O modelo chinês

Enviado por: Ruben
Nassif,

não entendo seu relativo pessimismo com a China. Alguns pensamentos:

1) existem duas estratégias de desenvolvimento econômico amplamente testadas e com grande sucesso: o mercantilismo, ou seja, o desenvolvimento de uma economia fundado num mercado exportador, e o que eu chamaria do modelo britânico, ou seja, viver sempre em deficits de conta corrente, consumindo bem mais do que produz, e fechando a conta com uma crise econômico-financeira periódicamente, que lhe permite recomprar os seus ativos por preço de banana que tinham sido vendidos a preços altíssimos. As duas, estratégias, complementares funcionam muito bem. Existe uma outra, que funcionou em somente 1 país, os estados unidos, de crescimento orgânico pela demanda interna. Nunca ninguém replicou isso, mas continua sendo propagado como modelo ideal pelos economistas-ideólogos americanos. O fisco da américa latina, e do brasil em particular, está aí para quem quiser ver. O príncipe do neo-liberalismo, o Chile, esta condenado à mediocridade: os cortiços continuam lá, e estarão lá daqui a 20 anos!

2) Investimento em infra-estrutura na China não é coisa nova, mas uma questão de visão estratégica. Qdo Deng assumiu o poder, seus assistentes econômicos chegaram para ele e disseram: bem achamos que a china precisa de muitas vias-expressas. Deng rebate: estão loucos? as pessoas não tem nem condições de comprar uma bicicleta e vcs querem vias expressas? Não obstante foi convencido, e no bom estilo chinês não construiu uma ou duas, mas definiu um plano muito ambicioso de construção, por 15 anos. Em 1997 a china tinha muitas vias expressas e nenhum fluxo nelas. Novamente a decisão estratégica: vamos construir mais. Hoje a China tem uma infra-estrutura só comparável a dos EUA. O desenvolvimento não teria sido possível sem isso. Enquanto isso no brasil discutia-se (afinal é só isso que se faz neste país, discutir) as condições para o desenvolvimento econômico sustentado…

3) A china ainda está perseguindo o modelo mercantilista. Ainda há muito espaço para ela na economia global. A china, que já se tornou uma exportadora líquida de bens de capital, tornar-se-á nos próximos anos a grande produtora delas, forçando os seus competidores à especialização: alemanha em instrumentos de alta performance, e japão em sistemas automatizados de alta performance, por exemplo. Tem muito ainda o que entrar na indústria mecânica… Vai pegar o brasil em cheio!

4) a fase final do desenvolvimento mercantilista é ineqüívoca: depois de atingir um certo patamar de riqueza, de atingir as condições demográficas adequadas, com uma taxa de câmbio valorizando-se, juros baixos, dá-se o desenvolvimento do mercado interno. Vide alemanha e japão nos anos 70…

5) A china não pretende entrar nesta fase ainda, mas como todos sabemos, há pressões de todos os lados. A demografia exige (é uma população envelhecendo), as pressões sobre a taxa de câmbio crescem a cada dia, as tensões sociais trasnparecem. Mas a china é ainda muito pobre. Precisa de mais 10 anos. Terá? Difícil dizer. Por enquanto tem feito um bom trabalho…

6) O capitalismo chinês está claramente na fase Schumpteriana: competição acirrada por crescimento, destruindo margens de lucro: o vencedor fica com tudo. Ainda haverá o movimento de consolidação do setor corporativo chines: qdo terminar diria que pelo menos 5 dos 10 mais ricos do mundo serão chineses.

7) Qdo Wall-Mart entrou na china, por exemplo, nos idos de 1996, o objetivo era singular: se 10 entre 10 pessoas antes viam a china como um mar de consumidores potenciais, Wall-Mart viu a china como um mar de trabalhadores baratos. Investiu, lucrou: não assumiu riscos desproporcionais. O capital investido pagou-se em muito pouco tempo. Qdo as empresas dos tigres asiáticos fizeram o mesmo, também não se arriscaram: o capital pagou-se em pouco tempo.

8) Talvez a grande frase do velho Fidel: não é ecologicamente viável o mundo ser como a economia americana! Muito verdadeiro. Que deus nos proteja no dia que os chineses quiserem andar com SUVs….

9) A grande oportunidade do brasil é a possibilidade de precificação do alimento pelo seu conteúdo energético além de seu conteúdo proteico. Que os EUA abram seu mercado de etanol: a gente descobre como plantar cana no mato grosso 🙂

Comentário

A China está seguindo a máxima de Friedrick List, de assimilar os fatores de produção. Em tudo, ela repete a velha Inglaterra, na atração de investidores externos, de imigrantes, na assimilação de tecnologia externa, no uso de todas as armas para aumentar a competitividade (do câmbio depreciado ao subfaturamento das exportações para pagar menos imposto). Como preconizava o próprio List, após a conquista do mercado externo, tem que consolidar o interno e ter uma base sólida. Caso contrário as empresas mudariam de país ao primeiro problema, como aconteceu com a Liga Hanseática.

No mais, muito boa a sua análise.

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