O problema foi a babá

Certa vez defendi André Urani de acusações pesadas contra o IETS. Naquelas circunstâncias, defendi e voltaria a defender. Mesmo assim, a maneira como passou a se valer das estatísticas, há muito tempo me escandaliza. Urani é um técnico competente que, a partir de certo momento, passou a falar o que o Grande Dogma exigia: a racionalização como álibi para a redução das despesas sociais.

Sua resposta a um post em que comento sua posição — de considerar sua empregada e o marido como privilegiados, portanto sem direito ao SUS (que deveria ficar restrito aos mais necessitados) — provocou respostas indignadas por escrito e malcriadas por telefone. Primeiro, fez questão de esclarecer que não era empregada doméstica, mas a sua babá. Ah, bom! Depois, sustenta que jamais fez a afirmação sobre o SUS no encontro do Projeto DNA em Campos do Jordão.

Respondo-lhe que meu post dizia que sua afirmação foi em um seminário de Tecnologia Social do Projeto Brasil. Cheguei ao encontro do DNA no último dia à tarde, fiquei preparando minha palestra, apresentei e retornei a São Paulo. Não soube nada sobre sua apresentação, e nem sabia que sua babá era personagem recorrente em suas palestras.

Ele corre até a página do Blog, enquanto fala comigo, confere que se equivocou. Em vez de admitir, me acusa de ter mudado o post depois de ter recebido sua resposta. Digo-lhe que será fácil conferir. Bastaria ligar para o Caio Tülio, do iG -um dos organizadores do Projeto DNA, aliás – e solicitar o log do blog. Ele liga para o Caio, não pede o log – mas insiste na acusação.

Esse é o primeiro ponto em que é sua palavra contra a minha. Como posso me defender? Simplesmente provando que sabia da história da empregada-babá dele antes do encontro do DNA.

Em coluna de 9 de dezembro de 2004, na “Folha”, mencionei dois exemplos de manipulação política das estatísticas sociais. Dizia a coluna:

“Nos últimos anos desenvolveu-se no país um fantástico know-how, que mistura artimanhas estatísticas com sofismas habilidosos.

Vamos a alguns exemplos”.

“Cena 1 – em um seminário de políticas sociais, o economista explica o significado de “focalização” dos gastos públicos. Sua empregada ganha R$ 500,00 mensais; é casada com o porteiro do prédio, que ganha outros R$ 400,00. Não têm filhos. Logo, pertencem ao extrato dos 20% mais ricos da população. São privilegiados. Se o Estado gasta recursos com eles, é porque está subtraindo dos desfavorecidos que ganham menos”.

Como parece difícil que um mesmo especialista em políticas sociais se valha da sua babá casada com um porteiro do prédio como exemplo, fica aí a comprovação de que eu sabia da história muito antes do encontro do DNA. E o log do iG continua à sua disposição. Ou seja, sua acusação de que manipulei a nota é leviana.

Mais? Coluna de 29 de abril de 2004, sobre seminário no Instituto Fernando Henrique Cardoso: “Hoje em dia se tem um país sofisticado, uma opinião pública mais informada, porém dispersa, uma classe média empobrecida. E não se irão enfrentar esses desafios com os paradigmas de André Urani, também palestrante do encontro”:

“• evitam-se desperdícios nos gastos sociais reduzindo os gastos sociais;”

“• falta dinheiro para o miserável do sub-salário mínimo, por culpa do aposentado de mil reais”.

Isso aí sou eu falando do discurso de Urani mais de dois anos atrás, em coluna de jornal de grande circulação.

Aliás, nesse seminário do IFHC, para gáudio do presidente, Urani apresentou números para comprovar que a renda familiar aumentou nos anos 80 (corrigindo: 90). É a “Cena Dois” da coluna da “Folha”:

“Cena 2 – o economista explica que é um engano falar em queda de renda nos anos 90, pois a renda familiar aumentou na década. Onde está o truque estatístico? Hoje em dia mais pessoas trabalham para receber menos. Ocorreu uma queda generalizada da renda pessoal, obrigando donas de casa e jovens a entrarem no mercado de trabalho. Todos trabalham mais para ganhar menos. O bravo sofista suprime a comparação carga de trabalho x rendimento, e não computa o custo social e econômico da mãe de família pobre ter que sair para trabalhar e do filho ter que entrar mais cedo no mercado de trabalho”.

Não mencionei o SUS no exemplo, embora tenha ouvido de sua boca no seminário do Projeto Brasil. Aí, de novo, é sua palavra contra a minha. Pelo precedente acima, o leitor julgue. Mas poderá julgar também entendendo a lógica do raciocínio “focalista” e, depois, suas afirmações sobre o SUS.

Para defender cortes nos gastos sociais, ele passou a recorrer a um estratagema malicioso: enquadrou todo mundo que ganha mais de R$ 489,00 na faixa da “camada média alta”; quem ganha de R$ 980,00 a R$ 3.600,00 como ricos; e acima de R$ 3.600,00 como riquíssimos. E toca tirar dos ricos para dar aos pobres, não é justo?

Pelas contas de Urani, sua babá e o marido, ganhando mais do que mil reais, estão na categoria dos muitos ricos (depois dos reajustes de 2003 ou 2004, quando houve o seminário, para cá). Toda sua cruzada é no sentido de “focalizar” os gastos. Isto é, tirar da “classe média alta”, dos “ricos” e dos “muito ricos” (isto é, da sua babá e do marido) para dar aos miseráveis.

Como “focalista”, e pelos exemplos apresentados, ele é conceitualmente contra programas sociais universalistas. Aí se entra no mais universal dos programas sociais brasileiros, o SUS (Sistema Único de Saúde), e o que diz o bravo Urani, para sustentar a discussão e ter algum ponto em que se agarrar? Que “jamais falei, escrevi ou publiquei qualquer coisa que seja sobre o SUS. Simplesmente porque não entendo o suficiente do assunto”. Um cientista social especializado em políticas sociais que não entende de SUS.

E o que ele pensa sobre a universalização do SUS, conforme nota que consta nos comentários do post? “Como cidadão politizado e participante que eu sou, tenho minhas opiniões a respeito – que jamais externei em público”. Um cidadão politizado e participante, que tem opiniões firmes sobre a mais importante das políticas sociais, depois do INSS, porém em “off”. E completa “a quem interessar possa, quero declarar em alto e bom tom que, como não especialista que sou, sou a favor do SUS e da universalização da política de saúde em nosso país”.

Fica registrado “em alto e bom tom” que Urani tornou-se partidário da universalização da saúde, inclusive para os muito ricos, como sua babá, e os mais ricos ainda. Ganhamos um guerreiro para a causa do SUS, ainda que por linhas tortas. E como fica a tal da “focalização”, e como fica a crítica às políticas universalistas, como fica a sua coerência? Que os colegas de Urani analisem os princípios “focalistas” e essa sua adesão intempestiva aa universalização do SUS.

Se ele recorre a todo esse arsenal de opiniões em “off”, que de repente tornam-se manifestos “em alto e bom tom”, apenas para lamber o ego ferido, o que não cometeria em outros estudos? Lá sei eu.

Todos esses volteios do Urani se prendem a uma mera questão de vaidade. Não se conformou de ter entrado epicamente montado em seu cavalo branco para protestar contra o que eu não disse. E, depois, não se conformou de me ter enviado uma carta de protesto e dado ênfase a uma irrelevância: não era sua empregada mas sua babá a moça do exemplo.

No fundo, o problema todo foi a babá.

PS – Na sua resposta, Urani disse que, passadas 13 horas, eu não tinha respondido aos seus ataques. Ora, não respondi porque o Caio Túlio me avisou que ele mandaria uma resposta a ser publicada no “Último Segundo”, e eu não quis me prevalecer do Blog antes que a resposta fosse publicada. Inclusive para não entupir o leitor com respostas.

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