Os números e a Bolsa Família

Ali Kamel pega os dados do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio para atacar o Bolsa Família (artigo de hoje no Globo), comparando-o com o Bolsa Escola.

Estou tentando baixar os dados do PNAD para algumas avaliações sobre números. Mesmo assim, dá para identificar, de cara, alguns problemas nos números do Ali Kamel:

1. Os processos de melhoria social são progressivos. Não ocorrem da noite para o dia. A mortalidade infantil está caindo há vinte anos, mas cada prefeito que entra sustenta que caiu no seu governo, quando é fruto de trabalho prévio. Na hora de elogiar a Bolsa Escola (do governo FHC), Kamel compara dados de 1995 (9,8% das crianças de 7 a 14 anos fora da escola), com os de 2003 (2,8%). Informa que em 2003 já estava em vigência a Bolsa Escola. Não informa que foi praticamente o primeiro ano da Bolsa Escola, portanto ela não poderia ter sido a responsável por essa melhoria desde 1995.

2. Em qualquer programa social, ou de gestão, é muito mais fácil ganhos maiores no início do processo, quando se parte de uma base virgem. Portanto comparar os avanços iniciais (período em que o terreno está virgem) com ganhos posteriores é forçar a barra. A Bolsa Família começou praticamente em 2004. Até fins de 2004 estava incorporando os antigos programas (Bolsa Escola, Vale Família, Vale Alimentação e Vale Gás). Os primeiros efeitos foram captados em 2005. Como tirar conclusões taxativas em cima de um ano de observação e concluir que “o compromisso do programa com a educação é apenas formal?”.

3. Kamel compara número de crianças trabalhando em períodos distintos, e coloca como única variável de análise a Bolsa Família. Com isso se livra de analisar qualquer outro fator que possa ter influenciado no aumento das crianças trabalhando. Nesse sentido, a metodologia adotada pela professora Sonia Rocha, do IETS (na “Folha” de hoje), é muito mais apropriado. Ela compara, no mesmo momento, a freqüência à escola do universo das crianças atendidas pela Bolsa Família e do universo não atendido. Aí se comparam iguais e a diferença é significativa, a favor do universo amparado pelo Bolsa Família.

É até possível que os números levem à constatação de que o Bolsa Família é ineficiente. Certamente não através dos caminhos propostos por Kamel.

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