O câmbio flutuante nos Brics

Do Valor

Brasil tem diferenças importantes com Brics 

Sergio Leo
09/08/2010 

Só a Índia, entre os países conhecidos como Brics, tem total liberdade para o câmbio; e a cotação da rúpia, moeda local, tem caído em relação ao dólar. Também pudera, o comércio exterior indiano tem um déficit gigantesco, as importações superaram as exportações em mais de US$ 10 bilhões só em junho e, nesse mês, apesar de haver um superávit no comércio de serviços, ficaram deficitárias em US$ 13 bilhões as contas correntes do país, que incluem pagamentos de royalties e outras rendas, e transferências de moeda ao exterior. Só o apetite dos investidores permite à Índia fechar suas contas externas com um pequeno superávit. Será um bom modelo para o Brasil?

A demonstração de que só a Índia, entre os Brics, encaixa-se na definição de país com câmbio flutuante consta de trabalho recém-concluído pela Confederação Nacional da Indústria, comparando as políticas de câmbio de Brasil, Rússia, Índia e China durante a crise financeira recente. Apesar das diferenças de regimes de câmbio, todos os Brics, à exceção da China, tiveram movimentos de valorização da moeda em relação ao dólar até meados de 2008 – enquanto a China, comprando dólares massivamente, manteve inalterada a cotação do yuan.

EntEntre maio de 2008 e maio de 2010, mais uma vez a China destoou, valorizou ligeiramente a moeda, em 2,1%, enquanto os outros desvalorizavam, em ritmos distintos: a rúpia, 8,8%, o real, 9,2% e o rublo, submetido, como a moeda brasileira a uma espécie de flutuação “suja”, quase 29%. Rússia e Índia perderam reservas nesse período, enquanto China e Brasil aumentaram as suas. (A China em mais de US$ 600 bilhões, volume quase três vezes o total das reservas do Brasil).

Curiosamente, porém, o Brasil só ficou abaixo da Rússia em matéria de turbulência na taxa de câmbio, e a Índia, apesar do câmbio livre, não mostrou tanta incerteza em seu mercado cambial. A diferença entre a situação indiana e a brasileira, de maior imprevisibilidade, tem a ver com a maior estabilidade nos fluxos financeiros para a Índia, menores e menos voláteis que os atraídos ao Brasil pelas altas taxas de juros do país. Enquanto a taxa de câmbio indiana parece responder mais a fatores estruturais, a brasileira soma, às tendência naturais da economia, as oscilações de humor do mercado financeiro, provocando o governo a intervir.

Essa forte influência dos fluxos financeiros sobre a taxa de câmbio são um dos fatores a demonstrar, segundo o gerente executivo da Unidade de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, que no Brasil é necessária maior coordenação entre as políticas monetária, fiscal e comercial, inclusive dos mecanismos de defesa comercial, como processos antidumping e de salvaguardas, para evitar uma crescente deterioração das contas externas do país. Brasil não é Índia, os indianos, apesar do grande déficit comercial, estão em uma economia bem mais fechada, com mais barreiras a aumentos bruscos de importação.

Evidentemente, o câmbio não é a única desvantagem dos exportadores brasileiros, que teriam muito a ganhar com avanços na redução de carga tributária, educação da mão de obra e na melhoria da infraestrutura, de portos à burocracia alfandegária. Mas é inegável que o câmbio da moeda chinesa, estável e bastante desvalorizado mesmo durante os piores momentos da crise internacional, ajuda os exportadores chineses a conquistar mercados antes cativos dos fornecedores brasileiros.

Recente atualização ainda inédita feita pela professora da Fundação Getúlio Vargas Lia Valls Pereira de estudo sobre a perda de mercado para os chineses mostra que, em comparação com 2005, a fatia de mercado perdida pelo Brasil à China nos EUA, União Europeia e América Latina em 2008 equivale a quase US$ 6 bilhões em mercadorias. Mais preocupante é o aumento da parcela das perdas atribuídas à competição chinesa fora dos tradicionais setores de calçados e têxteis, em produtos sofisticados como celulares, máquinas e equipamentos e automóveis.

Nas vendas aos Estados Unidos, 43% da queda nas vendas de produtos cerâmicos pode ser atribuída à competição chinesa; na União Europeia, foi mais sensível a derrota para os chineses nas vendas de móveis, produtos fundidos de ferro e aço e em máquinas e equipamentos; na Argentina, embora a China ameace principalmente nos setores tradicionais de têxteis – onde mais de 90% da queda nas vendas brasileiras se deveu à opção pelos asiáticos-, sinais de alarme soam até no setor automobilístico: as perdas de mercado em automóveis atribuídas à China somam quase US$ 180 milhões, apenas 2% do total exportado aos argentinos mas quase 68% da fatia de mercado perdida pelo Brasil para estrangeiros.

Uma avaliação desapaixonada do comportamento do comércio exterior brasileiro mostra que ainda é notável o crescimento das exportações e que há folga nas contas externas para abrigar a progressiva deterioração do saldo comercial. Mas sinais como os do estudo da CNI e do levantamento de Lia Valls não devem ser ignorados; sugerem medidas de correção enquanto ainda são apenas indicadores de tendências negativas da economia brasileira.

Sergio Leoé repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail: [email protected] 

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