O manifesto de Akerlofs

Enviado por: Andre Araujo

O pensamento econômico nos Estados Unidos não cessa de evoluir, dentro da moldura flexível em que se move a cultura americana.

Precisamente neste sábado o Presidente cessante da American Economic Association, a mais importante entidade de economistas dos Estados Unidos, Geroge Akerlof, Premio Nobel de Economia de 2001, fez um emblemático discurso de balanço de sua gestão, lançando para discussão uma perspectiva atualizada da economia americana e mundial.

Akerlof preocupa-se fundamentalmente com três situações: a formidável desigualdade de renda entre os americanos e muito mais ainda nos paises emergentes, a absurda concentração de riqueza e a excessiva expansão da globalização financeira.

Para enfrentar tais problemas Akerlof vê como crucial a observação pelos economistas dos fenômenos da vida real, dos efeitos das políticas econômicas, pedindo que refluam e deixam de dar importância excessiva a teses e modelos, pois a aferição da realidade é, segundo ele, a base da ciência econômica.

Akerlof refuta inteiramente, sem subterfúgios e rodeios, as teses de Milton Friedman, que também foi Presidente da mesma associação.

Diz que as teses de Friedman são inconsistentes e baseadas premissas falsas sobre o comportamento humano, resultante de uma teoria enganadora que leva a políticas equivocadas.

Akerlof ganhou seu Nobel na mesma linha: ele não aceita a idéia de Friedman de que o ser humano atua na vida econômica com uma racionalidade previsível. Akerlof entende, e para isso fez estudos bastante profundos, que as vezes os agentes econômicos agem racionalmente, outras vezes não. O comportamento humano é muito mais complexo do que a percepção simplificadora de Friedman e seus seguidores e querer explicar todo o fenômeno da economia na suposição de que o agente econômico age sempre racionalmente é uma falácia. Akerlof da exemplos: muitas pessoas não são motivadas em suas atividades e empregos exclusivamente por razoes econômicas. Muitas vezes um profissional deixa de trocar de emprego para ganhar mais porque tem outras razões para fica no emprego que paga menos mas onde ele prefere ficar. Outro estudo mostra que o salário não é automaticamente sujeito a lei da oferta e procura. Em muitos casos o empregado prefere perder o emprego do que baixar o salário. Existem no caso considerações fora da racionalidade puramente econômica.

Akerlof observa que Keynes baseava-se na realidade econômica de seu tempo para criar suas teses e que perante nossa realidade atual os governos devem sim atuar sobre a economia quando necessário, porque a tese de que o mercado é sempre o melhor caminho é falsa, o mercado pode ser as vezes o caminho do desastre.

Akerlof não é um franco atirador. É um economista do mainstream econômico, de grande prestigio, tanto que foi eleito para o órgão Máximo da profissão nos EUA. Sua esposa, Jane Yellen, e presidente do Fed regional de São Francisco é também respeitada economista.

Akerlof leciona na Universidade da Califórnia em Berkeley mas também já foi de Yale e do MIT.

Por esse discurso, proferido hoje em Chicago, vê-se o atraso ideológico de nosso pensamento econômico, preso a duas ou três idéias simplistas e simplificadoras da era Friedman, enquanto na fonte os Stiglitz, Krugmans e Akerlofs não cessam de contestar, rever e inovar teses já de há muito fora de contexto.

Haja estoque de formol no circuito Banco Cental-Gavea/Leblon, onde pululam as viúvas de Friedman e suas teses velhas e cansadas.

Enviado por: Nilson Figueiredo Filho

A íntegra do discurso está disponível clicando aqui.

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