentos” que Paul Krugman elencou sobre a negação da desigualdade e o ataque a quem defende uma distribuição menos desigual de renda e riqueza, o pessoal daqui acrescenta outras mais: que o país “não tem renda”; que é tudo culpa do Estado, do governo e do PT.

      Sem falar da correção, a correção da planta de valores para cobrança de IPTU em São Paulo que se transformou em uma maldade contra os aposentados, haha!

      Pra falar a verdade, esse pessoal do FT não chega nem perto do conservadorismo da imprensa brasileira e da maluquice desses direitistas.

  3. Pragmatismo a filosofia original americana

    The Stone

    From China, With Pragmatism

     

    By STEPHEN T. ASMA

     

    June 8, 2014 5:00 pm

     

    The Stone is a forum for contemporary philosophers and other

    thinkers on issues both timely and timeless.

     

    As an American Fulbright lecturer living in Beijing, I am regularly

    confronted with “lost in translation” ethical conversations. At a recent

    lunch with United States Embassy officers and local Chinese

    intellectuals, we had a complete cultural breakdown over red envelopes.

    Chinese people regularly give red envelopes, or hongbao, filled with

    money as gifts for weddings, births, New Year celebrations and so on.

    The red color is thought to be good luck. It is very common for a

    Chinese family to give hongbao to a surgeon who is about to perform a

    procedure on a family member. Everyone knows to do this, and

    everyone does it to the extent that they are able. The Americans in our

    group thought this practice was unethical bribery, because it sought to

    bias the doctor in one’s favor. The Chinese people at the table replied,

    “Of course it biases the doctor. That’s why we do it.” Not only were they

    mystified by the censure, but the Chinese were prompted to ask if the

    Americans had any children — for every parent surely uses any means

    necessary to protect loved ones.

     

    When one embassy officer (working his best “hearts-and-minds

    diplomacy”) suggested that the Chinese switch the giving of hongbao to

    after the successful operation, rather than before, the Chinese were

    struck dumb with astonishment. Of course, you have to give the

    hongbao beforehand because it motivates the doctor. The gift tells the

    doctor: (a) to take special care with our child (b) we respect your

    surgical skills/education and “give face” accordingly (c) we are devoted

    to our child, will hold you responsible and have the means to do so. The

    fact that not everyone can afford to influence their doctor with hongbao

    is not grounds for withholding it, since we’re trying to protect my child

    here and now. The parent, according to the Chinese, should never

    weigh the child’s well-being against something so arcane as an abstract

    principle.

     

    This simple confusion exposes tectonic ethical differences between

    the two cultures. Many Americans see patronage like hongbao as

    intrinsic corruption. Sure, it starts simple, they suggest, but it scales up

    to corrupt party members taking bribes and absconding with great

    wealth. The Chinese on the other hand recognize that hongbao

    exchange is good manners and important social grooming (guanxi),

    and has nothing to do with graft, which they also condemn as selfish.

    Most Westerners cannot understand the pragmatic ethics of the

    Chinese, dismissing any preferential system as unethical because it fails

    to respect every citizen equally.

     

    This chasm is especially notable since the only official philosophy

    America ever produced goes by that very name — pragmatism. It is

    centered in the ideas of a small group of late 19th- and early 20thcentury

    thinkers that includes John Dewey, William James and Charles

    Sanders Peirce (whom James acknowledged as pragmatism’s

    philosophical founder). American pragmatism’s influence in both

    academic and intellectual life was significant but not long-lived. As

    analytic philosophy gained footholds in the American university system,

    the influence of pragmatism faded, though it was revived and revised

    when it was taken up again by philosophers, Richard Rorty foremost

    among them, in the post-Cold War era.

     

     

    In a 1906 lecture, “What Pragmatism Means,” James said that the

    pragmatic method sought to “interpret each notion by tracing its

    respective practical consequences.” I would argue that at this moment,

    that method seems more Chinese than American.

     

    Most Americans are familiar with Beijing’s pragmatism when it

    comes to foreign policy. Uninterested in moral debates with other

    nations, China takes the position that its policies are “just business,”

    and trades with saints and tyrants alike. The United States, at least

    publicly, looks down its nose at this seeming lack of principle, but it is

    my view that we fail to understand the deeper pragmatic ethic in

    Chinese culture.

     

    These days, it seems that pragmatism is more commonly embraced

    by Chinese intellectuals than by Americans. In China, enthusiasm for

    Dewey’s philosophy in particular is growing rapidly, while back home

    interest in it languishes. The dean of my school in Beijing Foreign

    Studies University, Professor Sun Youzhong, explained that an

    extensive new translation of Dewey’s voluminous works is underway at

    East China Normal University in Shanghai, and these will include many

    lectures that Dewey gave when he lived in China from 1919 to 1921.

    There have also been recent conferences on Dewey’s philosophy in

    Beijing and Shanghai, and my own undergraduate students all know

    his name, while most of my Chicago undergrads back home do not. If

    such evidence is anecdotal at best, there is some statistical indication

    that interest in American pragmatism is withering in its own soil:

    American graduate programs that offer the opportunity to specialize in

    our homegrown philosophy make up only around 10 percent of degreegranting

    philosophy departments.

     

    The overarching theme of Dewey’s philosophy, and that of William

    James before him, is that an experimental approach to life — one that

    tests ideas in the realm of action — should guide us in all domains,

    including religion, politics, ethics, art and, of course, science. Dewey

    argued against sclerotic ideology, absolutism and essentialism. Too

    many of us are overconfident about our opinions and tend to view them

    as gems of certainty, outshining those of other people, cultures and

    eras. To all this confident certainty, pragmatists pointed out that truth

    is fallible and we can’t be entirely sure when we’ve arrived at it. William

    James, in his “Will to Believe,” says, “the faith that truth exists, and that

    our minds can find it, may be held in two ways. The absolutists in this

    matter say that we not only can attain to knowing truth, but we can

    know when we have attained to knowing it; while the empiricists think

    that although we may attain it, we cannot infallibly know when. To

    know is one thing, and to know for certain that we know is another. One

    may hold to the first being possible without the second.”

     

    Our ethical claims, like everything else, need to be treated as

    hypotheses that we test in the social realm. Morality does not fall from

    the sky as eternal truth. We try out notions of the good in the realm of

    social interaction, and we validate ones that work for us (like sharing)

    and eliminate ones that don’t (slavery). Dewey, in his essay “The

    Influence of Darwin on Philosophy,” says ethics is not about utopian

    idealism, but needful matters like how to “improve our education,

    ameliorate our manners, advance our politics.” Pragmatism, heavily

    influenced by Darwin, holds that even ethics is an evolving adaptive

    response of Homo sapiens’ social life.

     

    The current renaissance of Dewey and pragmatism in China

    stresses the secular ethics dimension as a way to remind a growing

    wealthy class of the common good. Chinese people have been atheists

    for thousands of years, and pragmatism is very congenial with the

    deeply secular Confucian ethic. When I asked my Beijing students

    recently to explain Chinese pragmatism to me, I expected them to cite

    Deng Xiaoping’s famous dismissal of economic ideology: “It doesn’t

    matter whether a cat is white or black, as long as it catches mice.” But

    they went all the way back to Confucius and reminded me that when he

    was asked how we should best serve the ghosts and spirits, Confucius

    replied that we should first figure out how to serve human beings. Only

    after we solve the problems of the here and now should we worry about

    the supernatural realm.

     

    Now, we’re in a position to consider Chinese and American ethical

    differences from a pragmatist perspective, and also see why we’d do

    well to revitalize our own national philosophy. The earlier example of

    filial piety and hongbao reveal the pragmatic nature of Chinese ethics,

    but it is not merely expedient or convenient (there is nothing convenient

    about filial piety). The social grooming of guanxi is not selfishness, but

    reciprocity. Americans dismiss it as “bribery” but it places reciprocal

    bonds on people that benefit the group and its members. It becomes a

    problem only when the grooming is unreciprocated or excessive. It is

    wrong by degrees, not intrinsically or absolutely wrong.

     

    By contrast American ethics (and foreign policy) is still too religious

    in its perspective, and even our democratic traditions are asserted with

    dogmatic gusto. As it’s been pointed out many times, someone who

    thinks he has God on his side is capable of almost anything. Of course,

    we’ve seen lately that atheists can be just as dogmatic, and China

    herself proved this in the Mao era. But China is very different now, and

    aligns more with the pragmatic insight that dogmatism (whether

    religious or atheist) is the bigger problem.

    Given that insight, our own pragmatist tradition should give us a

    well-needed dose of humility.

     

    Stephen T. Asma is professor of philosophy and fellow of the

    Research Group in Mind, Science and Culture at Columbia College

    Chicago. His most recent book is “Against Fairness.”

    This post has been revised to reflect the following correction:

    Correction: June 9, 2014

    An earlier version of this post misspelled the surname of Charles

    Sanders Peirce. It is not Pierce.

     

  4. hahaha,
    “…por mera força de

    hahaha,

    “…por mera força de vontade, transformar direitistas malucos em centristas. Mas eu nunca acreditei em nada disso.”

    Faço minhas essas palavras.

  5. Apesar de

    Apesar de discordar de Krugman em relação ao Obama, mas minhas críticas são referentes a sua mesmice bushiana política externa, a sensatez e o bom senso e clareza política de quem sabe que se dá um passo por vez, passo a passo, que não se conseguem mudanças em desabalada carreira como alguns partidos esquerdistas brasileiros supõem, quando diante tem-se uma feroz e acirrada direita.

  6. Uma senha para a sanha.

    Ele advinhou a finalidade do artigo:

    “Os negadores da desigualdade vão aproveitar a má crítica do Financial Times e ela se tornará parte do que eles “sabem” que é verdade”.

    Já faz a alegria dos que não leram e fazem questão de não gostar. A fauna dos negadores é universal, os papagaios do artigo começaram sua repercussão por aqui.

     

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