Os magos das estatísticas

Um dos estratagemas mais utilizados para analisar dados sociais com viés anti-social consiste na comparação entre miseráveis.

Em um seminário do Projeto Brasil, um dos pais desse método, André Urani, do IETS (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade) dava o seguinte exemplo: sua empregada ganhava R$ 400,00; iria casar com o porteiro do prédio que ganhava R$ 500,00; juntos ganhariam R$ 900,00 o que os tiraria da faixa mais pobre da população. E, ante os olhos estatelados da platéia, encerrava o raciocínio: “É justo que recorram ao SUS (Sistema Único de Saúde) tirando o espaço dos mais miseráveis?”.

Menos criativo, Fábio Giambiagi recorre ao mesmo leque de recursos retóricos em seu livro em que propõe mais cortes nos benefícios da Previdência Social.

Diz Giambiagi, em artigo no “Valor” de hoje (clique aqui):

“Mesmo que se julgue que, se a relação entre o que o que gasta o INSS e o PIB for mantida constante, a ausência de uma reforma previdenciária pode ser consistente com a manutenção do equilíbrio fiscal, cabe responder às seguintes perguntas”:

Vamos refazer as perguntas que Giambiagi coloca, para entender como se dá esse tipo de sofisma:

“Giambiagi — Faz sentido que, na média, as mulheres se aposentem por tempo de contribuição no Brasil aos 52 anos, enquanto que as mulheres na Bolívia devem trabalhar até os 65 anos?”

Traria mais impacto se Giambiagi indagasse: “Faz sentido (…) se as mulheres africanas não tem direito à aposentadoria?”

Pergunta refeita – Faz sentido que, na média, as mulheres bolivianas devem trabalhar até os 65 anos, enquanto, na média, as mulheres se aposentam por tempo de contribuição no Brasil aos 52 anos?

Também acho que a idade de aposentadoria poderia subir. Agora considerar como parâmetro de comparação a Bolívia e a idade média de aposentadoria de 65 anos, só o Giambiagi.

“Giambiagi — Faz sentido hipotecar o futuro dos nossos filhos gastando cada vez menos com investimento público e cada vez mais com Previdência, aumentando o valor real das aposentadorias e continuando a permitir aposentadorias precoces, dando continuidade às tendências observadas nos últimos 20 anos?”

Pergunta refeita – faz sentido hipotecar o futuro de nossos filhos gastando cada vez menos com investimento público, e cada vez mais com juros, e ainda permitir ao Banco Central errar impunemente na dosagem dos juros?

“Giambiagi – Faz sentido que os trabalhadores das regiões metropolitanas, que geram novas riquezas para o país, tenham hoje um rendimento, em termos reais, inferior ao de 1994, quando foi lançado o Plano Real, ao mesmo tempo em que o poder aquisitivo de quem ganha o piso previdenciário ou assistencial (muitas vezes sem ter contribuído nunca para o INSS ou tendo realizado contribuições ínfimas por pouco tempo) caminhe com o aumento previsto para 2007 rumo a ser 100 % superior ao de 1994?”

Pergunta refeita – faz sentido que os trabalhadores das regiões metropolitanas, que geram novas riquezas para o país, tenham hoje um rendimento, em termos reais, inferior ao de 1994, quando foi lançado o Plano Real, enquanto o país continua pagando as mais altas taxas de juros do planeta?

Finalmente, faz sentido setores cada vez mais relevantes do próprio mercado considerarem que o Banco Central errou a mão nos juros, e Giambiagi, que se propõe a analisar as contas públicas, não mencionar uma vez sequer o peso dos juros nas despesas públicas?

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