O Subfinanciamento do Estado Brasileiro, por Luiz Alberto Marques Vieira Filho

Os dados são claros em relação ao subfinanciamento e desnudam as mentiras que envolvem as teses de “gastança” do setor público nacional.

O Subfinanciamento do Estado Brasileiro

Por Luiz Alberto Marques Vieira Filho*

O governo brasileiro não possui financiamento adequado para prover serviços públicos de qualidade como aqueles oferecidos pelos países europeus. Basta verificarmos o quanto de receita o Estado brasileiro arrecada por cada cidadão e fazer a comparação com os dados internacionais. Os dados são claros em relação ao subfinanciamento e desnudam as mentiras que envolvem as teses de “gastança” do setor público nacional.

No entanto, o senso comum considera que se paga impostos demais por serviços públicos de péssima qualidade no Brasil, o que é reforçado pela grande mídia e trabalhos de “think tanks” liberais. De modo geral, utiliza-se a proporção do gasto público e da carga tributária em relação ao PIB para se afirmar sobre o “excesso” de impostos e ineficiência do gastos públicos, como se 40% do PIB da Alemanha e do Mali pudessem prover a mesma quantidade de serviços públicos, independentemente do tamanho do PIB e da população que esses recursos deverão ser distribuídos. Na verdade, as relações de gastos com o PIB são muito mais medidas de esforços do que de recursos disponíveis. É como se uma pessoa sedentária pudesse obter o mesmo rendimento de um campeão olímpico de maratona caso se esforcem na mesma medida durante a prova.

No entanto, conforme gráfico de dispersão abaixo, as notas dos alunos no Exame Pisa da OCDE em leitura de 2015 possui importante correlação com os gastos per capita em educação 0,73, o que mostra indícios que o mais importante é quantidade investida em educação em cada cidadão, mas que evidentemente precisam ser aprofundados em bases maiores e com mais variáveis. Para exercício, foram selecionados os seguintes países de 3 Blocos: Latino-americanos (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, México, Uruguai), grandes emergentes (Coréia do Sul e Rússia) e países desenvolvidos (Alemanha, Austrália, Estados Unidos, Itália e Reino Unido).

Gráfico 1: Eixo Y = Nota Pisa em Leitura em 2015; Eixo Y= Gasto per capita em educação

Nesse ponto, começa a se desnudar o caráter pernicioso da Emenda Constitucional 95 e da PEC Emergencial, uma vez que os gastos públicos ficarão congelados em termos reais por 20 anos, impedindo que o gasto público se acomode nos patamares necessários para prover a qualidade oferecida pelos países desenvolvidos, independentemente do crescimento da economia brasileira e da maior oferta de recursos na sociedade brasileira. Dweck e Rossi (2016) projetam que a EC 95 provocará a redução dos gastos em saúde e educação federais de 4% do PIB para 2,7% em 20 anos. Contudo, mesmo essa perspectiva sombria é improvável, pois os gastos primários chegarão a apenas 12,3% do PIB, dos quais 8,5% em previdência, ou seja, haverá profundos problemas no funcionamento as atividades mais essenciais da máquina pública.

Além disso, é importante termos claro que a educação e a saúde são subfinanciadas no Brasil, quando fazemos a comparação internacional em dólares nominais (Tabela 1) (Tabela 2)(Tabela 3). No caso da educação, os valores em dólares correntes investidos estão abaixo de países como Argentina, Chile e Uruguai, embora sejam maiores do que Colômbia, Equador, Paraguai e México. Quando olhamos os melhores países em desempenho educacional, a diferença é gritante, o que aponta o longo caminho a ser percorrido para implantarmos um sistema educacional adequado. O gasto público per capita em educação no Brasil é menos da metade na comparação com Coréia do Sul e Itália e quase 1/3 em relação aos alemães e cerca de ¼ dos EUA, que possuem um insipiente sistema público de educação superior.

Tabela 1: Gastos per capita em Educação – US$ correntes

          2.014         2.015         2.016         2.017         2.018
 América Latina
 Argentina      661,32      796,47      709,28      798,20                –  
 Bolívia                –                  –                  –                  –                  –  
 Brasil      720,51      550,09      549,96      627,54                –  
 Chile      694,08      661,78      734,72      812,88                –  
 Colômbia      375,65      276,09      262,85      289,22      299,41
 Equador      335,50      306,14                –                  –                  –  
 Paraguai                –                  –        182,90                –                  –  
 Peru      246,63      247,25      236,61      263,81      258,43
 México      574,93      503,45      429,31      420,07                –  
 Uruguai                –                  –        732,29      838,44      872,12
 Venezuela                –                  –                  –                  –                  –  
 BRICS e grandes emergentes
 Africa do Sul                –        341,57      313,36      374,88      392,58
 China                –                  –                  –                  –                  –  
 Coréia do Sul                –                  –     1.269,12                –                  –  
 Egito                –                  –                  –                  –                  –  
 Índia                –                  –                  –                  –                  –  
 Rússia      565,78      357,06      327,34      502,77                –  
 Turquia                –                  –                  –                  –                  –  
 Países Desenvolvidos 
 Alemanha   2.369,04   1.986,54   2.038,10   2.185,37                –  
 Austrália   3.228,54   3.014,45   2.636,87   2.768,53                –  
 Estados Unidos   2.732,17                –                  –                  –                  –  
 França     
 Grécia                –                  –                  –                  –                  –  
 Itália   1.442,50   1.231,47   1.180,59   1.310,83                –  
 Reino Unido   2.655,36   2.498,87   2.228,43   2.196,50                –  

Fonte: Banco Mundial                                  Elaboração Própria

Em relação à saúde, o subfinanciamento é ainda mais grave (Tabela 2)(Tabela 3). O investimento público em saúde no Brasil é cerca da metade de países como Argentina, Chile e Uruguai, seja em dólares correntes como em paridade de poder de compra (PPP). Quando comparamos com países desenvolvidos, o abismo, evidentemente, é maior. Em dólares correntes, o investimento per capita em saúde no Brasil é 15 vezes menor do que o ineficiente sistema público de saúde americano, 12 vezes menor do que o da Alemanha e quase 10 vezes menor que os sistemas franceses e ingleses. Mesmo em PPP, o Brasil investe per capita 8,39 menos do que os EUA, 7,42 vezes menos do que a Alemanha e quase 6 vezes menos do que França e Reino Unido.

Tabela 2: Gastos per capita em Saúde – US$ correntes

          2.014         2.015         2.016         2.017         2.018
 América Latina
 Argentina      841,49   1.021,71      716,47      966,73      692,62
 Bolívia      113,80      130,74      136,28      149,04      159,13
 Brasil      448,04      335,49      344,28      391,70      353,54
 Chile      546,77      541,16      581,74      685,52      740,01
 Colômbia      410,50      329,11      310,95      347,85      367,50
 Equador      283,69      259,75      256,74      271,01      268,42
 Paraguai      193,44      170,89      167,62      171,88      175,21
 Peru      203,39      195,65      199,89      215,52      231,10
 México      327,45      295,61      257,14      263,78      260,17
 Uruguai   1.005,59      962,12   1.014,14   1.152,57   1.160,21
 Venezuela      240,93      300,48      238,95      314,00      122,94
 BRICS e grandes emergentes
 Africa do Sul      273,82      251,70      229,70      266,67      284,28
 China      209,89      234,77      229,71      247,81      282,68
 Coréia do Sul   1.088,55   1.100,48   1.170,25   1.308,08   1.486,45
 Egito         49,41         57,31         47,38         35,30         36,07
 Índia         13,51         15,11         16,26         18,81         19,63
 Rússia      455,77      292,45      264,76      330,93      362,10
 Turquia      408,08      354,03      366,16      343,96      301,69
 Países Desenvolvidos 
 Alemanha   4.085,03   3.556,99   3.663,70   3.926,52   4.251,03
 Austrália   3.774,33   3.315,09   3.410,27   3.654,97   3.747,03
 Estados Unidos   4.530,34   4.811,91   4.977,19   5.130,77   5.355,79
 França   3.526,99   3.046,71   3.099,93   3.243,37   3.441,17
 Grécia      971,68      825,65      775,68      784,70      813,74
 Itália   2.379,11   1.991,65   2.008,63   2.071,76   2.208,52
 Reino Unido   3.794,27   3.584,39   3.268,36   3.162,26   3.392,09

Fonte: Banco Mundial                                   Elaboração Própria

Tabela 3: Gastos per capita em saúde – US$ PPP

          2.014         2.015         2.016         2.017         2.018
 América Latina
 Argentina   1.266,94   1.404,38   1.127,65   1.380,89   1.221,78
 Bolívia      243,45      296,39      316,61      332,68      353,06
 Brasil      605,07      601,93      606,22      620,87      637,92
 Chile      849,23      904,50      967,91   1.105,45   1.172,17
 Colômbia      688,95      746,37      755,22      791,46      827,44
 Equador      510,89      484,84      475,44      501,63      496,42
 Paraguai      364,10      373,21      387,20      392,50      409,29
 Peru      382,87      406,58      431,78      442,30      480,03
 México      541,01      562,68      552,64      552,21      533,74
 Uruguai   1.258,74   1.312,56   1.438,14   1.512,27   1.582,86
 Venezuela      359,75      448,48      356,64      468,67      183,50
 BRICS e grandes emergentes
 África do Sul      557,61      579,09      574,54      584,84      610,43
 China      368,86      422,43      441,10      474,79      527,60
 Coréia do Sul   1.314,63   1.451,90   1.580,91   1.696,33   1.878,60
 Egito      157,38      182,39      187,00      204,86      176,44
 Índia         48,67         56,55         62,52         68,76         74,16
 Rússia      832,35      755,51      728,77      793,16      884,90
 Turquia      808,61      828,62      890,98      913,89      905,98
 Países Desenvolvidos 
 Alemanha   3.998,92   4.121,15   4.306,25   4.608,75   4.737,33
 Austrália   2.882,71   2.993,52   3.164,14   3.253,36   3.456,63
 Estados Unidos   4.530,34   4.811,91   4.977,19   5.130,77   5.355,79
 França   3.287,49   3.396,49   3.589,87   3.745,96   3.852,32
 Grécia   1.196,81   1.222,11   1.166,97   1.184,70   1.215,32
 Itália   2.421,20   2.430,71   2.542,06   2.633,90   2.677,77
 Reino Unido   3.301,47   3.388,59   3.464,85   3.555,26   3.631,16

Fonte: Banco Mundial                                     Elaboração Própria

Apesar do subfinanciamento em saúde e educação, não seria possível, como pensam muitos, um mero remanejamento nos gastos públicos do Estado para prover o adequado financiamento a essas áreas essenciais. Mesmo caso o Brasil abra mão de investir em ciência e tecnologia, desenvolvimento regional, infraestrutura e outras áreas prioritárias, o gasto público total per capital é baixo em relação aos países que proveem os melhores serviços públicos, o que deixa pouco espaço para remanejamentos (Tabela 4). Mesmo quando comparamos a países latino-americanos como Argentina, Chile e Uruguai, o gasto público per capita é substancialmente menor, embora seja maior ligeiramente maior do que o do México e bem maior do que os países andinos. Além disso, a diferença com os países desenvolvimentos é enorme, assim como verificamos nos gastos com as áreas de saúde e educação.

Tabela 4: Gastos públicos per capita (US$ mil)

 20142015201620172018
América Latina
Argentina4,5703325,2678714,4535535,0327733,949398
Bolívia1,2354861,1497071,011681,0367391,032209
Brasil3,9566092,4972722,6839383,0369332,796621
Chile3,2601383,095563,1160033,430573,800268
Colômbia2,3610191,6900371,6076551,6973242,010781
Equador2,4354072,0469151,8341,9924222,232055
Paraguai1,0560840,9992211,0034111,0424281,079911
Peru1,4700061,2452861,1610321,2316241,360024
México2,5597832,2600172,1500252,2887162,272957
Uruguai4,7899944,4414794,457355,0652485,323941
Venezuela2,3324212,0780041,3036890,6951070,593096
BRICS e grandes emergentes
África do Sul1,7739231,6135971,5057511,7270311,845409
China2,1626712,3294732,290952,4538932,804528
Coréia do Sul5,8952115,8211436,1894136,9006787,669176
Egito0,8585090,8219790,740380,540660,533418
Índia0,3013830,3187770,3483670,3934770,405967
Rússia4,7440652,9520752,8714353,5776314,00285
Turquia3,8221273,5046343,540183,3150472,943413
Países Desenvolvidos
Alemanha21,5599718,5401819,1724720,2906622,14385
Austrália20,9076717,7868818,1054519,6024820,12081
Estados Unidos17,2920417,9618518,0462818,468118,65449
França23,7845720,1722720,3434321,4898623,00477
Grécia10,038328,6778738,9734519,1550529,710484
Itália17,0424414,431214,4374614,991915,98774
Reino Unido16,8652316,053914,8853214,8057915,74489

Fonte: FMI                                                Elaboração Própria

Assim, a análise fria dos dados deixa evidente que os recursos que o Estado brasileiro possui para dispender com cada cidadão é bem abaixo dos países que possuem os melhores serviços universais de saúde e educação. Além disso, como a receita tributária por cidadão é bem abaixo dos países ricos, fica evidente que há pouco espaço para que remanejamentos orçamentários possam suprir a falta de recursos para saúde e educação.

* Doutorando em Economia pela Unicamp.

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