O choque de gestão

Coluna Econômica – 01/11/2006

É inacreditável como, em pleno 2006, a discussão pública não consegue avançar além das posições simplificadores bipolares: é pau ou é pedra, ou é o fim do caminho.

Em um país razoavelmente cartesiano, racionalização de despesas seria um dos principais itens da agenda política. Mas racionalizar significa fazer o mesmo com menos, Ou, no máximo, descartar despesas não prioritárias.

Por aqui, não, trata-se corte de despesas como um objetivo em si, pouco importando a qualidade do corte ou o efeito sobre o objetivo final do serviço. Nessa simplificação, o defensor de cortes enaltece o superávit fiscal como um valor em si. Se foi obtido avançando em verbas para a educação, saúde, vigilância sanitária, fundos setoriais, pouco importa. O número vale por si. Na outra ponta, qualquer tentativa de racionalização de gastos é vista como anti-social, independentemente da essencialidade ou não dos gastos cortados.

Daí a importância cada vez maior de se trabalhar com o chamado foco no resultado, com indicadores de aferição. O que importa é o foco no cliente. E o cliente de serviços públicos é o cidadão, a pessoa que precisa dos serviços de saúde, de educação, a empresa que precisa de estradas bem conservadas.

A partir do momento em que se tem o indicador adequado e a meta fixada, começa-se o trabalho de racionalização, buscando dar mais eficiência ao gasto e se fazer mais com menos Aí, toca rever cada etapa, identificar cada gordura, aprimorar permanentemente os processos. Mas o resultado final não é prejudicado, e será sempre melhorado porque todos os trabalhos terão como norte os indicadores de acompanhamento focados no resultado final.

Daí o ganho que poderia advir para o setor público brasileiro se se confirmassem os rumores dando conta do convite a Jorge Gerdau Johanpetter, de assumir um Ministério voltado para a gestão pública.

Gerdau revolucionou o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro com seus movimentos pela qualidade. Ajudou a montar o Movimento Brasil Competitivo (MBC), uma OSCIP incumbida de levar gestão à área pública. Foi de valia nos programas de melhoria de gestão do Bolsa Família e de modernização da Previdência Social.

Lembro-me de uma reunião do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade em Salvador, muitos anos atrás, quando se ensaiavam os primeiros projetos de implantação de qualidade na área pública. O representante japonês dizia que o Brasil caminharia para ser uma grande potência, pois já sabia levar a qualidade à área privada, e agora começava a trabalhar na área pública. Eram os tempos em que o Ministro da Administração Luiz Carlos Bresser-Pereira, tentava dar escala ao Prêmio Qualidade do Setor Püblico.

Depois, Bresser-Pereira foi afastado do Ministério da Administração, e o programa definhou. Virou um sub-programa do Planejamento. O programa continuou definhando, definhando e terminou de definhar quando Lula assumiu a presidência.

Agora, poderá ser a oportunidade de uma virada na área pública, e o choque de gestão deixar de ser mera figura de retórica.

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