O BNDES e a pesquisa no agronegócio, por Rui Daher

na CartaCapital

O BNDES e a pesquisa no agronegócio

por Rui Daher

Não, não fui a Portugal para perder o lugar, nem acredito que Nestor&Pestana, fieis depositários do BRD no Facebook, tenham deixado de pagar a parte que cabe à Redação no latifúndio chamado IPTU, mas pés inchados de tanta quilometragem mineira, sentado no carro, peço à sócia Viviane parar um pouco para eu tirar as botinas e relaxar. Foi num empório de roça, entre Guaxupé e Muzambinho, onde vendem o mais saboroso curau e a melhor farinha de milho do PT, País de Temer. Ah, é não? As cachaças são médias e, como não posso dirigir  por obra cega de uma oftalmologista do Poupatempo – história aqui já contada – perguntei a um senhor negro, barba grisalha, gorro com o símbolo da Nike, qual deveria provar. “Todas”, disse ele. “Aí num guento”, respondo. “Se guenta o cocô que virou o Brasil com esse turco, pode tomar a garrafaiada toda que nem vai sentir”. Viviane: “o senhor tocou nos dois pontos fracos dele, política e cachaça. Não vê ele tomando essas notas? É que ele gosta de escrever, mas agora deu uma parada”. Levantou a cabeça e em voz alta, um tanto alterada: “São jornalistas? E justo agora é hora de parar e denunciar? Sabe quanto tão me pagando para apanha do café com a saca a quinhentos contos”? Interrompo: “não sou jornalista”. Triste: “Mesmo assim não pare de escrever – quem não é visto não é lembrado”.

Frio do cão, pés desinchados: “Vamos, Vivi, ainda temos dois clientes para visitar. A colheita não para, tchau seu Damião … Como? Desculpe-me, seu Simião”. 

 

Como prometido ainda desta vez continuaremos tratando de 3 joias da Coroa. Não que não haja outras. Há, mas um tanto esquecidas nas folhas e telas cotidianas, dedicadas a discutir aritmética simples, dimensão da indústria naval, e necessidade de provas documentais para definir posse.

Por bijuterias de 5ª classe, vendidas sobre caixotes por camelôs, pusemo-nos a lutar e vamos quebrar o País. Faço simples, R$ 600 mil e uma previdência equivalem aos mesmos bilhões somados por Temer, Aécio, Serra, Cunha e Cabral? Em pedalinhos de dois metros cabem os mesmas luxos e pessoas de iates de 100 pés? De quem é um apartamento mixo, numa praia brega, não registrado, dado pela construtora como garantia de empréstimos?

Curitiba conseguiu transferir Guarujá para o Mato Grosso do Sul. Como disse, bijuterias apenas para evitar que, em 2018, joia valiosa volte a ser exposta no Palácio do Planalto.

Os dois primeiros citados, Proálcool e Embrapa, foram criados pelos governos militares, ainda sob o modelo econômico de Getúlio. A terceira joia da Coroa, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), fundado em 1952, no 2º governo Vargas, na 1ª fase do nacional-desenvolvimentismo junto com a não citada Petrobras (1953), talvez a mais importante joia, pois coberta por forte apoio dos movimentos populares contra os interesses das elites e do exterior.

A partir do momento em que o Partido dos Trabalhadores assumiu o Poder Executivo, estabeleceu-se no País um debate pobre que fez o BNDES ser questionado em várias de suas ações. Desde o fato de os financiamentos terem saído de R$ 10 bilhões entre 2007/2010, e passado a R$ 60 bilhões em 2016, aportes para o programa apelidado “Campeões Nacionais”, tentativa de tornar transnacionais cadeias produtivas com capacidade competitiva, por exemplo, o agronegócio, por exemplo, até, atualmente, a MP 777, imposição de Henrique Meirelles que substitui a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo – independente das variações da SELIC) pela TLP (Taxa de Longo Prazo – por ela condicionada). Pretende-se assim diminuir os chamados subsídios implícitos.

Mas não é aí que eu entro com a joia. A discussão acima é assunto para economistas de instituições financeiras e bancárias, analistas de planilhas, rentistas, agiotas, que esquecem o que significam o D e o S na sigla do banco. Para eles recomendo conversarem com o economista norte-americano Joseph Stiglitz e a incansavelmente citada aqui, professora italiana em Sussex (UK), Mariana Mazzucato.

Do primeiro, tiro o seguinte: “quando a sociedade tem mais coesão e igualdade, até o 1% mais rico se beneficia (…) é errado dizer que o BNDES empresta a juros subsidiados, pois, na verdade, o banco público aplica taxas razoáveis”.

Ela, no livro “The Entrepreneurial State”, (Anthem Press, 2013), não poupa elogios às ações do BNDES como patrocinador da iniciativa privada brasileira. 

Não confundam as ações do BNDES no 2º mandato de Dilma Rousseff com o realizado anteriormente. Embora bem concebido o programa “Campeões Nacionais” errou no timing internacional, favoreceu complexos não deficitários, pouco avançados tecnologicamente, e administrados por pulhas. Se deu caso, é policial e judiciário, tivemos estes, também, menos corruptos ao favorecer políticos de suas preferências.

Quando escrevo a coluna, o presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, que já demonstrou publicamente a lisura do órgão, afirma que terá menos recursos para investimentos. Então tá, Meirelles. O senhor manda para o ralo o seguinte:

Técnicos e funcionários do BNDES, Vinícius Figueiredo, Felipe Pereira e André Cruz, apoiados por pesquisadores da Embrapa Solos e Suínos e Aves, publicaram, em março deste ano, o estudo “Fertilizantes Organominerais de Resíduos do Agronegócio: Avaliação do Potencial Econômico Brasileiro”.

Reconheço de nada valerá o que eles estudaram e eu escrevo: burros, continuarão, por cagaço, sendo enganados pela indústria multinacional de agroquímicos. Há vinte anos bato nesta tecla, o mesmo tempo em que erro a cifra da incompreensão. Alguns pontos para vocês discutirem e, na próxima coluna, eu voltar ao tema:

1.     A produção nacional de insumos agrícolas para a nutrição vegetal é dependente 80% de importações;

2.     Alguns setores do agronegócio produzem resíduos de forma que os resíduos provenientes desses rejeitos possam ser reaproveitados, reduzindo assim a destinação ambiental incorreta e reduzindo o custo de produção;

3.     “Resíduos dos setores sucroalcooleiro, bovino, suíno e avicultor de corte, em cenário hipotético [PROJETOS PÚBLICO-PRIVADOS] poderia reduzir à metade a demanda por macronutrientes (…) Um mercado potencial de US$ 1,0 bilhão.

Não acreditam, né? Então tá. Volto ao assunto, se o Ronaldo Caiado, colunista da Folha de “agronegócios”, não me fizer mudar de ideia.

undefined][video:https://www.youtube.com/watch?v=w5020HI4XpU

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

11 comentários

  1. Em nome de todos os Santos: Continue Sim!

    Senhor Daher,

    Continue sim! Amplie a discussão! Faça grupos de disseminação sobre a questão aqui! Está aí algo que se mostra uma luz no fim do túnel e que será difícil tirar de nós! Nossa capacidade em Sustentabilidade é uma das maiores do mundo!

    Sou Biológo por formação, atualmente trabalho no IBGE, estou ajudando na construção do Censo Agropecuário, promovendo pontes ao buscar contatos para colaborarem com a pesquisa. Estes foram feitos através de uma militância pessoal e busca profissional por este campo. 

    Nossa Diplomacia Sul-Sul aliada a nossa voz em Sustentabilidade na COP 21 talvez tenha sido o que mais assustou: O pré-sal seria transformado em Energia Solar ao incluir nosso povo com educação e renda. Apontariamos um caminho contra-hegemonico impossível de se negar: Desenvolvimento Sustenvel na Prática.

    A Alemanha estava conosco e estávamos no BRICS, sendo seu braço ocidental… Este seria influenciado nesta questão por nós, o horizonte era amplo ao se pensar que Rússia e China aceitariam protocolos e tratados para buscar a sustentabilidade também. Caímos… Mas este seu texto, mineiramente mostra que devemos apenas levantar, sacudir a poeira e continuar!

    Obrigado e tenha um bom dia!

    https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/bitstream/1408/11814/1/BS%2045%20Fertilizantes%20organominerais%20de%20res%C3%ADduos%20%5B…%5D_P_BD.pdf

    • Caro Denilson,

      conte comigo. Os e-mails que tenho recebido de pessoas que trabalham dentro dessas joias são aterrorizantes. Nenhuma palavra nas folhas e telas cotidianas da desonestidade. Na próxima semana, em CartaCapital, aumentarei o tom das denúncias. Se o GGN quiser republicar continuarei aqui. Abraços 

  2. Torci para você falar também de Paulo Rabello de Castro no IBGE

     

    Rui Daher,

    Pensei que, ao se referir já no título do seu post à pesquisa no agronegócio, você ia discorrer um pouco a respeito de um comentário lá no post “A curiosa história de Paulo Rabello de Castro, por Luis Nassif” de segunda-feira, 17/07/2017 às 06:48, aqui no blog de Luis Nassif em que Luis Nassif conta um pouco sobre o atual presidente do BNDES, tecendo alguns elogios a ele e no fim deixa o link com o vídeo da entrevista do economista de Chicago à Rádio Jovem Pã. O endereço do post “A curiosa história de Paulo Rabello de Castro, por Luis Nassif” é:

    https://jornalggn.com.br/noticia/a-curiosa-historia-de-paulo-rabello-de-castro

    E o comentário que eu pensei que você ia abordar era o de Paulo Soares1, enviado segunda-feira, 17/07/2017 às 10:46, em que ele diz o seguinte:

    “Há uma linha mais ou menos tênue entre ser um tremendo sabonete a escorregar daqui para lá em acomodações segundo o ganho possível em dadas circunstâncias e ser uma pessoa aberta e maleável à força de argumentos embasados. Sou pesquisador de agropecuária do IBGE e tive o infortúnio de tê-lo como presidente. Menos mal que por um breve período. Sua interferência no projeto do Censo Agropecuário, do qual participei diretamente por anos, foi um desastre tanto em termos técnicos como no respeito com o trabalho que vínhamos fazendo. Foi buscar fora do IBGE orientação de amigos que tem a mesma “visão de mundo” que ele nos enfiou goela abaixo e apressadamente, uma versão do questionário tesourada em nome de uma aludida eficiência na coleta, desprezando toda a discussão que mantivemos com diversos setores da sociedade (pesquisadores de universidades, movimentos sociais, organizações dos empresários do setor etc…). Ação essa muito parecida com a estratégia do governo Temer em relação às reformas trabalhista e da previdência. Esse cara não merece confiança, mas concordo que a explicação que deu sobre o papel do BNDES e suas ações recentes, tão mal informadas pela mídia, foram exemplares. Ele queria ter sido ministro, como não teve “moral” para isso e seu nome foi desqualificado na alta roda do governo Temer para o cargo almejado, tem feito essas baldeações em instituições como o IBGE e o BNDES”.

    Transcrevi o comentário na íntegra porque o comentário pareceu-me um tanto duro com a passagem de Paulo Rabello de Castro pelo IBGE, mas com informação preciosa vinda de um funcionário do IBGE e que precisava ser mais detalhada. E imaginei que ao falar sobre a pesquisa do agronegócio você ia dar destaque para o que o Paulo Soares1 havia mencionado no comentário dele.

    O Paulo Rabello de Castro sempre me transmitiu-me a impressão de se tratar de uma pessoa exótica. No post de Luis Nassif em que ele faz referência à entrevista de Paulo Rabello de Castro, Luis Nassif menciona um plano de Paulo Rabello de Castro que Luis Nassif denominou de Plano K. Quando eu lia Luis Nassif falar sobre o Plano K, eu achava que era nome dado por Paulo Rabello de Castro que queria com isso dizer que se tratava de um plano a la Kafka.

    Foi sorte de Luis Nassif ter denominado o plano de Plano K, pois o mais certo, por se tratar de algo vindo de Paulo Rabello de Castro, que sempre foi para mim uma grande incógnita, seria denominar o plano de Plano X e ai a denominação dada por Luis Nassif ia ficar parecendo com alguma ideia do Eike Batista.

    Bem, há aqui neste seu post “O BNDES e a pesquisa no agronegócio, por Rui Daher” de quinta-feira, 27/07/2017 às 08:57, aqui no blog de Luis Nassif e de sua autoria, um comentário de um técnico do IBGE, com o nome no comentário de OiDenilson, enviado quinta-feira, 17/07/2017 às 06:48, que foi até efusivo com você, e que, por estar ajudando na construção do Censo Agropecuário, pareceu-me que talvez valesse que ele também falasse sobre a passagem de Paulo Rabello de Castro pelo IBGE.

    Dito isso vou transcrever a seguir a seguinte frase sua:

    “Não confundam as ações do BNDES no 2º mandato de Dilma Rousseff com o realizado anteriormente. Embora bem concebido o programa “Campeões Nacionais” errou no timing internacional, favoreceu complexos não deficitários, pouco avançados tecnologicamente, e administrados por pulhas. Se deu caso, é policial e judiciário, tivemos estes, também, menos corruptos ao favorecer políticos de suas preferências”.

    Achei desnecessário todo o parágrafo. Não há ainda uma boa análise do primeiro governo da ex-presidenta às custas do golpe Dilma Rousseff, e assim se torna um tanto temerário, pela ausência de fundamentação concreta para a crítica, falar mal do segundo governo dela. Pareceu-me parágrafo para ficar bem com leitores que culpam a ex-presidenta às custas do golpe Dilma Rousseff pelo golpe. Quando não há má-fé vejo boa-fé em demasia alguém atribuir à Presidenta Dilma Rousseff a culpa pelo golpe. Se deixar guiar pela perspectiva de satisfazer as nossas mal pensantes cabeças em seus arroubos juvenis não gera bons frutos.

    Além disso, o seu parágrafo transcrito acima está um tanto confuso. Ficou parecendo que os Campeões Nacionais é programa do segundo mandato. E não fica claro a que se refere a expressão “tivemos estes”. (Por coincidência ontem assistir (partes) do filme “Um amor de Professora”, com Clark Gable (no papel de James Gannon um experiente jornalista) e Doris Day (Como Erica Stone professora de jornalismo) e vi a lição do perigo para o jornalismo usar pronomes e não nomes).

    De certo modo, você usa quase um truque jornalístico semelhantemente a Luis Nassif que com frequência reproduz certos refrãos críticos para aquilo que nunca de forma aprofundada ele apresentou uma análise bem rigorosa e consistente. Foi mais uma vez de modo inconsequente que Luis Nassif procedeu lá no final do post “A curiosa história de Paulo Rabello de Castro, por Luis Nassif”, ao fazer a seguinte afirmação:

    “Veio de um técnico de Temer, sem nenhuma ligação com o PT, os esclarecimentos que, por arrogância acadêmica, outros presidentes do BNDES se recusaram a dar”.

    Ainda que tenha omitido os nomes, como eles são poucos na referência genérica de Luis Nassif, eles parecem estar presentes na frase e eu os relaciono a seguir. São eles: Carlos Lessa, Guido Mantega, Demian Fiocca e Luciano Coutinho. Esta é uma crítica antiga de Luis Nassif que ele reprisa quando bem entender e a intercala onde quer que ele vá, mas que ao meu juízo é descabida.

    Felizmente lá no post de Luis Nassif talvez sem ganhar o destaque merecido Marcelo Miterhof, técnico do BNDES e que quando escrevia na Folha de S. Paulo tinha os artigos reproduzidos aqui no Blog de Luis Nassif, envia um comentário que ao final depois de um bom elogio a Paulo Rabello de Castro coloca com muita finura e gentileza uma crítica ao trecho acima que eu transcrevi de Luis Nassif. Disse assim Marcelo Miterhof:

    “Parabéns a PRC pela vontade de defender a instituição que preside e que viu estar sendo acusada injustamente. Pode parecer estranho, mas nem sempre isso acontece. E por usar seu carisma para chamar a atenção para seu intuito.

    Mas é injusto dizer que outros presidentes não quiseram dar as devidas explicações”

    Os textos do Marcelo Miterhof não eram muito comentados aqui no blog de Luis Nassif, mas só a frase que encima o artigo “Conservadorismo atávico” que aqui no blog de Luis Nassif foi reproduzido no post “Conservadorismo atávico, por Marcelo Miterhof” de sexta-feira, 12/12/2014 às 06:07, é suficiente para que ele seja para sempre rememorado. Transcrevo a frase a seguir:

    “Se os preços sobem porque os salários se elevaram mais que a produtividade, a desigualdade é reduzida”.

    E o endereço do post “Conservadorismo atávico, por Marcelo Miterhof” é:

    https://jornalggn.com.br/noticia/conservadorismo-atavico-por-marcelo-miterhof

    Então, sem que eu me compare a Marcelo Miterhof, nem na lhanura do trato nem na precisão e concisão da escrita fica aqui a minha reprimenda à sua referência ao segundo mandato da ex-presidenta às custas do golpe Dilma Rousseff que me pareceu injusta e precipitada.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 27/07/2017

    • Cléver,

      Como trabalhador da agropecuária, ao comentar as “três joias da Coroa”, não quis reproduzir a opinião de Nassif ou Miterhof a respeito de PRC, a quem não conheço e teve passagens rápidas nos órgãos a que citei. 

      A situação de depredação da Embrapa vem de longo tempo. Nada a ver, pois, com 2º mandato Dilma, embora ela pouco fez para impedir decomposição maior, agora acelerada sob Temer.

      O BNDES apenas defendi o seu papel como banco de fomento contra os ataques que vem defendendo, apesar de ter errado o foco de suas inversões Joesleynianas, etc. Mas isso nada tem a ver com PRC. Sua boa atuação na tal entrevista é bom que se leve em consideração que foi com Villa, uma besta. 

      O IBGE cometeu um crime ao mudar a forma dos questionários de avaliação do Censo Agropecuário, para “simplificar”. São inúmeros e-mails que recebo, um inclusive citado por você, que mostram conceito e forma destruídos, sem prévia discussão, tornando sua série histórica impossível de comparações, sobretudo, em pontos vitais como o da agricultura familiar.

      Não me importam, pois, em que mandatos presidenciais ou gestões responsáveis a decomposição está ocorrendo. Apenas lamento profundamente.

      Da Embrapa, principalmente, pois sei com certeza que, não fossem os pesquisadores, técnicos e funcionários que lá trabalham, a joia não serviria para mais nada, e teríamos mesmo que nos contentar com as inovações que vêm dos laboratórios das multinacionais.

      Em CartaCapital, na terça-feira, volto ao assunto e reproduzo no blog.

      Abraços 

      • Parece-me existir uma falta de compreensão mútua no que dissemos

         

        Rui Daher (sexta-feira, 28/07/2017 às 09:34),

        Parece que nós não nos estamos compreendendo mutuamente. Relendo o seu parágrafo que eu transcrevi em meu comentário anterior para você, eu vejo que você não fez a crítica ao governo da ex-presidenta às custas do golpe, Dilma Rousseff, seja ao primeiro governo seja ao segundo, como eu dei a entender que você fizera no meu comentário anterior. Ainda assim, o parágrafo todo parece-me confuso, ou seja, eu não o compreendi.

        A primeira frase que me parecera que seria destinada a criticar o segundo mandato da ex-presidenta às custas do golpe Dilma Rousseff, agora, em minha segunda leitura, pareceu-me como uma frase solta e sem concatenação com as frases seguintes. Você apenas dissera para que as pessoas:

        “Não confundam as ações do BNDES no 2º mandato de Dilma Rousseff com o realizado anteriormente”.

        E então segue o restante do parágrafo que aparentemente não teria nada a ver com a frase transcrita acima. No restante do parágrafo você trata do programa “Campeões Nacionais” e diz assim:

        “Embora bem concebido o programa “Campeões Nacionais” errou no timing internacional, favoreceu complexos não deficitários, pouco avançados tecnologicamente, e administrados por pulhas. Se deu caso, é policial e judiciário, tivemos estes, também, menos corruptos ao favorecer políticos de suas preferências.”

        Primeiro você faz o elogio: o programa “Campeões Nacionais” foi bem concebido. Eu não discordo de você. Ainda no governo de Itamar Franco, o Luciano Coutinho recebeu financiamento para com um grupo de pesquisadores elaborarem um grande projeto para a indústria brasileira e que foi apresentada no livro:  “Estudo da Competitividade da Indústria Brasileira”. O programa “Campeões Nacionais” é um subproduto deste trabalho. É praticamente impossível que de todo esse estudo houvesse surgido um mau fruto.

        É bom que se ressalte que eu tenho certa resistência ao trabalho de Luciano Coutinho e colaboradores na medida que eu tendo a priorizar para ganho de competitividade a desvalorização cambial. Desde 1983, após a desvalorização do cruzeiro em fevereiro de 1983 e com os bons resultados alcançados pelo PIB em 1984 e 1985, eu priorizei a desvalorização monetária como a mãe e o pai de toda a competitividade brasileira no cenário internacional.

        E essa desvalorização seria mantida por muito tempo fazendo ligeiras correções a cada dobra do PIB. E ultimamente penso que cada correção deveria levar em conta o aumento da percentagem de pessoas com formação superior na população com 24 a 34 anos.

        Em seguida você começa a falar dos problemas do programa “Campeões Nacionais”. O primeiro seria o timing internacional que, a menos que você já tenha referido a esse problema anteriormente, ficou uma crítica frágil semelhantemente às críticas que eu vejo Luis Nassif fazendo a qualquer política do governo da presidenta Dilma Rousseff quando ele avalia que vale criticar para pegar audiência de todos os lados.

        Quem utilizava muito a expressão “timing” para criticar era Antonio Delfim Netto relativamente ao plano Real. Nas palavras dele, o Plano Real era uma grande obra de engenharia que pecava pelo timing. Nunca ele explicou a que ele referia. A intenção dele poderia ser no sentido de que o timing do plano fora programado para ter efeitos eleitorais. Essa crítica, no entanto, não pegaria bem para Antonio Delfim Netto, ou talvez eu devesse dizer que não se tratava de uma crítica que encontrasse fundamento na história ética de Antonio Delfim Netto.

        O que talvez ele pudesse dizer é que para ter efeitos eleitorais, o plano corria o risco de se comprometer de dois modos. Primeiro, o plano teria que conceder alguns benefícios para uns poucos ou muitos grupos, o que poderia trazer desequilíbrios de consequências ruins. E segundo o plano para ter efeitos eleitorais teria que acabar com a inflação de uma vez e para acabar com a inflação de uma vez ou se faz um aumento brutal de impostos ou se eleva o juro a patamares nunca dantes atingidos o que produz aumento da dívida pública de forma muito acentuada.

        Só que você não foi tão genérico como Antonio Delfim Netto que ao falar sobre o Plano Real preferiu não se comprometer. Você especificou que o espaço em que o timing estava errado era o espaço internacional. Aliás, uma boa expressão que deveria ter sido utilizada pelo Antônio Delfim Netto, pois 1994 foi quando surgiu a crise do peso mexicano em decorrência da subida do juro pelo Fed.

        De todo modo, como tudo que diz respeito ao Brasil eu tenho interesse em saber, eu gostaria de saber que erro foi esse do timing internacional do programa dos “Campeões Nacionais”? Se você já falou a esse respeito em outro post, menos mal, mas nesse caso ficaria satisfeito se você deixar um link.

        Depois você faz críticas menos genérica, ao dizer que o programa de “Campeões Nacionais” “favoreceu complexos não deficitários, pouco avançados tecnologicamente, e administrados por pulhas”. Eu imagino que não é para separar as três acusações. Favorecer complexos deficitários não é um bom caminho para formar “Campeões Nacionais”. O BNDES deve preocupar com os complexos deficitários, mas para isso o BNDES deve dedicar a sua parte do Social e sem mania de grandeza. Então o que você quis dizer é que o programa “Campeões Nacionais” foi ruim ao favorecer complexos não deficitários que são poucos avançados tecnologicamente ainda mais que são administrados por pulhas.

        De antemão eu lembro que a ideia de que o setor de carne não é avançado tecnologicamente é inconsistente. E há varias razões, sendo uma o fato de que a cadeia alimentar é uma das que mais demanda desenvolvimento porque está diretamente ligada com a vida do ser humano. Alimentos e medicamentos são duas áreas de muito desenvolvimento tecnológico e desenvolvimento que se estenderá por um longo período.

        Além disso, os avanços tecnológicos na metade da cadeia da carne impõe avanços nas pontas da cadeia produtiva. Assim, tanto na ponta inicial correspondendo à produção agropecuária, como na ponta final correspondente ao transporte, à distribuição e ao varejo haverá avanços a medida que os produtos da carne evoluem tecnologicamente.

        A pecuária também evolui tecnologicamente. Você que acompanha a nossa produção agrícola sabe disso. A vacinação, o combate às pragas nas pastagens, a rotação de pastagens, a formação de capineira e o seu manejo, a silagem, a irrigação, o fornecimento de água, de qualidade, a inseminação artificial, o combate às doenças nos gados com a melhoria nas qualidades das vacinas, dos vermífugos e parasitas, as melhorias nas condições de trabalho e de moradia do empregado rural, tudo isso são frutos do avanço e desenvolvimento econômico do país, mas também conta a pressão que o avanço da indústria da carne fez sobre as duas pontas da cadeia.

        Quanto à questão dos pulhas, primeiro você tem de reconhecer que o sistema é capitalista, onde os pulhas talvez sejam mais aptos que os que não são pulhas. Eu tenho uma fazenda de herança onde pago o salário mínimo e se ele fosse menor, eu pagaria menos e o meu lucro (Que por enquanto é prejuízo, salvo pela valorização em decorrência do investimento) seria maior.

        A possibilidade de acumulação de capital via apropriação de trabalho de terceiro é da natureza do capitalismo e nisso está a superioridade do sistema no que diz respeito ao aumento da produção. Em uma sociedade humana mais evoluída a acumulação de capital via trabalho de terceiro poderia ser eticamente condenável. Ai talvez um BNDES poderia não escolher os pulhas para os transformar em campeões nacionais.

        Além disso, lembrando, Augusto dos Anjos:

        “. . . . .

        Acostuma-te à lama que te espera!

        O Homem, que, nesta terra miserável,

        Mora, entre feras, sente inevitável

        Necessidade de também ser fera.

        . . . . .”

        E na sequência do parágrafo surge a frase que não entendi e que volto a transcrever a seguir:

        “Se deu caso, é policial e judiciário, tivemos estes, também, menos corruptos ao favorecer políticos de suas preferências.”

        Na releitura, o entendimento possível poderia ser:

        “Se deu caso (no sentido de problema), é caso policial e é caso judiciário (que deve ficar na alçada da polícia e do judiciário), . . .”

        Até ai dava para entender como eu transcrevi acima, e eu concordaria, mas o restante teria-me ficado incompreensível, mesmo que houvesse certeza sobre o emprego do demonstrativo estes que se refere ao futuro, ao que está próximo ou ao que vem pela frente. Na sua frase parece-me que o correto seria considerar que o demonstrativo se referia ao que está adiante, ou seja, ao que vem pela frente. A seguir então a frase que eu não entendi:

        “tivemos estes, também, menos corruptos ao favorecer políticos de suas preferências.”

        Então mesmo retirando do meu comentário a parte que eu entendi errado do parágrafo, isto é, a parte que eu considerei que você havia criticado o segundo governo da ex-presidenta às custas do golpe, Dilma Rousseff, o parágrafo traz um conteúdo polêmico. É polêmico, pois a meu ver não é correto e na parte que está certo, isto é, quando diz que favoreceu os pulhas, não há alternativa. E há uma parte incompreensível.

        Voltando ao meu comentário, eu o dividi em duas partes. A segunda parte gira em torno do parágrafo transcrito acima. E a primeira é a que diz respeito ao comentário crítico a Paulo Rabello de Castro feito pelo Paulo Soares1, e que fora enviado segunda-feira, 17/07/2017 às 10:46, lá no post “A curiosa história de Paulo Rabello de Castro, por Luis Nassif”. Eu fiquei extremamente curioso sobre o assunto e aproveitei o meu comentário para você para chamar a atenção para o problema.

        Eu ia escrever para o OiDenilson porque ele apresentou-se como técnico do IBGE, mas considerei que talvez você soubesse alguma coisa e pudesse esclarecer. E caso o OiDenilson voltasse ao post, ele poderia também complementar com alguma informação ainda não conhecida.

        Por sorte, ocorreu-me de eu procurar ver o que você já havia dito do Embrapa e do Proálcool, as duas joias da coroa que você mencionara como joias já analisadas. Ao voltar aos seus posts mais antigos, eu encontrei um que você poderia ter deixado como link seja no próprio post seja na sua resposta ao meu comentário. Trata-se do post “O golpe no IBGE e no censo agropecuário, por Rui Daher” de quarta-feira, 08/03/2017 às 11:20, publicado aqui no blog de Luis Nassif e que pode ser visto no seguinte endereço:

        https://jornalggn.com.br/blog/rui-daher/o-golpe-no-ibge-e-no-censo-agropecuario-por-rui-daher

        Nele você cuida exatamente dos problemas com a pesquisa do agronegócio realizada pelo IBGE. Os problemas tanto poderiam ser originados do corte orçamentário como de alguma diretriz estabelecida por Paulo Rabello de Castro. Sempre constitui um problema esses cortes orçamentários. De todo modo, a solução proposta por Paulo Rabello de Castro precisaria sofrer uma análise mais criteriosa. Até que ponto a decisão dele foi conduzida pela necessidade de corte e até que ponto a decisão dele é fruto de uma visão de economista formado em Chicago em que o pragmatismo e a eficiência têm mais valor do que a importância da história e do auxílio que os dados coletados poderiam prestar na tomada de decisões no futuro?

        Queria por fim deixar o link para quatro posts.

        Primeiro para o seu post em que você trata das outras duas joias da Coroa: “Etanol e Embrapa: como dilapidar o patrimônio nacional, por Rui Daher, em CartaCapital” de sexta-feira, 14/07/2017 às 10:20, aqui no blog de Luis Nassif e que pode ser visto no seguinte endereço:

        https://jornalggn.com.br/blog/rui-daher/etanol-e-embrapa-como-dilapidar-o-patrimonio-nacional-por-rui-daher-em-cartacapital

        Do quarto parágrafo do seu post “Etanol e Embrapa: como dilapidar o patrimônio nacional, por Rui Daher, em CartaCapital” eu vou transcrever a seguinte frase:

        “No início deste milênio, glorificada como fonte renovável de energia, com o ex-presidente Lula se tornando o “caixeiro-viajante” do etanol de cana-de-açúcar, o Brasil lutando para provar que seu plantio não prejudicava a produção de alimentos, a cultura se tornou uma das joias da coroa”.

        Há ai um ponto em que eu tenho divergência com você. Você alega que a cana-de-acúçar não prejudica a produção alimentar. No primeiro momento prejudica à medida que a cultura mais lucrativa tende a se alojar nas melhores terras.

        Para falar mais da questão do preço do proálcool e seus efeitos na produção alimentar é que eu na sequência deixo a indicação de três posts onde há comentários meus que servem um pouco de contraponto a sua crítica à política do preço da gasolina colocada em prática pelo governo da ex- presidenta às custas do golpe, Dilma Rousseff. Os posts são os seguintes:

        1) O post “27,5% de etanol na gasolina, por Newton Lima” de quinta-feira, 24/04/2014 às 12:40, e que pode ser visto no seguinte endereço:

        https://jornalggn.com.br/noticia/275-de-etanol-na-gasolina-por-newton-lima

        E o meu comentário foi enviado quinta-feira, 24/04/2014 às 19:44, para junto do comentário de DanielQuireza enviado quinta-feira, 24/04/2014 às 14:52. DanielQuireza desapareceu do blog. Depois vendo comentários antigos meus para ele descobri que ele havia retirado o nome dele e os comentários dele apareciam como anônimo. Agora o nome dele voltou aos comentários antigos. Em meu comentário para DanielQuireza, eu discuto a política de preços da gasolina;

        2) O post “Crise alimentar e os biocombustíveis” de sábado, 19/05/2012 às 11:05, aqui no blog de Luis Nassif contendo a transcrição do artigo “Quando os biocombustíveis roubam a comida” de Emílio godoy, da IPS saído no Envolverde e trazido para o blog de Luis Nassif por sugestão de Alfeu e que pode ser visto no seguinte endereço:

        https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/crise-alimentar-e-os-biocombustiveis

        Há um comentário meu enviado sábado, 19/05/2012 às 16:11 para Assis Ribeiro junto ao comentário dele enviado sábado, 19/05/2012 às 11:37. Meu comentário para Assis Ribeiro foi respondido por Almeida e eu repliquei para ele. Antes porem há um comentário meu enviado sábado, 19/05/2012 às 19:15, para Alfeu em que eu exponho o meu entendimento do projeto do Proalcool, seu defeito (ele realmente rouba terra para alimentos) e sua virtude (ele é um grande projeto estratégico nacional não só no plano interno como no plano internacional). Então eu tento fazer um balanço entre os que se apegam só ao defeito do Proálcool e os que levam em conta apenas as qualidades dele.

        e 3) O post “O etanol e o samba de uma nota só da política econômica” de terça-feira, 22/04/2014 às 06:00, aqui no blog de Luis Nassif e com texto dele e que pode ser visto no seguinte endereço:

        https://jornalggn.com.br/noticia/o-etanol-e-o-samba-de-uma-nota-so-da-politica-economica

        Nesse terceiro post o meu comentário é para Luis Nassif. Considero que Luis Nassif analisa a questão do preço do combutível com o viés de quem precisa ficar bem com o setor do agronegócio para o qual ele presta palestras. Em meu comentário, eu enfatizo a necessidade de analisar a questão do Proalcool ou do Etanol de um modo mais abrangente. Reconheço, entretanto, que é próprio do ser humano não querer ver todos os lados da questão. Aliás é isso que permite que o ser humano tome decisões, pois se ele fosse analisar previamente todos os lados ele precisaria de um tempo quase infinito.

        Ainda assim, é equivocado quando o ser humano nega os fatos visíveis, quando esses fatos não estão do lado que o ser humano tende a favorecer. Três fatos são inegáveis. O preço elevado da gasolina repercute na inflação e repercute no preço do pro-alcool. O preço maior do álcool leva a priorização da cultura da cana para a produção de álcool e a priorização ocorre em detrimento da cultura para a produção de açúcar ou da produção de outros tipos de alimento. A cultura da cana de açúcar utiliza as melhores terras do Brasil. O governo da ex-presidenta às custas do golpe Dilma Rousseff elevou o preço da gasolina mais do que o governo de Lula. Esses fatos conhecidos não são levados em conta pelos nossos melhores analistas. E essas omissões depõem contra os nossos melhores analistas e as análises que eles fazem.

        Clever Mendes de Oliveira

        BH, 30/07/2017 (De Pedra Azul-MG)

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome