O cronista do Rio

Quando retomei a biografia do embaixador Walther Moreira Salles, corri ao Rio atrás das últimas testemunhas. Conversei com José Luiz Bulhões Pedreira, Antonio Bulhões de Carvalho, que acabara de produzir uma belíssima canção de amor ao Rio, em três livros, e Maneco Muller, o Jacintho de Thormes. Quando telefonei, em sua casa avisaram que ele iria se internar na terça-feira. Na quarta ele morreu. E aí, me deu mais saudades do Rio que não conheci.

O grande salto do Rio ocorreu na Guerra, quando passou a abrigar os exilados do jet-set internacional. Os Guinle trouxeram para o Brasil o Barão Von Stucker que, em pouco tempo, revolucionou a vida noturna carioca criando o Vogue, a mais relevante casa noturna que o Rio conheceu.

Para abrilhantá-la, o Barão foi buscar na Europa duas figuras que se tornaram lendárias: o pianista Sacha Rubin, libanês metido a francês que tocava piano com um copo de uísque do lado e um cigarro invariavelmente estacionado no canto da boca; e o chefe de cozinha Gregoire Belinzanski, russo branco que introduziu três pratos clássicos na cozinha brasileira: o strogonoff, o frango à Kiev e o picadinho a brasileira.

Foi nesta mesma Copacabana que na casa do avô Lauro Muller, em 1923, nasceu Maneco, a mais perfeita tradução para o Rio internacional dos anos 40 e 50.

Em 1943, Prudente de Moraes Neto o levou para a “Folha Carioca”. Ficaram por seis meses apenas. A “Folha” virou getulista e Prudente mudou-se de mala e cuia para o “Diário Carioca”.

O “Diário” era meio maluco, mas com uma força tremenda. Só tinha cronista. O secretário de redação era Everardo Guilhon. Epitácio Timbaúba fazia crônica policial. Castelinho, crônica política. Lúcio Rangel, crônica de música. Paulo Mendes Campos e Sérgio Porto eram cronistas cronistas mesmo. Vinicíus fazia crônicas poéticas, assim como Fernando Lobo. Prudente fazia crônicas de turfe, com o pseudônimo de Pedro Dantas e assessoria integral da esposa Inah Novaes, sua prima-irmã, com quem teve uma lua-de-mel que entrou para as lendas boemias da cidade. E todo mundo era bem humorado, como documentaram os jornalistas Tales de Faria e Sérgio Rodrigues, em uma monografia recente sobre o jornal.

Aí Prudente, o cronista de turfe, fez o convite a Maneco:

– Você vai ser cronista social.

O pequeno Maneco, de saúde frágil, mas de temperamento petulante, que se gabava de ser aluno de jiu-jitsi da família Gracie, não gostou.

– É coisa de veado.

Mas aceitou, porque o salário não era de jogar fora. Mas sem frescuras! Em lugar de crônicas floridas, Maneco foi buscar a receita no colunismo americano de Elza Maxwell, Nick Boker, Walther Nin e, especialmente, Cholly Knickerbocker, cronista de Nova York cujo nome verdadeiro era Igor Cassini, irmão de Oleg, o costureiro, e citado na canção inicial de “High Society”, cantada no ônibus por Satchmo. Notas curtas, com muito humor e maldade, mais humor que maldade, mais divertido que agressivo, afinal, era filho da sociedade local, e se exagerasse nos venenos ninguém receberia mais em casa “o filho da dona Negra”.

E Maneco Muller, a esta altura Jacinto de Thormes, em sua coluna no “Diário Carioca”, inaugura a palavra colunismo, e passa a trazer para o ofício o padrão estético da geração dos 40. O “in” passa a ser o despojamento, a simplicidade, o brasileiro. Dá novo impulso ao “Baile das Debutantes”, cria o concurso “Glamour Girl”, mais aguardado que eleição presidencial.

O Rio esqueceu Jacintho. Os músicos o cultuam, através das críticas sociais de Miguel Gustavo, no samba choro “Café Soçaite”: “enquanto a plebe rude na cidade dorme / eu sonho com Jacintho, que é também de Thormes”.

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