O câmbio apreciado, por Antonio Corrêa de Lacerda

Do Valor

Câmbio, velhos mitos e novos dilemas

Antonio de Lacerda
23/02/2011

Velhos mitos sobre a questão cambial sobrevivem no debate público, ao arrepio das evidências. Há verdadeiras “lendas urbanas” repetidas à exaustão, embora não resistam a uma análise fria dos dados e fatos. O real foi a moeda que mais se valorizou entre as 58 maiores economias do mundo nos últimos anos, conforme estudo do Banco para Compensações Internacionais – o Bank for International Settlements (BIS) – o banco central dos bancos centrais, baseado em dados compilados até o dia 15 de fevereiro, que consideram o câmbio efetivo, isto é, as taxas cambiais dos países, ajustadas pelas taxas de inflação. Enquanto o real atingiu o índice de 152,61, o maior dentre os países analisados, o yuan chinês atingiu 118,13 e a rúpia 107,16.

No entanto, ainda é muito comum que se argumente que todas as moedas dos países emergentes se valorizaram. Todas de fato, podem ter se valorizado, mas o real foi de longe a que mais se valorizou, o que faz com que percamos competitividade vis a vis os nossos principais países concorrentes. Subsidiamos as importações e inviabilizamos as exportações de industrializados.

TambTambém não raro, diante da evidência da valorização do real, a afirmação de que “as empresas acabam se adaptando à moeda valorizada”. De fato, a racionalidade microeconômica das empresas as leva a adaptar-se às circunstâncias, no caso ampliando as importações, diminuindo o valor agregado local e deslocando vendas externas para o mercado doméstico. Muitas se transformam e passam de indústrias a maquiadoras de produtos, ou meras representantes comerciais de fabricantes do exterior.

Há ainda quem veja na valorização cambial uma oportunidade fantástica para as empresas se modernizarem, adquirindo novas máquinas e equipamentos no exterior por uma verdadeira pechincha. Valeria questionar quem ainda vai se aventurar a produzir localmente com condições sistêmicas tão desfavoráveis, se é tão barato trazer logo os produtos prontos de fora? 

Mesmo que a hipótese fosse verdadeira, de que o câmbio baixo estimula a inovação, seria o objetivo correto, porém com o instrumento equivocado. Ao distorcer um preço fundamental da economia, que é justamente a taxa de câmbio, estimulamos não apenas importações de bens de capital, mas também e principalmente de todas as categorias de bens de consumo, substituindo a produção local. Os coeficientes de importação na indústria estão aumentando significativamente, não apenas em máquinas e equipamentos, mas também e principalmente em bens intermediários e de consumo.

O estímulo mais adequado e coerente para a modernização via aquisição de máquinas e equipamentos no exterior deve fazer uso de instrumentos tarifários, tributários e de financiamento direcionados a esses bens. Isso evitaria subsidiar de forma ampla, via câmbio, a todas as importações indiscriminadamente como ocorre no Brasil, não importa se de bens para investimento, ou consumo, ou ainda se eles poderiam ser produzidos no país.

É também evidente que o câmbio não é o único fator responsável pela nossa perda de competitividade. Há tanto questões econômicas, como tributação, juros, burocracia, entre outras, quanto de outra ordem, como nível educacional, tecnologia, etc.. No entanto, é equivocado misturar as agendas e auto enganar-se que medidas compensatórias, como incentivos fiscais, possam “compensar” o problema cambial. Precisamos melhorar a competitividade sistêmica, mas também tratar de aprimorar a política cambial.

Caberia um debate mais qualificado e honesto sobre as consequências e os riscos da opção feita pelo Brasil de manter sua moeda valorizada. Ao contrário do que o senso comum poderia nos levar a concluir, uma moeda artificialmente forte nos entorpece e cria uma falsa sensação de riqueza.

Mas, não por acaso, não apenas o caso mais citado da China, países em sua fase de desenvolvimento optam por manter uma moeda fraca, justamente para estimular, juntamente com outros instrumentos de fomento à competitividade, o valor agregado local, os investimentos produtivos, as inovações e as exportações.

Podemos escolher permanecermos como paraíso da arbitragem com câmbio e juros, de ampla oferta de produtos baratos e de viagens de turismo no exterior. A pergunta é como vamos pagar a conta dessa festa imodesta.

Também vale o alerta que banalizar demandas empresariais envolvendo a questão, rotulando-as como “choradeira”, ou coisa que o valha, denota um enorme desconhecimento da lógica empresarial. Há muitos empreendedores que obtêm ganhos muito mais expressivos, correndo menores riscos e com bem menos trabalho, substituindo a produção local por importações. O retorno é muito mais fácil, rápido e, em geral, bem mais robusto.

A pergunta é se esse é um caminho minimamente sustentável para o país, e, por consequência, no longo prazo, para a empresa. Vale questionar se podemos abrir mão de gerar renda, empregos e tecnologia, em troca de nos tornarmos, no limite, apenas um entreposto comercial.

A permanecer o quadro de valorização cambial, o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, acumulado em cerca de US$ 50 bilhões nos últimos doze meses, seguirá aumentando, o que nos tornará crescentemente dependentes da disposição dos capitais internacionais em nos financiar e mais vulneráveis.

Por todos os aspectos mencionados fica evidente que não se trata de um problema localizado, uma demanda corporativa setorial. Mais do que um problema da indústria, estamos diante de um dilema que afeta a nação brasileira e o seu futuro.

Antonio Corrêa de Lacerda é economista, doutor pelo IE/Unicamp, professor da PUC-SP e da Fundação Dom Cabral, é coautor, entre outros livros, de “Economia Brasileira” (Saraiva, 4ª edição, 2010). Ex-presidente da Sobeet e do Cofecon 

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