O planejamento estratégico do BB

Uma das melhores conseqüências da crise de 2008 foi o reposicionamento do Banco do Brasil no mercado bancário.

Em um momento em que o sistema bancário, como um todo, passava a jogar na defensiva, o controlador do BB (União) determinou que ele avançasse na oferta de crédito. Analistas econômicos da mídia espalharam o terror, qualificando de interferência política e prognosticando queda no valor das ações do banco, devido à explosão futura da inadimplência.

Dois anos depois, a operação foi um sucesso. Permitiu ao banco recuperar o primeiro lugar em ativos – que havia perdido após a compra do Unibanco pelo Itaú -, ampliar em 1,5 pontos sua participação no mercado de crédito, com níveis de inadimplência inferiores aos da concorrência. Mais que isso, contribuiu para mudar a filosofia dos bancos comerciais, rompendo o acordo tácito que impedia uma competição maior no segmento.

Cumpriu uma função pública e fez um bom negócio.

Balanço da empresa

Daqui a pouco, às 15 horas, a diretoria do banco irá fazer um balanço para a imprensa.

O presidente Aldemir Bendini falará em colheita. Em 2008, em vez de entrar no clima de pânico criado pelo mercado, o banco enxergou o Brasil, a economia real.

O BB é o maior pagador de massa salarial, aquele que tem o maior número de clientes das empresas produtivas. Pelos dados levantados, constatou que a crise não estava afetando o setor real da economia. Era apenas uma crise de confiança, que poderia ser revertida.

Além disso, teve confiança nas análises de crédito de seu departamento, para evitar qualquer explosão futura da inadimplência. O resultado foi um salto no share do crédito, de 18,5 para 20%.

Em 2010, todos os demais bancos iniciaram uma corrida ao crédito para recuperar a diferença. Apesar do salto dos dois anos passados, há a probabilidade de que, no primeiro semestre, o BB tenha preservado a margem conquistada.

As ações estratégicas

Na semana passada o BB terminou seu planejamento estratégico para os próximos anos.

O primeiro ponto é o da internacionalização, movimento que vem sendo acompanhado por outros bancos brasileiros, como o Itaú. Na coletiva de hoje, serão anunciadas operações internacionais em parceria com o Bradesco.

Esse movimento será inevitável. Hoje em dia, apenas na Argentina já existem 400 grupos brasileiros em operação.

O segundo ponto é o da reestruturação da seguridade.

Nos últimos anos o banco avançou em parcerias estratégicas com seguradoras privadas. Agora, considera-se que o modelo envelheceu. Daqui para diante, a tendência será assumir o controle das sociedades, ter pelo menos 75% de cada associação e exigir exclusividade dos sócios privados.

Dentro dessa estratégia, este mês adquiriu 30% da participação da Aliança da Bahia, com quem mantinha sociedade. Também acertou com a espanhola Mapfre uma sociedade nos ramos de vida, ramos elementares e veículos, com a condição do sócio não operar no Brasil.

Houve uma redefinição da sociedade com a Principal na previdência privada. O BB ampliou sua participação de 46% para 75% sem aportar capital, apenas garantindo a exclusividade ao parceiro.

No caso da capitalização, acertou com o Banco Icatu trazer sua operação para dentro da Brasilcap.

O banco saiu do ramo saúde, mas deverá entrar em breve no segmento odontológico.

O desafio, agora, é garantir seguro para as grandes obras de infra-estrutura. O BB participou da reestruturação acionária do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). Mas hoje em dia não existe seguro para grandes obras. Apenas quatro ou cinco grandes players internacionais atendendo esporadicamente o mercado.

Para o BB, esse setor ainda não está bem resolvido no país. Não dá para buscar fora fonte de resseguro para cada operação. Daí o fato da nova seguradora estatal ter se tornado a única alternativa para o momento.

Outros segmentos

No financiamento, outra operação bem sucedida foi da aquisição do Banco Votorantim, que permitiu ao BB se transformar em terceiro player do mercado em financiamento de veículos. Em maio, a carteira do banco aumentou em 30% em relação aos níveis pré-crise.

O banco continua apostando no crédito, acreditando que a relação credito/PIB sairá dos 24% em 2002 para 70%. NO primeiro semestre de 2010, estava em 48%. A indagação é sobre a maneira como o consumidor brasileiro trabalhará níveis maiores de comprometimento da renda.

Outro lance ousado foi a parceria com o Bradesco, para a criação da bandeira Elo, um gigante na área de cartões de crédito, concorrendo com Visa e Mastercard.

Na coletiva de logo mais, será anunciada a adesão da Caixa Econômica Federal à nova bandeira, permitindo prever, para breve, um universo de 100 milhões de cartões, especialmente para usuários de baixa renda.

Agora, o BB controla os três elos da cadeia dos cartões de crédito: a bandeira (marca de aceitação), o comércio (através da Elo, antiga Visanet) e o consumidor.

O atendimento aos não-bancarizados será ampliado com a rede de correspondentes bancários. Hoje em dia o grande competidor o BB nesse segmento é o Bradesco.

Em geral, os correspondentes trabalham apenas com pagamentos e recebimentos, o que não é uma operação rentável. No entanto, é um canal barato, que ajuda a despovoar as agências.

A estratégia será agregar aos correspondentes funcionários do banco especializados na venda de produtos bancários. Um piloto foi montado em Anhembi e será estendido para o país.

Em municípios sem condições de ter agências, haverá um correspondente bancário, sob a marca +BB, com, layout do banco, a mesma assistência para pagamento e recebimento, mas também com dois funcionários do banco trabalhando outros serviços.

Com isso, em três ou quatro anos, será possível estar em todos os municípios brasileiros, com 2.500 agências oito mil correspondentes bancários.

A capitalização do banco

Embora por aqui a velha mídia falasse em interferências políticas sobre o banco, aparentemente o mercado internacional entendeu muito melhor a nova estratégia.

No ápice da crise na Europa, com o mercado internacional fechado, o banco conseguiu uma capitalização de R$ 10 bilhões, R$ 7 bi para capitalização e R$ 3 bi de venda de participação do governo.

Pesou para  tanto a percepção na excelência da regulação bancária no Brasil, que poupou o sistema da crise. E também a constatação de que, sendo de capital misto, o BB estava submetido não apenas ao controle da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) como da AGU, TCU etc.

Foram visitados 250 investidores institucionais ao redor do mundo. 112 mil novo acionistas adquiriram ações do banco pelo varejo e 50 mil pela BMF&Bovespa.

 

 

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