O fim do boom exportador

Coluna Econômica – 03/01/2007

Primeiro a boa notícia: o Brasil bateu em 2006 o recorde de saldo comercial da sua história, US$ 46,1 bi, US$ 2 bi a mais do que as últimas previsões. Foram US$ 137,5 bi de exportações contra US$ 91,4 bi de importações.

Agora, os senões. Segundo estudo divulgado ontem pelo IEDI (Instituto para Estudos do Desenvolvimento Industrial), as exportações cresceram 16,2% em valor, mas a variação média dos preços deve chegar a 12%. Assim, o crescimento real, em volume, se reduz a 3,8%. No caso dos manufaturados, o crescimento real das exportações foi de apenas 3,3%. Isso em um período em que, segundo o FMI, o comércio mundial de bens cresceu 9,4%, e as exportações de países em desenvolvimento devem ter crescido 10,8%.

Conclui o IEDI, que se encerra prematuramente o ensaio de “crescimento exportador asiático”, que permitiu ao país, entre os anos de 2003 e 2005, crescer 14,7% em termos reais, 19,3% no caso de manufaturados, contra uma expansão média do volume de comércio mundial de 8,2%.

O próprio IEDI já levantara trabalhos demonstrando que toda experiência marcante de crescimento de exportações, nas últimas cinco décadas, dependeu de um grande e prolongado crescimento das exportações. Em nenhum caso relevante a inserção exportadora vitoriosa desenvolveu-se por menos de uma década e meia, o que mostra o quão precoce foi o boom exportador brasileiro.

O real apreciado não apenas matou o boom exportador. Do lado das importações, houve um aumento de 24,3% no valor acumulado de 2006, correspondendo a um crescimento em volume de 16,2%, um percentual duas vezes superior ao crescimento real que o FMI projeta para as importações das economias avançadas, e maior do que o percentual relativo aos países emergentes, 13,5%. E equivale a cinco vezes o crescimento real do PIB brasileiro de 2006.

As estatísticas são apenas a face mais visível dessa loucura reiterada. Estudos do IBGE apontaram que apenas esse aumento das importações havia subtraído mais de um ponto percentual do PIB de 2006.

Some-se o efeito China, e se terá o mapa do inferno. Os mais importantes setores manufatureiros do país, os que empregam mais pessoas, e nos quais o país tinha conseguido grau de excelência -como o têxtil e o de calçados— estão sendo esmagados.

Esse é o drama do segundo governo Lula. Assim como seu antecessor, Lula defende a idéia de que “a política é a arte do possível”. Por ele, arrastaria os quatro anos do seu mandato para, sem mexer nos pilares da política econômica, conseguir algum espaço para os investimentos em infra-estrutura e os gastos sociais.

Não haverá tempo para empurrar com a barriga a questão do câmbio. Esse quadro de deterioração nas contas externas acontece com o céu de brigadeiro do cenário internacional. A eventual eclosão de uma crise internacional, ao expor a fragilidade das contas externas, colocará de novo o país de joelhos perante o capital de curto prazo.

A questão maior não é essa. É que quanto mais demorar a surgir essa hora da verdade, maiores serão os estragos provocados pela irresponsabilidade cambial.

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