O Nobel e o Brasil

Alguns cabeças-de-planilha ficaram exultantes com a indicação do novo Prêmio Nobel de Economia Edmund Phelps. Quando comecei minha carreira de jornalista econômico, uma das regras de ouro da economia eram a famosa “curva de Phiilips” – princípio do economista Aban Phillips, que correlacionava desemprego com inflação: quanto menor a taxa de desemprego maior a inflação, devido à pressão da força de trabalho sobre os custos. Baixando a taxa de juros, haveria um crescimento da economia, que provocaria aumento do emprego e pressões inflacionárias; e vice-versa.

Phelps desenvolveu estudos comprovando que o mecanismo que induz ao crescimento sustentado e ao investimento são as expectativas. Se existem expectativas inflacionárias, os trabalhadores irão negociar aumentos que compensem a inflação futura e, com isso, haveria uma antecipação da pressão de custos que tiraria dos empresários a vontade de investir.

A partir daí, alguns cabeças-de-planilhas dirão que o Banco Central brasileiro está correto em manter os juros elevados até que cessem as expectativas inflacionárias.

Alguns pontos a considerar:

1. Independentemente das avaliações que se façam sobre o papel dos juros, os juros brasileiros são os mais altos do mundo há muito tempo. Pela ortodoxia ou pela heterodoxia, estão fora do lugar, e isso faz a diferença.

2. Há que se analisar o efeito dos juros sobre a atração de capitais externos em um país de moeda inconversível (que não tem negociação internacional plena). Quando se tem uma taxa de juros que traz o dólar de R$ 3,50 para R$ 2,10 e, depois, ameaça reduzir mais ainda; e a qualquer soluço externo esses dólares saem, provocando novas desvalorizações (como tem ocorrido sistematicamente há doze anos) é evidente que há uma aplicação incorreta, uma incapacidade de ler a teoria à luz da realidade nacional.

3. Finalmente, há que se analisar o efeito-câmbio sobre as expectativas de investimento do empresário. Não é só a inflação que comanda as expectativas de investimento, mas também a garantia de crescimento do mercado interno e das exportações. Quando a luta contra a inflação ignora os dois outros fatores, mata dois aspectos fundamentais no processo de decisão de investimento. Estabilidade com estagnação não induz ninguém a investir. Inflação com crescimento tem pernas curtas. O desafio consiste em combater a inflação sem permitir a apreciação irresponsável da moeda e a estagnação do crescimento.

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