O golpe do Brexit na globalização, por Carmen Reinhart

Precedente aberto é um fator de longo alcance que precisa ser acompanhado

Jornal GGN – O referendo do Reino Unido comprometeu a equidade e os mercados financeiros no mundo todo. Assim como ocorreu em episódios anteriores de turbulência financeira, a vitória do voto “Deixar” levou investidores globais nervosos aos portos seguros habituais: os títulos do tesouro americano subiram, e o dólar, franco suíço e o iene apresentaram vaorização mais acentuada ante à libra esterlina.

“Quando ficou claro que o campo “Permanecer” tinha perdido, o preço da libra parecia estar no caminho para coincidir com o histórico de 14% de depreciação da crise de 1967. Mas os resultados da montanha-russa que estamos vendo agora nos mercados de capitais globais não são exclusivos para o episódio Brexit”, explica Carmen Reinhart, professora da Universidade de Harvard, em artigo publicado no site Project Syndicate.

A articulista explica que um fator de longo alcance é o precedente que o Brexit estabelece para outros países (ou regiões) para a “saída” de seus respectivos arranjos políticos e econômicos – como a Escócia e a Irlanda do Norte no Reino Unido, ou a Catalunha na Espanha. “As fronteiras dos Estados-nação existentes poderiam ser redesenhadas, ou cercadas por por completo, se os Estados membros descontentes se submeterem a impulsos nacionalistas internos e desistirem da experiência multi-década na unificação europeia. (E, como a campanha presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos mostra, esse impulso se estende para além da Europa.)”.

Por conta de seus impactos negativos sobre as finanças, comércio e a mobilidade laboral, Carmen diz que o Brexit marca um grande revés para o processo de globalização. “A precipitação do Brexit provavelmente não vai se espalhar tão rapidamente como em crises financeiras definitivas, tais como a crise financeira de 2008 ou de 1997 e 1998 episódios asiáticos. Mas os efeitos colaterais também não vai desaparecer tão cedo”, pontua a professora de Harvard.

Embora segmentos como comércio, finanças e arranjos de imigração britânicos sejam complexos e de renegociação completa, a professora diz que muitas transações transfronteiriças de bens, serviços e ativos financeiros são passíveis de serem colocadas em espera. E, mesmo que não existam outros momentos de “saída” no restante da Europa, a professora de Harvard não descarta a possibilidade de “um período prolongado de incerteza nos mercados globais de capital”.

Carmen também recorda que o processo de globalização não começou com a geração atual – “a última parte do século XIX, mesmo com suas limitações tecnológicas, foi uma era de crescente comércio global. Grandes ondas de imigração diversificaram radicalmente a composição demográfica dos Estados Unidos e de outras partes do Norte e do Sul. Londres foi o anfitrião de um rápido crescimento da indústria financeira global, como havia sido desde o tempo a Grã-Bretanha saiu vitorioso das guerras napoleônicas”.

Tal onda foi encerrada na Primeira Guerra Mundial e, mesmo com o retorno à paz, o mundo não se recuperou, e o protecionismo ganhou força com as crises da década de 20 na Grã-Bretanha e nos anos 30 no resto do mundo. O processo de integração só teve sua retomada após a Segunda Guerra Mundial no comércio e, em finanças, a partir da década de 80. Na ocasião, o centro financeiro de Londres ajudou o Reino Unido a se tornar os pilares de uma nova economia internacional, que também era politicamente integrada.

“Antes da crise financeira global 2008-2009, a maioria dos indicadores de comércio e finanças globais haviam atingido novos picos, e a unificação europeia contribuiu significativamente para isso. Mas, com o início da crise, as finanças transfronteiriças na Europa encolheram e economias altamente alavancadas  da zona do euro começaram a perder acesso aos mercados de capitais internacionais, e as preocupações sobre a insolvência privado e público tomaram o centro do palco”. A crise financeira recente gerou a maior queda sincronizada no comércio mundial desde a Grande Depressão dos anos 1930.

“Os mercados financeiros não lidam bem com a incerteza. Como o mundo já enfrenta um crescimento anêmico e baixos níveis de investimento, qualquer plano de controle de danos adequado deve incluir a resolução imediata das novas regras do jogo para a Grã-Bretanha e sua relação com a UE”, diz Carmen. “Qualquer atraso vai causar ainda mais frustração e aumentar as chances de políticas de retaliação de membros da UE”.

 

 

(Tradução livre por Tatiane Correia)

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