O que há de errado com taxas negativas? Por Joseph E. Stiglitz

Para economistas, autoridades se preocuparam demais em salvar grandes bancos

Jornal GGN – As condições econômicas estruturadas em 2016 dão a entender que o período seria tão fraco quanto 2015, que já foi considerado o pior período desde a crise financeira global registrada em 2008. E as previsões mais otimistas continuam a ser revisadas para baixo.

Tal ponto foi abordado pelo economista Joseph E. Stiglitz anteriormente em janeiro e, segundo seu último artigo publicado no site Project Syndicate, a questão que apresentou piora desde a crise econômica é a falta de demanda agregada global. Para responder a isso, o Banco Central Europeu (BCE) tem ampliado os estímulos adotados, juntando-se ao Banco do Japão e a outras instituições em mostrar que o “limite abaixo de zero” – a incapacidade das taxas de juros se tornarem negativas – é uma fronteira existente apenas na mente dos economistas convencionais.

“No entanto, em nenhuma das economias que tentam a experiência pouco ortodoxa das taxas de juros negativas registrou um retorno ao crescimento e ao pleno emprego. Em alguns casos, o resultado foi inesperado: algumas taxas de empréstimo aumentaram”, explica Stiglitz. “Deveria ter sido evidente que os modelos pré-crise – ambos os modelos formais e os modelos mentais que guiam o pensamento da maioria dos responsáveis políticos – eram muito ruins. Nenhum previu a crise; e em poucas destas economias existiu a restauração do pleno emprego”.

O BCE aumentou as taxas de juros duas vezes em 2011, enquanto a crise do euro estava piorando e a taxa de desemprego foi avançando para níveis de dois dígitos, trazendo a deflação para níveis cada vez mais estreitos. “Eles continuaram a usar os desacreditados modelos antigos, talvez ligeiramente modificados. Nestes modelos, a taxa de juros é o instrumento-chave da política, a ser ajustada para cima ou para baixo para garantir um bom desempenho econômico. Se uma taxa de juro positiva não fizer o truque, uma taxa negativa o fará”, pontua o articulista.

Stiglitz destaca que o resultado não foi o esperado, tanto que em diversas economias (Estados Unidos e Europa) os juros reais foram negativos e, com essa queda, o investimento empresarial estagnou. “Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a percentagem do PIB investido em uma categoria como instalações e equipamentos caiu na Europa e os EUA nos últimos anos – nos Estados Unidos, o indicador caiu de 8,4% em 2000 para 6,8% em 2014; na UE, caiu de 7,5% para 5,7% no mesmo período. Outros dados fornecem um quadro semelhante”.

O economista também considera “absurda” a ideia de que as grandes corporações calculam precisamente o juro a que eles estão dispostos a acatar para investir – e que eles estariam dispostos a conduzir diversos projetos se os juros forem reduzidos em mais 25 pontos. “De forma realista, as grandes corporações estão sentadas em centenas de bilhões de dólares – na verdade, trilhões se os valores forem agregados com as economias avançadas – porque eles já têm muita capacidade. Por que construir mais simplesmente porque a taxa de juros foi movido um pouco para baixo?”.

O articulista também ressalta que a estrutura da zona do euro e as políticas do BCE tem assegurado que os bancos nos países de baixo desempenho e, especialmente, nos países em crise, são muito fracos. “A redução dos depósitos, e as políticas de austeridade exigidas pela Alemanha estão prolongando o déficit da demanda agregada e mantendo o desemprego elevado. Nestas circunstâncias, o crédito é arriscado, e os bancos não têm nem o apetite nem capacidade de emprestar, em particular para as PME (as pequenas e médias empresas, que normalmente geram o maior número de postos de trabalho)”.

Stiglitz ainda aponta outros problemas. Em primeiro lugar, os juros menores incentivam as empresas a investir em tecnologias de capital mais intensivo, o que reduz a demanda de trabalho no longo prazo, mesmo com o menor desemprego no curto prazo. Ao mesmo tempo, os cidadãos mais velhos que dependem de juros são mais afetados, cortando seu consumo em níveis mais profundos do que aqueles mais favorecidos, o que compromete a renda agregada. Em terceiro lugar, a busca pelo melhor rendimento pode levar investidores a alterarem suas carteiras rumo a ativos considerados mais arriscados.

“O que os bancos centrais deveriam estar fazendo é direcionar o fluxo de crédito, o que significa restaurar e manter a capacidade e disposição para emprestar para as PME dos bancos locais. Em vez disso, em todo o mundo, os bancos centrais têm-se centrado sobre os bancos sistemicamente importantes, as instituições financeiras cuja exposição ao risco e às práticas abusivas causou a crise de 2008. Mas um grande número de pequenos bancos, no total, são sistemicamente significativos – especialmente se estão preocupados com a restauração de investimento, emprego e crescimento”, diz o economista.

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