Os movimentos especulativos com a Petrobrás, por Luis Nassif

O modelo exige uma engenharia financeira da qual a equipe de Paulo Guedes não é capaz de organizar. Mas sempre haverá boas cabeças no mercado para ajudar na construção.

A queda no valor da Petrobras é um claro movimento de overshooting, especulativo. O valor de uma empresa reside em sua capacidade de geração de caixa trazida a valor presente mediante determinada taxa de desconto.

A Petrobras explora e venda petróleo. Ajustes nos preços internos certamente afetam a rentabilidade, mas nunca na proporção imaginada pelo mercado. Duas, três palavras do próximo presidente provocarão efeito inverso, permitindo aos jogadores mais frios ganhar em cima dos apavorados.

Provavelmente a solução encontrada mirará no exemplo do Chile. Consistirá na criação de um fundo fiscal que atuará como amortecedor. Quando houver queda nas cotações internacionais de petróleo, aumentará o valor do imposto, mantendo o mesmo preço do combustível. Quando houver altas, reduz-se o imposto. Esta é a saída proposta por dois especialistas – Gabriel Galipolo, presidente do Banco Fator, e Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda, em live na TV GGN.

Mas ficam pendências no ar. E quando a combinação de câmbio e cotações – como agora – saírem do limite do razoável, como será efetuado o alinhamento? A Petrobras será ressarcida pela redução do preço, mesmo seus lucros crescendo exponencialmente – pela diferença entre o custo de produção interno e as cotações internacionais?

Há um conflito latente em empresas públicas – ainda mais em áreas estratégicas como a Petrobras. Por definição, elas têm um impacto sobre toda a vida do país, influenciando a estrutura de custos, impactando a inflação. O pecado original da Petrobras foi a abertura de capital, no governo FHC, criando um conflito insanável entre atender os acionistas – na busca da maximização de lucros – ou os objetivos de país o de governo. O segundo grande pecado foi utilizar a empresa para barganhas políticas ampliadas, no governo Lula.

A Petrobras não necessitava captar em bolsa para seus projetos de investimento. Além do BNDES e do acionistas principal – o Tesouro – poderia recorrer a bônus para captação de recursos.

O modelo adequado para a Petrobras seria dividir seu fluxo de resultados em dois níveis: mercado interno e externo. O interno seria balizado pelo custo de produção mais uma margem de lucros. O externo pelos preços internacionais.

O investidor teria a segurança de uma margem mínima assegurada. E teria lucros adicionais com a exportação de petróleo e derivados, sendo remunerados pelas cotações internacionais. Haveria, portanto, um estímulo adicional para se conseguir a autossuficiência do refino e da produção interna, porque a rentabilidade seria tão maior quanto maior fosse o excedente direcionado para o mercado externo. E o Estado brasileiro teria autonomia para políticas industriais e tecnológicas.

Agora, trata-se de buscar os remendos, nas mãos de um governo aloprado. Paradoxalmente, nesse país de profunda incompetência gerencial, é possível que a solução saia das mãos do general indicado para o cargo, propondo a criação do fundo de ajustamento de preços.

O modelo exige uma engenharia financeira da qual a equipe de Paulo Guedes não é capaz de organizar. Mas sempre haverá boas cabeças no mercado para ajudar na construção.

Aí completará o ciclo conhecido do mercado: após o overshooting, uma recuperação na mesma proporção.

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