Sem título

Do economista André Urani, em resposta a menções que fiz a ele no Blog:

Caro Nassif,

muitíssimo me estranha esta nota, muito mais ainda vinda de você, que sempre se mostrou, aos meus olhos, um profissional de jornalismo atento à veridicidade e a fidedignidade de suas fontes. A coisa é ainda mais estranha pelo fato de você ter estado presente no encontro da DNA Brasil em Campos do Jordão, onde chegamos inclusive a conversar.

Mas, sinto muito, você NUNCA ouviu de mim as coisas que botou na minha boca nesta sua nota infeliz.

Por uma série de razões.

Em primeiro lugar, eu não pago a empregada doméstica da minha casa 400 Reais mensais, mas bem mais do que isto.

Em segundo lugar, quem é casada com um porteiro é a moça que trabalhava, até dois meses atrás, como babá de meus filhos. Ela ganhava 650 Reais por mês. A renda familiar dela, sendo casada com um porteiro que ganha 500 Reais por mês, era portanto de 1150 Reais. Dado que, até então, não tinham filhos, a renda domiciliar per capita mensal deles era de 575 Reais. O que eu disse, no encontro da DNA, é que este é o tipo de pessoas que a “soi-disante” classe média considera pobre, mas que, segundo a PNAD 2005, estaria no 20% da população com renda mais elevada.

Disse também que este povo que se julga de “classe média” pertence, na realidade, àqueles 10% que abocanham quase a metade da renda nacional. Basta ter uma renda domiciliar per capita de 818 Reais mensais, sempre segundo a última PNAD, para pertencer a estes 10% mais ricos.

Disse isto para reforçar a idéia de que a representação da realidade que é feita pelos formadores de opinião, pelos formuladores e executores de políticas públicas é distorcida e tende a não ser capaz de enxergar os pobres.

Pobres, segundo o IPEA, meu caro Nassif, são aqueles cuja renda domiciliar per capita é inferior a 163 Reais mensais. A “classe média” tem dificuldade de enxergar eles porque eles não trabalham como seus empregados domésticos, mas como trabalhadores autônomos ou empregados sem carteira assinada, nas favelas e periferias das nossas grandes metrópoles (e não na Zona Sul do Rio, nas quadras do Plano Piloto ou nos jardins paulistanos) ou no semi-árido nordestino. E, dado que são invisíveis aos olhos das pessoas que formulam e executam políticas públicas, os pobres acabam sendo sub-representados nestas políticas.

Ou você conhece muitos programas voltados à capacitação, assistência técnica, apoio à comercialização, crédito produtivo etc. para trabalhadores autônomos ou nano-empresários (que são os que empregam sem carteira assinada)?

Eu estava querendo chamar a atenção para a necessidade de dar mais espaço aos verdadeiramente pobres em nossas políticas públicas, ou seja, de irmos, por exemplo, além daquilo que a gente já conseguiu em termos de cobertura social para os nossos empregados domésticos.

Eu NUNCA disse que pessoas como a antiga babá de meus filhos não teriam que recorrer ao SUS. Não apenas porque sou absolutamente favorável à universalização do sistema de saúde (jamais escrevi uma linha sugerindo o contrário), mas também porque pessoas que pertencem a estas camadas tendem, ainda em nosso país, a uma certa instabilidade. A Ana Célia, por exemplo, acaba de ser mamãe e não sabe ainda se vai querer voltar a trabalhar ou se vai se dedicar integralmente à Vitória.

Isto dito, gostaria também de deixar absolutamente claro que estou totalmente de acordo com o meu amigo Fabio Giambiagi quando ele diz que o Gasto Público Social em nosso país não é baixo (pelo contrário) e que só vamos ser capazes de acelerar a construção de uma sociedade mais rica e menos injusta se formos capazes de mexer (gradualmente, respeitando os contratos etc.) com a Previdência Social.

Apenas para você ter uma idéia, vivo numa cidade em que praticamente um terço da renda disponível provém de aposentadorias e pensões e quase a metade das pessoas que pertencem ao 1% mais rico da população estão em famílias chefiadas por aposentados. Um peso três vezes maior que o de pessoas que estão em famílias chefiadas por empresários. Você acha isto razoável?

Em poucas palavras: precisamos sim redirecionar as nossas políticas públicas e o nosso gasto público social em favor das pessoas que mais precisam dele para ter uma vida decente. E isto, a meu ver, passa inevitavelmente por uma Reforma da Previdência.

Cordialmente,

André Urani

Resposta do blog

1. As declarações sobre o acesso ao SUS dos privilegiados do porteiro do prédio e da babá foram feitas em seminário sobre Tecnologia Social, do Projeto Brasil. Como cheguei no último dia no encontro DNA, não tive a oportunidade de assistir à palestra de Urani.

2. As aposentadorias do Rio de Janeiro, a que Urani se refere, são em sua maioria de funcionários públicos. Que tal separar a Previdência do setor privado da Previdência do setor público?

3. O Blog errou: a moça do exemplo era babá, e não empregada doméstica, o que invalida totalmente o argumento. Ou não?

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