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O país dos grandes

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Coluna Econômica – 28/8/2006
Porque a sua vida está ruim, se diariamente aparecem manchetes falando em melhora da economia? É simples entender.

Na reunião do CEDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) de quinta-feira passada, o presidente Luiz Ignácio Lula da Silva defendeu o lucro dos bancos e salientou pesquisa recente, indicando que o setor produtivo conseguira rentabilidade maior.

Quando ele fala em setor produtivo, se refere às 180 maiores empresas, cuja rentabilidade motivou a notícia. O que bancos e as 180 maiores empresas têm em comum? Primeiro, o fato de, em geral, atuarem em ambientes cartelizados. Segundo, terem acesso a capital externo a um custo extremamente mais barato do que as linhas internas de crédito. Terceiro, terem recursos em caixa, que podem aplicar no mercado financeiro.

Quando se referem ao setor produtivo, tanto Lula quanto seu adversário Geraldo Alckmin têm em mente essas 180 empresas. Essa é a parte pior da herança de Fernando Henrique Cardoso quando, nos primeiros anos do Real, permitiu a divisão do país em dois: os com dólares e os sem dólares. O Brasil que conta é esse universo das grandes empresas que, sozinho, não compõe um todo.

O resultado foi a cartelização cada vez maior da economia, o aparecimento de grandes grupos na economia formal (o que foi bom), mas às custas dos concorrentes mais fracos; de grandes grupos na economia informal, o esmagamento de pequenas e médias empresas e o crescimento da informalidade, da criminalidade a níveis recordes.

O modelo, fundado em juros altos, câmbio apreciado, falta de oxigênio para pequenas e micro empresa, não fecha. E as estatísticas não revelam esse quadro. Quando se fala em aumento do emprego formal, está se analisando esse universo restrito das grandes corporações. Quando o dólar cai para R$ 2,10, as grandes empresas fazem antecipação das exportações, recebem, aplicam no mercado financeiro e conseguem, com a rentabilidade das aplicações, um câmbio equivalente a R$ 2,40. Já os pequenos, morrem. Com isso, vão sendo aplacadas as críticas dos setores influentes, e o país continua em marcha lenta.

Qualquer projeto de país não pode prescindir das micros, pequenas e médias empresas. São elas que completam a teia econômica, que garantem emprego, renda, revascularizam a economia e são fundamentais até para poder germinar grandes empresas no futuro. Ao seu asfixiamento, a economia responde com aumento da criminalidade, com limites de crescimento para o mercado interno, transformando cada movimento de crescimento em vôo de galinha.

Nesses anos todos, esse modelo imediatista, predador, da política monetária foi conquistando espaço com esse acomodamento provocado pela divisão de ganhos entre o setor financeiro e os grandes grupos da economia real. Ao celebrar os lucros dos bancos e das 180 maiores, Lula pensa estar falando de dois universos distintos. Não está. No Brasil, a divisão é entre grandes e pequenos.

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