O mercado de opinião

Enveredando um mais pelo mercado de opiniões, que o Gustavo Conde analisou com propriedade no post abaixo.

Como se pode observar hoje em dia, pelos jornais, o antilulismo está provisoriamente quase sepultado. Não significa que não volte. Significa apenas o esgotamento da grande onda, do “overshooting” que ocorreu no ano passado.

Assim como no mercado de ativos, no mercado de opiniões tem que se analisar cenários futuros. É processo que exige conhecimento e intuição. Conhecimento para saber identificar os pontos que serão fundamentais no quadro político, quando se esgota o grande fator estimulador da catarse do momento — na época, as eleições. Intuição para perceber quando está ocorrendo o “overshooting” que irá cansar a opinião pública, provocando a reversão do pêndulo.

Na época das eleições, tentei traçar esse cenário baseado nos seguintes pontos:

1. Com a eleição de Lula, por vantagem significativa, a campanha da mídia perderia totalmente fôlego.

2. Com as eleições, o comando da oposição sairia das mãos dos senadores (Tasso, Arthur Virgilio) para as dos governadores. Em tempos de paz, eles são os atores principais do jogo. E não interessa a nenhum deles alimentar a guerra.

3. A campanha da mídia tinha como principal ideólogo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Só que, terminadas as eleições, ele desapareceria por falta de cargo eletivo, mas, principalmente, por falta de expectativa de voltar a se candidatar e a se eleger.

Somando-se o esgotamento dos fatores causadores das denúncias, e o cansaço do público com a overdose, inevitavelmente haveria um refluxo do anti-lulismo após as eleições. E os colegas que foram mais realistas que o rei, que passaram o ano todo atirando sem parar, teriam enormes dificuldades em promover o ajuste de posição.

Creio ter acertado nesse cenário.

Só que há uma diferença fundamental em relação ao mercado. O investidor que consegue antecipar cenários tem que saber mudar de mão no momento ótimo. Nesse mercado, ganha quem consegue mudar de posição mais perto da virada do jogo.

No mercado de opinião é diferente. O mérito não está em mudar de posição na véspera da inversão do jogo, mas em ter convicção sobre sua posição e suportar o “prejuízo” de estar na ponta minoritária até a virada do jogo.

Já fiz isso várias vezes, em casos simples como o da Escola Base, e em quadros complexos, como o da CPI dos Precatórios. Ou mesmo em alguns momentos dramáticos, em que o acusado era FHC.

Mas jamais houve período tão turbulento e irracional como no ano passado. Períodos catárticos são brechas relevantes para a afirmação de publicações que conseguem se diferenciar. Foi o caso da “Folha” nas “diretas-já”, extraordinária demonstração de visão do seu Frias.

No ano passado, o caminho estava claríssimo. Com toda a imprensa indo em uma mesma direção, de soltar meia dúzia de denúncias por dia, sem aprofundar-se nas efetivas, sem checar as falsas, ganharia o jogo o jornal que se permitisse fazer jornalismo. Era tudo o que a parcela influente da opinião pública queria.

Uma matéria de impacto denunciando uma acusação falsa contra Lula, por exemplo, daria ao jornal credibilidade para a matéria acusatória bem fundamentada. Esse exercício de separar o joio do trigo tornaria as denúncias muito mais eficientes e aumentaria exponencialmente a credibilidade do veículo.

Por várias razões, ninguém seguiu esse caminho óbvio. Corroeu-se toda a possibilidade de se jogar no contra-fluxo. Morreu a competição, criou-se uma cartelização da informação em que a única disputa era nos decibéis das acusações.

Todo jornal tem que ter o “respiro”, a coluna ou a reportagem que faça o contraponto ao pensamento de manada, para dar uma chance de o leitor respirar e encontrar outros ângulos de análise. No ano passado, esse espaço extinguiu-se.

Agora, vão se confirmando as informações que estavam no índex. Confirmam-se as avaliações sobre Alckmin, sobre o movimento de pacificação política pós-eleitoral, com os pactos entre Executivo federal e estaduais, sobre o esvaziamento de FHC, símbolo maior dos templários. Confirma-se o que escrevi sobre o “suicídio da mídia”, o profundo desgaste inútil que a mídia sofreu, por pura falta de visão de cenário e excesso de onipotência.

Não sei se já existe suficiente consciência da grande oportunidade perdida, de nenhum veículo, individualmente, ter enveredado pelo caminho do jornalismo. Uma das virtudes do capitalismo é o empresário saber correr riscos. Aparentemente faltou à mídia fazer a lição de casa.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora