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O erro do Banco Central

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Do Valor

Quando, como e se o Banco Central errou

Brasil
Autor(es): Denise Neumann
Valor Econômico – 04/08/2010

No dia 2 de junho de 2010, seis dias antes da 151ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que decidiria por um aumento de 0,75 ponto percentual na taxa básica de juros, o Valor publicou uma reportagem com o título “Ritmo de expansão chinês ficou para trás”. Havia sido publicado o resultado da produção industrial de abril com queda de 0,7% sobre março na série com ajuste sazonal, primeiro recuo do ano.

No ponto 22 da ata daquela reunião do Copom, ficou o seguinte registro: “Para o Copom, os riscos para a consolidação de um cenário inflacionário benigno se circunscrevem essencialmente ao âmbito interno, por exemplo, os derivados da expansão da demanda doméstica, em contexto de virtual esgotamento da margem de ociosidade na utilização dos fatores de produção. A propósito, evidências do estreitamento do mercado de fatores vêm da aceleração dos ganhos reais de salários no passado recente em alguns segmentos e de maiores pressões de preços ao produtor. Com efeito, esses desenvolvimentos podem exacerbar um quadro que já evidencia a presença de descompasso entre o crescimento da absorção doméstica e a capacidade de expansão da oferta”.

Naquele começo de junho poucos indicadores eram conhecidos, mas já se sabia que a venda de automóveis havia recuado 9% em maio sobre abril, e que o uso da capacidade instalada crescia de forma mais amena.

O Copom se reuniu de novo 45 dias depois quando o quadro de abandono do ritmo chinês já estava bastante disseminado. O item 22 na ata da reunião foi reescrito, com as mudanças em destaque (grifos nossos):

“Para o Copom, são decrescentes os riscos para a consolidação de um cenário inflacionário benigno e se circunscrevem ao âmbito interno, por exemplo, os derivados da expansão da demanda doméstica, em contexto de virtual esgotamento da margem de ociosidade na utilização dos fatores de produção. A propósito, evidências do estreitamento do mercado de fatores vêm dos ganhos reais de salários em alguns segmentos e de maiores pressões de preços ao produtor no passado recente. É plausível afirmar, entretanto, que os fatores de sustentação desses riscos mostram desaceleração na margem. Note-se ainda, que há sinais de que a economia tem se deslocado para uma trajetória mais condizente com o equilíbrio de longo prazo, onde os efeitos desses desenvolvimentos sobre o balanço de riscos para inflação tendem a arrefecer.”

Como resultado dessa mudança de cenário e de interpretação dos seus efeitos sobre a inflação presente e futura, o Copom decidiu subir (sim, subir) novamente a taxa Selic em mais 0,50 ponto. Ele não parou de elevar a taxa básica de juros e tampouco decidiu por um corte, como algumas reações parecem sugerir.

Bem no meio das duas atas, o Banco Central publicou o Relatório de Inflação de junho. E ele não trouxe sinais de mudança da interpretação do BC em relação à reunião do Copom do começo de junho, como as três frases seguintes deixam absolutamente evidente:

“Para os próximos trimestres, o Copom avalia que a produção industrial deve continuar crescendo de maneira robusta, com reflexos positivos sobre o emprego e o nível de renda. (…) “O balanço de riscos relacionados às perspectivas de inflação evoluiu desfavoravelmente desde a divulgação do último Relatório.” (…) “Portanto, para evitar que a sociedade incorra em tais custos, é recomendável a adoção de respostas adequadas e tempestivas de política monetária. (páginas 84 e 88)”

O que a leitura das duas atas e do relatório sugerem, portanto, é que a mudança na avaliação do BC não ocorreu nos 45 dias entre uma reunião e outra do Copom. Ela aconteceu nas três primeiras semanas de julho.

Em defesa do Banco Central pode-se dizer que o quadro de desaceleração do ritmo da atividade econômica ficou realmente transparente em julho, mas é uma defesa fraca. Vários indicadores antecedentes já sugeriam que o cenário havia mudado e a autoridade monetária os conhece melhor do que os analistas privados. O país está crescendo a um ritmo bem mais confortável. Estamos saindo de um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,7% no primeiro trimestre (ou algo como 11% na conta que projeta esse ritmo para 12 meses) para um crescimento entre 0,5% e 1% (pelas estimativas mais correntes entre os analistas), o que projeta uma alta bem modesta de 2% a 4% para 12 meses.

Essa esperada (e benéfica) desaceleração do ritmo de crescimento, porém, demorou a refletir na inflação. E demorou porque, com exceção de serviços, o que puxava a inflação eram os alimentos, e não os reajustes dos bens duráveis, que estavam com a demanda aquecida.

Serviços subiram sazonalmente na esteira do salário mínimo: 1,89% em fevereiro de 2009 e 1,81% em fevereiro deste ano, enquanto os preços de bens duráveis subiram 0,29%, em média, de janeiro a maio, e alimentos, 1,07% na mesma comparação. O IPCA, por sua vez, subiu 0,63% na média do primeiro trimestre e 0,33% na média do segundo trimestre.

Então, o BC pode ter errado em algum momento. Mas qual foi o erro exatamente – interpretação, comunicação ou decisão – e quando ele ocorreu? Interpretação é minha primeira resposta. E final de junho, a segunda.

Denise Neumann é editora de Brasil. O titular da coluna, Cristiano Romero, está em férias 

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