O caso Collor

Extraído do meu livro “O Jornalismo dos Anos 90

Um dos episódios pessoalmente mais penosos em que entrei foi a revisão do governo Collor, em junho de 1994. Fui crítico de Collor desde a campanha eleitoral. Na época, estava fora da grande mídia, tinha um programa de economia na TV Gazeta de São Paulo, o “Dinheiro Vivo”, retransmitido pela TV Nacional e pela TV Educativa. O programa conseguiu bom espaço junto aos formadores de opinião, pela cobertura do mercado acionário e pelas críticas insistentes contra o governo Sarney.

Durante a campanha eleitoral fui procurado por Leopoldo Collor, irmão de Fernando, e diretor da TV Manchete. Queria me apresentar ao irmão – que ele garantia ser o próximo presidente do país – e me convidou a me engajar em sua campanha. Indaguei de outros aliados. Quando mencionou o apresentador Ferreira Netto julguei melhor manter distância prudente.

Na campanha eleitoral, investi contra Collor, especialmente no episódio que envolveu a filha de Lula.

Depois de ele eleito, mantive postura crítica desde o primeiro momento. Collor demonstrava acompanhar o programa porque em pelo menos duas festas bebeu bastante e me xingou violentamente. Um desses episódios foi relatado pelo jornalista José Nêumane no “Estadão”. Collor me chamara de terrorista, por dizer que a aguda elevação das taxas de juros, na gestão Ibrahim Éris no Banco Central, levaria a uma recessão da economia – previsão posteriormente confirmada.

Depois disso, o programa foi tirado do ar na TV Nacional e na Educativa, por ordem do jornalista Marcelo Netto, então presidente da Radiobrás. Mais tarde, sofri pelo menos dois processos de pessoas ligadas a Collor.

Finalmente, conseguiram me tirar da própria TV Gazeta. Em dificuldades financeiras, a emissora havia feito um acordo com a rede CNT, dos irmãos Martinez, um dos grupos apoiados financeiramente pelo esquema Collor. Martinez prometeu um pacote de filmes classe A, com a condição de que meu programa saísse do ar. Entendi a vulnerabilidade financeira da Gazeta, não perdi o apreço pelo pessoal que a dirigia, mesmo tendo sido obrigado a deixar a emissora.

Nesse ínterim, coincidiu minha volta para a “Folha de São Paulo” como colunista, convidado por Otávio Frias Filho para substituir a coluna de Joelmir Betting.

Tracei esse histórico para ilustrar o desafio psicológico que foi avaliar com isenção o governo Collor, depois que ele havia caído. Era preciso superar todas essas broncas contra o ex-presidente e a implicância com a supina arrogância que cercava ele próprio e todos seus colaboradores.

Quando pipocaram as primeiras denúncias contra Collor, e a CPI começou a ganhar corpo, me dei conta, de cara, que Collor não escaparia do impeachment. Provavelmente fui o primeiro jornalista a alertar para a inevitabilidade do impeachment, na minha carta semanal e, depois, no serviço em tempo real da Agência Dinheiro Vivo – que inaugurara esse tipo de informação no país. O artigo mereceu uma página de críticas do “Jornal do Brasil” feitas pelo meu colega e amigo Otávio Costa, que considerou precipitadas e especulativas as conclusões. Minha intenção era a de chamar a atenção das partes envolvidas para a inevitabilidade do impeachment, e para a necessidade de que a transição fosse conduzida com bom senso.

Cheguei a elogiar Itamar Franco e avaliar que seu temperamento não era o de uma pessoa irracional. Depois, converti-me em crítico ferrenho de seu governo, devido aos impulsos irracionais que o caracterizaram.

Quando a campanha contra Collor ganhou velocidade, continuei batendo, mas aí com moderação, defendendo o impeachment, mas denunciando os exageros da apuração. Collor já era cachorro morto. Chutá-lo não era mais sinal de coragem. Praticamente todos chutavam – especialmente aqueles que se comportaram com maior subserviência durante seu apogeu.

O que me fez pular fora do linchamento foi uma observação do embaixador Walther Moreira Salles – cuja biografia eu estava escrevendo. Crítico de Collor, o embaixador estava escandalizado com a campanha, não apenas por sua inconstitucionalidade como por sua virulência. Uma observação me calou fundo: “Essas fases de paroxismo trazem à tona o que de pior existe na natureza humana”. Disse-me isso justamente no dia em que falava do macartismo que testemunhou em seu período de embaixador brasileiro em Washington.

No livro de Cláudio Humberto, o ex-porta-voz de Collor relata que o ex-presidente se surpreendeu quando, em meio à campanha, escrevi que o deputado Aloisio Mercadante estava equivocado quando avaliou o saldo da conta corrente de Collor. Segundo Cláudio Humberto, a surpresa de Collor decorria do fato de eu ser um dos jornalistas que ele mais detestava.

Porém, com todos seus defeitos, Collor comandara uma revolução no Brasil, com a abertura, a desregulamentação, a busca de competitividade e a mudança de paradigmas importantes. Até então, o álibi ao qual apelávamos, para não reconhecer seus méritos, era o de que o país estava pronto, e Collor apenas dera sorte de se tornar presidente no momento correto.

A ascensão de Itamar provou que nada estava pronto. A possibilidade de retrocesso era nítida.

Ainda no governo Itamar, escrevi série de colunas sobre o programa de abertura da economia de Collor. Fora conceitualmente elaborado ainda no governo Sarney por um grupo brilhante de economistas do BNDES, liderados por Júlio Mourão, mas que nunca havia conseguido colocar os conceitos em prática. Era o modelo da “integração competitiva”. Foi Collor quem abriu esse espaço para mudanças. Algum mérito ele haveria de ter.

A idéia básica do programa era a de que o Brasil completara o ciclo industrial em 1985, quando obteve enorme superávit comercial. O desafio, agora, consistia em abrir a economia gradativamente, para permitir à empresa nacional se internacionalizar e acostumar com a competição. Definiu-se um período de quatro anos para a queda gradativa das tarifas de importação e, ao mesmo tempo, criaram-se programas de qualidade total, através da Fundação Prêmio Nacional da Qualidade, para preparar as empresas brasileiras para os novos tempos, enquanto as reformas caminhariam no Congresso.

Conversei com pessoas sérias que haviam participado do governo Collor -como o Secretário da Fazenda Geraldo Gardenalli e o futuro presidente da Ford, Antonio Maciel Neto – e seu depoimento me foi surpreendente. No exercício estrito do poder, Collor não era apenas um fantástico visionário, nem um mero bandoleiro, mas um executivo exigentíssimo, e um governante permanentemente ligado em um projeto de país. Jamais havia sugerido qualquer favor à parte técnica de sua equipe, e a apoiou em momentos decisivos.

Viam-se dois Collor distintos: um, que comandava um dos piores esquemas de caixinha já vistos na política brasileira; e outro, que se conduzia com total rigor no exercício do poder. Como conciliar essas duas figuras?

Andei tateando algumas colunas, tentando entender esse paradoxo. Aos poucos, duramente, foi caindo a ficha. Havia componentes nítidos de estadista em sua ação pública.

Em junho de 1994, em pleno período eleitoral, fui a Las Vegas cobrir uma feira de informática. No aeroporto de Atlanta, enquanto esperava o vôo de conexão, resolvi escrever a coluna admitindo o lado estadista de Collor. Mandei pelo computador e, depois, me arrependi. Sabia que iria dar enorme rebuliço e achei imprudência publicar sem estar pessoalmente no Brasil, para acompanhar e rebater as críticas que certamente suscitaria.

Retornei ao Brasil dias depois. Chegando, soube que a “Folha” havia repercutido a coluna com presidenciável Fernando Henrique Cardoso, em plena campanha eleitoral, e ele havia concordado com a avaliação. Foi um gesto de coragem intelectual surpreendente, para um político escaldado. Não houve questionamentos rançosos. Apenas um artigo de bom nível de Chico de Oliveira.

Tempos depois, soube que um filósofo da USP, de nome Paulo Arantes, questionou violentamente a análise, mas em um livro fechado, de pouca divulgação – embora tivesse acesso aos jornais, particularmente à “Folha”, para expor suas ressalvas e encarar uma polêmica.

Meses depois, o deputado José Serra me presenteou com um livro de Ortega y Gasset, “Mirabeau e outros ensaios”. O livro trazia um ensaio do filósofo espanhol sobre os estadistas, um clássico. Ali, estavam retratados Collor, no papel do estadista inescrupuloso, Itamar, no papel do pusilânime e Fernando Henrique Cardoso, no papel do intelectual pouco chegado à ação.

Foi o que me convenceu – e, acredito, convenceu parte relevante dos meus leitores – de que esse paradoxo de Collor podia ser entendido à luz de outros estadistas que o precederam, e do estudo de Ortega y Gasset..

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