O círculo vicioso do Copom

Do Último Segundo

Coluna Econômica 18/03/2010

Faz parte dos clássicos da economia política a maneira como o mercado financeiro cria ideologias e como elas amarram países por anos, mesmo quando a lógica original foi desmentida pelos fatos.

É o caso da taxa de juros no combate à inflação e a decisão do COPOM (Comitê de Política Monetária) de manteros juros para combater uma suposta inflação futura, em cima de sinais vagos supervalorizados pelo mercado.

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Desde a implantação do sistema de metas inflacionárias, o jogo tem sido feito assim:

1. A lógica do modelo consiste em antever sinais de aquecimento da economia, que poderiam levar a aumento de preços. Aí o Banco Central aumenta as taxas básicas de juros, já um efeito encadeado sobre outras taxas, reduzindo as compras dos consumidores e os estoques das empresas. Reduzida a pressão de demanda, caem as expectativas inflacionárias.

2. Quando existe caminho aberto para os fluxos de capital externo, esse aumento de juros atrai investimentos especulativos. Ganha-se meramente tomando empréstimos em moedas fortes (e juros baixos) e aplicando-se no real. Aumentando o fluxo externo, o real se valoriza, ampliando ainda mais os ganhos de quem trouxe recursos de fora.

3. A apreciação do real ajuda a conter a inflação, por tornar mais baratos os produtos importados e os exportados. Ou seja, a queda de preços não se dá via redução da demanda mas via apreciação cambial.

4. Só que, quando o câmbio se aprecia, enfraquece a competitividade de todas as empresas brasileiras que concorrem com produtos externos. Caem as exportações, aumentam as importações e vai-se criando gradativamente um rombo nas contas externas. Sem contar o efeito mais pernicioso, que é de empresas nacionais reduzirem a produção para se tornarem meras revendedoras de produtos estrangeiros.

5. Esse movimento não é sustentável. Chega uma hora que o rombo nas contas externas torna-se tão acentuado que os especuladores passam a retirar seus recursos daqui, acelerando a desvalorização cambial.

6. Quando ocorre a desvalorização – como em 1999, 2002 e 2003, 2008 – todo o esforço anterior é desperdiçado. Há um aumento no custo de vida, dos produtos importados e exportados. A alta obriga o BC a aumentar ainda mais os juros. Depois, no ano seguinte, mesmo com os preços livres sob controle, a inflação sofrerá o impacto do reajuste de contratos indexados pelo IGP – índice muito sensível a variações cambiais.

7. Com a desvalorização, as contas externas voltam gradativamente a se equilibrar. Os especuladores vendo se afastar o perigo de novas desvalorização, e olhando o aumento de juros, voltam para o país. Inicia-se, assim, novo ciclo de apreciação cambial que, mais à frente, vai resultar em nova desvalorização cambial.

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Uma das missões essenciais de um BC é evitar a volatilidade do câmbio. Moeda estável é essencial para planejamento dos negócios e para se conseguir preços estáveis.

A existência de reservas apenas tornará mais longo esses ciclos de apreciação – e mais danosos os efeitos da apreciação sobre a economia.

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