O livre-atirador do ABN Amro

Alexandre Schwartsman é o típico cabeça-de-planilha. Sem conhecimentos maiores sobre história, diplomacia, política, sem nenhuma sofisticação sobre processos sociais ou estratégicos, dominando apenas ferramentas da planilha para modelos específicos, e discorrendo sobre princípios elementares de economia, conseguiu firmar uma imagem de arrogância e “sabedoria” que virou motivo de piada junto aos verdadeiramente cultos.

No Banco Central, no plano operacional escancarou ainda mais as contas brasileiras em dólares. No plano conceitual, limitou-se a ser um eco apagado de Affonso Bevilacqua. No plano político, quase criou incidente diplomático ao criticar a Argentina no momento em que se preparava para negociar com o FMI, em uma clamorosa demonstração de ignorância sobre posturas básicas de comportamento que se exige de um diretor de BC. Sua atitude criou mágoas que ainda permanecem, de Kirschner em relação a Lula.

Fora da sua planilha, e dos seus modelitos, é pessoa sem verniz, um livre-atirador selecionado pelo presidente do ABN Amro, Fábio Barbosa, para defender junto à mídia os interesses do setor. Nessa missão, já cometeu baixarias contra governo Lula (mesmo tendo sido diretor do BC), contra a campanha de Alckmin (ao chamar Yoshiaki Nakano de ignorante) e, agora, contra o governador José Serra (atacado no artigo abaixo).

A diferença sobre seus tempos de BC é que, em vez de afetar a imagem do Brasil, compromete apenas a do ABN Amro.

Vamos ao último feito desse “professor de Deus”, brandindo conceitos básicos de forma parcial, como se fossem a última palavra da teoria econômica..

Volta às aulas

ALEXANDRE SCHWARTSMAN

UM SINTOMA da importância adquirida pelos economistas no Brasil de uns tempos para cá é a quantidade de colegas de profissão desempenhando cargos políticos, tanto no Executivo quanto no Legislativo. Meu lado corporativista poderia até celebrar, não fossem esses economistas-políticos (não todos, mas a maioria) capazes de abandonar tão prontamente os fundamentos da nossa ciência, se é que algum dia chegaram a dominá-los. Na verdade, manifestações recentes de figurões da categoria sugerem que os mesmos teriam certa dificuldade para serem aprovados no curso de economia monetária.

Assim, houve quem afirmasse aos brados ignorar os motivos econômicos que levaram o BC à decisão de desacelerar o ritmo de queda da Selic. No entanto, como um bom aluno de graduação poderia lembrar, sabe-se que as mudanças nas taxas de juros não produzem impactos imediatos no restante da economia. Ainda que os mecanismos de transmissão não sejam inteiramente conhecidos, é fato notório que as alterações das taxas reais de juros só começam a afetar a demanda após certo período, hoje estimado em cerca de dois trimestres, e que o pico desse efeito se materializa ainda mais tarde.

Joga um princípio geral de política monetária com a solenidade de quem está descobrindo a pólvora, confiando no índice de ignorância líquida da mídia.

Uma imagem comum para descrever esse fenômeno é o da água quente que demora no cano até chegar ao chuveiro. Se essa defasagem for ignorada, o incauto banhista corre sérios riscos de se queimar caso continue a ajustar a torneira enquanto observa apenas o fluxo corrente da água, desconhecendo o que já vem cano abaixo. Isto dito, houve queda da taxa real de juros de mais de 4,5 pontos percentuais de outubro de 2005 em diante, dos quais cerca de 2,5 pontos ao longo do segundo semestre de 2006, cujo impacto certamente ainda não se manifestou. Ou seja: há um bocado de água quente no cano e não me parece ser má idéia esperar para ver como fica a temperatura da água antes de abrir ainda mais a torneira.

Está-se discutindo decisões que mexem com o PIB, com a atividade econômica, com o emprego. E Schwartsman diz que, em sua humilde opinião, “não parece ser má idéia esperar para ver como é que fica”. Essa é a ciência. Chuta-se um nível de juros, para ver como é que fica. E como é que fica? Vamos conferir na continuação dessa peça clássica.

Trata-se, enfim, de fenômeno conhecido por qualquer estudioso do assunto (ou qualquer um que já tenha tomado banho), porém aparentemente desconsiderado por pessoas que, em sua própria e modesta opinião, se julgam extremamente capazes.

Em vez das mesmices, poderia demonstrar quais as hipóteses nas quais o BC se baseou para errar tão clamorosamente na calibragem dos juros, a ponto de derrubar inflação abaixo da meta e deixar o crescimento do PIB na lanterna mundial.

Ainda na categoria de político-economista, houve também quem classificasse de “ignorante” a diretoria do Banco Central, ao mesmo tempo em que cometia uma série de equívocos de corar um terceiranista da faculdade de economia. Não tenho espaço para comentar todos, mas, entre os mais gritantes, destaco os seguintes. Esse economista, por exemplo, não acredita que os juros reais caíram, porque a inflação teria caído junto. Para chegar a essa conclusão, o ilustre político deflacionou a taxa de juros pela inflação passada em vez da inflação esperada, o que é errado, pois a inflação relevante para fins de determinação da demanda é a esperada.

O BC faz uma estimativa da inflação futura e calibra os juros. Como é que se confere se acertou? Depois de passado o período, compara-se a taxa praticada com a inflação passada. Não é óbvio? Não para esse gênio do cartesianismo ocidental para quem ciência em estado puro prescinde de comprovações. O fino da teoria é só olhar para frente, e tratar de esconder o passado, para não comprometer o mito da infalibilidade papal.

De fato, ao escolher entre aplicar dinheiro ou gastá-lo, as pessoas comparam consumir hoje com consumir amanhã. Sabendo a taxa de juros, sabem quanto dinheiro terão amanhã, mas não o poder de compra dessa moeda. Se acharem que os preços subirão mais rápido, gastam hoje; se mais devagar, amanhã. Caso errem a previsão de inflação, haverá conseqüências, mas a decisão de consumo ou poupança já foi tomada. Isto é básico, mas foi solenemente ignorado.

Um racionalismo extraordinário do consumidor! Seria interessante explicar, por essa lógica, porque consumidores aceitam antecipar consumo, pagando taxas de crediário altíssimo, se seria muito mais barato esperar alguns meses poupando dinheiro para comprar à vista.

O mesmo político anotou o que considera uma ironia, que preços de exportação cresçam, mas a economia não se beneficie disso, supostamente por conta da política monetária. Essa afirmação sozinha contém dois erros. Primeiro, esquece que, num regime de câmbio flutuante, preços de exportação mais altos necessariamente apreciam o câmbio e, portanto, reduzem o impulso de demanda que vem das exportações (líquidas das importações), independentemente da política monetária.

O “professor de Deus” desconhece que, quando preços exportação (especialmente de commodities) crescem e o câmbio se aprecia, em qualquer lugar do mundo acende-se luz amarela, pelo risco da desindustrialização. A diferença entre o burocrata e o estrategista é que o primeiro constata o desastre; o segundo procura reduzir o estrago. Nesse quadro de abundância de dólares, a política monetária exerce um papel mais letal ainda do que em períodos normais, ao praticar juros que atraem parcelas adicionais de capital especulativo e permitem arbitragem de taxas. Há um processo de venda antecipada de dólares de exportação, que deprime ainda mais o câmbio. Se tivesse a modéstia de consultar os operadores do ABN, poderia entender um pouco melhor o peso das arbitragens na apreciação do real.

Segundo, isso abre espaço para quedas adicionais da taxa de juros, ao permitir uma taxa mais baixa de inflação e, num segundo momento, um ritmo mais forte de crescimento da demanda doméstica, como, aliás, observado em 2006. De novo, nada que não conste dos manuais da disciplina (ou dos dados do IBGE), de novo relegados ao mais abjeto esquecimento.

Ele apela para uma série de clichês, como peças soltas. Quando se juntam as peças de seu raciocínio, dá um todo que não fecha:

1) Recentemente publicou uma coluna em que diz que foi o aumento das importações (em função da apreciação do câmbio) que permitiu o aumento da demanda doméstica. Portanto não se poderia afirmar que o PIB de 2005 tivesse perdido 1,2 ponto com o setor externo. Obviamente não ousou apresentar um número aproximado do que teria sido, em sua opinião, a perda efetiva do PIB.

2) Aqui ele diz que a redução dos preços, provocado pelo aumento da importação, está permitindo a redução dos juros, que permitirá o aumento da demanda.

3) No mesmo artigo (no mesmo!) ele diz que os juros não podem cair mais depressa porque há um aquecimento da demanda — que, segundo o item 1, foi provocado pelo aumento das importações.

Primeiros, segundos, terceiros e quartoanistas de Economia que freqüentam o Blog, mestrandos, doutorandos e PhDs que passam por aqui têm deixado comentários algo escandalizados com a facilidade com que Schwartsman atropela princípios básicos de economia e se contradiz às vezes no mesmo texto. São erros tão primários de raciocínio que, às vezes, me espanto que possa ser levado a sério por alguém.

Não há, pois, como alimentar sentimentos corporativistas. Afirmações como as acima deveriam levar seus autores de volta à universidade; apenas não como professores.

Schwartsman ainda não se deu conta de que o espaço que lhe conferem é corda para enforcado. Ele virou “atração” por sua falta de compostura, que compensa a falta de substância de seus artigos. A cada artigo ele se queima, queima o ABN, mas dá leitura pela arrogância. Quando estiver completamente queimado, será descartado. Já assisti esse fenômeno com inúmeros para-jornalistas e jornalistas. Mas é o primeiro em que o show é conferido a alguém que pensa falar em nome da ciência.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN, 44, economista-chefe para América Latina do Banco Real, é doutor pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.

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