Sem medidas de estímulo, a ‘fada da confiança’ não passará pelo Brasil em 2021

Pandemia veio agravar uma situação já ruim, que exigiria ação do Estado, ao contrário do que faz o governo

Reprodução/Montagem RBA

da Rede Brasil Atual

por Vitor Nuzzi

São Paulo – Se 2020 terminou com nuvens, não há sinal de bonança para a economia brasileira neste ano. Desemprego em nível altopandemiafim do auxílio emergencial e aumento do custo de vida são alguns dos fatores apontados pelo professor e consultor Antonio Corrêa de Lacerda como desafios para o Brasil em 2021. Mas ele observa que atípico ou não, com ou sem pandemia, este ano já era de dificuldade, por falta de ações. “Nenhum dos problemas estruturais foi resolvido”, lembra o também presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon).

Assim, o governo segue mantendo o discurso da “retomada” sem criar condições para que isso aconteça. “O desempenho da economia tem sido sofrível nos últimos anos. E estamos no menor nível de investimento da história”, diz Lacerda. Ao contrário do que tem sido feito, o Estado é que deveria investir, acrescenta, pelo que ele chama de efeito multiplicador (na economia) e demonstração (para o setor privado).

Lacerda: “O que estimula o aumento de emprego é a perspectiva de retomada da economia, com boa rentabilidade. O resto são frases de efeito” (Foto: Reprodução/TV Cultura)
Teto de gastos

Não adianta esperar que eventuais sinalizações sejam suficientes para estimular as empresas no Brasil em 2021. “Como bem disse o Paul Krugman (economista norte-americano e vencedor do Prêmio Nobel), é acreditar no efeito da fada da confiança. Isso não funcionou em nenhum lugar do mundo e não vai funcionar no Brasil.”

A revogação da emenda do teto de gastos seria um passo no sentido da recuperação, mas insuficiente, avalia o economista. “Não adianta eliminar e continuar refém dessa visão equivocada de que o mercado vai resolver, de que precisa de menos Estado.”

Reforma: auto-engano

Foi o que aconteceu, de certa forma, com a “reforma” trabalhista implementada em 2017. O discurso, para aprová-la, era de facilitar as condições para abertura de postos de trabalho. Até agora, não se viu resultado das mudanças. “E nem vai ver. Isso é o que a gente chama de auto-engano”, comenta Lacerda. “O que estimula o aumento de emprego é a perspectiva de retomada da economia, com boa rentabilidade. O resto são frases de efeito.”

Ele também contesta certas análises vindas do setor financeiro segundo as quais uma poupança acumulada nos últimos meses poderia “compensar” a queda na renda. Para ele, quem conseguiu poupar foi a parcela mais rica da população, rentistas, pessoas que podem ter aproveitado oportunidades no Tesouro Direto ou mesmo com a recuperação da Bolsa “É muito provável que essas pessoas tenham aumentado sua renda. Agora, o grosso da população depende da sua renda no dia a dia, a grande maioria ganha para a sobrevivência”, destaca o professor.

Menos renda disponível

A realidade é que as pessoas terão menos renda disponível no Brasil em 2021, afirma Lacerda. A taxa básica de juros pode estar em nível baixo, mas o crédito continua caro, lembra. E dezenas de milhões perderão a renda do auxílio emergencial, o que terá impacto econômico, social e talvez político. Lacerda avalia que o resultado do PIB só não será pior “porque o auxílio emergencial puxou, principalmente no terceiro trimestre”. Ele estima a queda em 2020 de 4,5%. Poderá até haver aumento no próximo ano, mas sem maior efeito, dada a base deprimida.

E há ainda outros fatores, como a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, o que atrasa votações importantes, como a do orçamento. Além, claro, da pandemia e da falta de política do governo brasileiro. “Aqui temos falhas gravíssimas de gestão, erros crassos de logística. Tudo isso jogará contra a economia.”

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