Sem título

Coluna de 11/08/2006

Porque o risco Brasil caiu e os dólares inundaram o país, provocando nova queda na moeda, e conseqüente apreciação do Real? Isso se deve à taxa Selic praticada pelo COPOM (Comitê de Política Monetária), e à livre movimentação de capitais autorizada pelo Banco Central.

O investidor externo fica com duas alternativas para aplicar no país. A primeira, comprando títulos da dívida lá fora. Os títulos pagam a taxa básica dos títulos públicos americanos de cinco anos, mais um diferencial de risco. 205 pontos de risco equivalem a 2,05 pontos a mais na taxa dos títulos. Ao todo, 7% em dólares.

Esses 7% funcionam como uma espécie de taxa de equilíbrio, de bóia de caixa d’água. Quando cai o risco Brasil, se a taxa Selic não acompanha, o nível da bóia fica muito abaixo da taxa Selic. E aí entram dólares em abundância, apreciando o real e obrigando o Banco Central a comprar parte deles para colocar nas reservas cambiais.

É por isso que os macro-economistas estabelecem relações entre a taxa de juros Selic e a taxa de câmbio. Todos os demais fatores se mantendo inalterados, caindo os juros internos, diminui o diferencial em relação aos externos e, com isso, reduz a entrada de dólares, deixando de pressionar o câmbio.

Hoje em dia, se a taxa Selic ficasse em 10%, ainda assim atrairia bom volume de capitais especulativos, mas o câmbio seria menos pressionado e o dólar poderia valer R$ 2,30 ou algo assim. A 10% ao ano, a redução dos juros anuais sobre a dívida pública equivaleria a algo como 3% do PIB -uma enormidade, quando comparado ao esforço fiscal que se faz para obter um superávit primário de 4,5%.

Essas contas trazem à tona uma das maiores e mais fatais distorções do sistema de crédito brasileiro, a divisão do Brasil entre os “com dólares” e os “sem dólares”.

Suponha uma empresa AAA (as de menor risco). Ela faz uma operação de pré-pagamento de exportações. Consegue antecipar em até 5 anos o valor das exportações, pagando meros 5,8% ao ano, com o banco cobrando um “spread” ridículo. Aí ela traz os dólares para o país e vende no mercado, aplica o dinheiro em juros brasileiros. Com o ganho financeiro, sua taxa de cambio efetiva passa a ser de R$ 2,30 a R$ 2,40.

Ou seja, só com o ganho financeiro de captar em dólares e aplicar em reais, a empresa consegue o mesmo efeito de 14% de desvalorização cambial.

Se o BC não adquire os dólares ocorre uma apreciação no câmbio -que ajuda na morte lenta das pequenas empresas que não têm acesso a essas linhas externas e receberão o câmbio de R$ 2,10. Se o BC adquire os dólares, aumenta as reservas e cria um custo fiscal adicional – que terá que ser pago pelos contribuintes em geral.

Além de não ter acesso aos dólares, a pequena empresa e a pessoa física pagarão a conta do câmbio apreciado, a conta do aumento do custo da dívida pública e a conta dos juros internos -excessivamente elevados—e a conta do “spread” bancário, excessivamente alto porque há pouca oferta de crédito comercial.

Por isso mesmo, a cada melhora no “risco Brasil”, eu tremo na cadeira.

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