Recordar é viver

ESTADO ECONOMIA 09/10/1997
Título: A bola da vez
Autor: DIONÍSIO DIAS CARNEIRO

Com essa chamada foram anunciadas, em artigos e entrevistas, opiniões de economistas ilustres e respeitáveis, alguns com escasso conhecimento do tema, acerca da fragilidade externa da economia brasileira. Bola da vez quer dizer, na linguagem cifrada, que o autor da expressão entende que o Brasil será o próximo alvo de um ataque especulativo ou, mesmo se os especuladores não aproveitarem o conselho gratuito, que o País entrará em crise por falta de financiamento para seu déficit em conta corrente.

Quando a chamada funciona, ou seja, está associada a um nome suficientemente sério para merecer uma leitura mais do que diagonal, vemos que as qualificações feitas desqualificam a chamada como previsão útil. É claro que a imprensa pode sempre registrar mais um “alerta” para autoridades distraídas, e opositores do governo (ou no governo) utilizam logo o apoio à causa da cautela como um apoio à causa da mudança de rumo. É uma feliz coalizão a dos que não têm o que dizer com os que não têm a responsabilidade de fazer. Mas faz parte do trabalho dos que analisam o cotidiano da economia procurar ângulos novos para críticas antigas, defesas originais para ataques desgastados e tentar ver nas opiniões que circulam o que é fato, opinião ou mesmo ponto de vista novo do que é mero material reciclado no debate sobre as possibilidades da política econômica.

(…) No âmbito dos ataques especulativos há duas teorias dominantes: a primeira é que ataques especulativos ocorrem quando o governo perde reservas além de certo limite crítico. Ao tentar defender a paridade cambial com vendas suficientes para adiar os ganhos esperados, aumenta o prazo (e os custos da espera) e termina fazendo com que alguns apostadores desistam da aposta, mudem de lado e vendam moeda estrangeira, contribuindo para pôr fim ao ataque.

(…) Um segundo tipo de teoria apóia-se mais na possibilidade de enfraquecimento da confiança em políticas que poderiam até ser sustentáveis, mas se tornam inviáveis porque ondas de pessimismo financiadas por apostas do setor bancário encurtam drasticamente o prazo de financiamento disponível para o governo, tornando inviável qualquer desequilíbrio na conta corrente do balanço de pagamentos.

(…) Desnecessário dizer que todos os governos atacados acreditam, ou afirmam acreditar, estar no segundo caso, enquanto todos os especuladores decididos ao ataque crêem estar no primeiro caso.

O que fazer? (…) Ao mesmo tempo em que os especuladores profissionais estão sempre tentando descobrir a bola da vez, os analistas de política econômica nos governos e nas instituições multilaterais estão decidindo qual é a bola da vez das políticas cambiais: mais controles ou mais transparência e atenção aos mercados? Os países asiáticos cujos mercados incipientes desmoronam há três meses já afirmaram seus pleitos por mais controles, enquanto os latino-americanos se beneficiam das diferenças cada vez mais palpáveis em termos de convicção de seus governos e sistemas políticos quanto aos rumos a seguir.

A iniciativa do governo brasileiro de dar novo ânimo à tramitação das reformas institucionais de profundidade, reabrindo, em meio ao tumulto das pré-candidaturas, as discussões sobre as reformas fiscal e da Previdência, é um exemplo de como escolher a bola da vez e permitir à sociedade discutir os rumos que deseja seguir nos próximos anos.

Dionísio Dias Carneiro é professor do Departamento de Economia da PUC-RJ

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