O presidente do Federal Reserve e os impostos para os ricos

Oi Nassif, segue abaixo minha tradução de mais um post muito interessante do Paul Krugman, publicado nessa Segunda.

Do New York Times

Ben Bernanke defende uma taxa superior de imposto de renda de 73%

Paul Krugman

OK, de fato ele não chegou a dizer isso nessas palavras. Mas, se você acompanhar a lógica do seu excelente discurso ontem na Universidade de Princeton, essa é a conclusão a que você chegaria.

Na verdade, várias coisas que Bernanke disse eram politicamente controversas. Por exemplo, quando ele declarou que

“a beleza física é a maneira evolutiva de nos assegurar que a outra pessoa não possui muitos parasitas intestinais”

ele estava endossando a teoria da evolução – o que o coloca em desacordo com a grande maioria dos republicanos, 58 por cento dos quais acreditam que o homem foi criado na sua forma atual nos últimos 10.000 anos.

Mas o ponto alto nas declarações de Bernanke foi sua discussão sobre as obrigações dos bem sucedidos, mesmo dentro de uma sociedade supostamente meritocrática:

“Fomos ensinados a acreditar que as instituições e sociedades meritocráticas são justas. Deixando de lado o fato de que nenhum sistema, inclusive o nosso, é realmente totalmente meritocrático, a meritocracia pode ser mais justa e mais eficiente do que algumas alternativas. Mas, justa em um sentido absoluto? Pense nisso. A meritocracia é um sistema no qual as pessoas mais sortudas na sua saúde e na sua herança genética; mais sortudas em termos de apoio da família, de encorajamento e, provavelmente, de renda; mais sortudas nas suas oportunidades educacionais e de carreira, e mais sortuda em tantos outros aspectos difíceis de enumerar – estas são as pessoas que recebem as maiores recompensas. Mesmo para uma suposta meritocracia, a única maneira de ter esperança de ser considerada justa, é se aqueles que são os mais afortunados em todos esses aspectos também possuem a maior responsabilidade de trabalhar duro, para contribuir para a melhoria do mundo, e para compartilhar sua sorte com os outros.”

OK, mesmo que Bernanke não perceba (provavelmente ele percebe), isso é basicamente uma visão Rawlsiana do mundo, onde se encara a vida como uma espécie de loteria na qual você recebe um ingresso que inclui coisas como o seu patrimônio genético, bem como a condição financeira de seus pais. E o que você deveria fazer, eticamente, é apoiar o sistema econômico e social que você escolheria se tivesse que entrar nessa loteria sem saber qual ingresso você iria receber – ou seja, se você estivesse fazendo suas escolhas políticas por trás do “véu da ignorância”.

Assim que você percebe as escolhas dessa forma, você introduz uma forte predisposição em favor da redistribuição. Afinal, se por acaso você acabar como membro dos 1 por cento mais ricos, um dólar extra marginalmente não irá significar muito para você, mas se acontecer de você acabar como membro, por exemplo, do quintil mais pobre, um dólar extra pode fazer muita diferença. Então, você deveria, mantendo outras coisas iguais, ser a favor de um sistema de tributação progressiva e da generosa ajuda aos pobres e desafortunados.

Então por que não ser a favor de um nivelamento completo, os EUA como Cuba? Porque, por muitas razões, tanto econômicas como políticas, nós somos a favor de uma economia de mercado onde as pessoas tomam decisões descentralizadas sobre o trabalho, poupança, e assim por diante. E isso significa que os efeitos de incentivo se tornam importantes. Não se pode cobrar um imposto de 100 por cento sobre os ricos ou isolar completamente os pobres de quaisquer consequências da baixa renda, sem destruir os incentivos que você necessita para fazer a economia funcionar.

A questão torna-se então de números. Em particular, quão alto devemos definir a taxa superior de imposto de renda? De uma perspectiva Rawlsiana, a principal coisa sobre rendimentos muito elevados é que torná-los um pouco maiores ou menores, basicamente, não importa – se você tiver sorte suficiente para se encontrar, digamos, entre os 0,1 por cento mais ricos, o valor marginal de um dólar para o seu bem-estar é trivial comparado com o valor do dólar para quase todas as outras pessoas. Assim, a taxa superior de imposto de renda deve ser definida apenas levando-se em conta a quantidade de dinheiro que ela propicia para outros fins. Essencialmente, você deve taxar os ricos até o ponto em que qualquer aumento adicional na taxa de imposto, na verdade, reduziria a receita.

E temos uma boa idéia, com base em estudos estatísticos cuidadosos, de qual é essa taxa superior de imposto de renda: 73 por cento, diria Diamond e Saez, ou talvez 80 por cento, diria Romer e Romer.

Será que isso soa descontroladamente radical para você? Bem, isso é apenas onde a lógica e a evidência o levariam uma vez que você adote uma visão mais ou menos Rawlsiana da justiça social – que é exatamente o que fez Ben Bernanke em Princeton.

Algumas pessoas sugeriram que o discurso de Bernanke possuia um toque de radicalismo. Mal sabiam eles!

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