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Coluna Econômica – 06/03/2007

Quem é Hugo Chavez? Difícil saber, a partir de dois curto-circuitos permanentes: as constantes manifestações retóricas dele; e a constante resistência da imprensa mundial ao que ele diz.

A partir de uma conversa com quem tem convívio pessoal com ele, pode-se traçar o seguinte perfil.

Seu radicalismo é muito mais retórico do que real. Por exemplo, as desapropriações que vêm fazendo em áreas estratégicas têm obedecido aos contratos firmados e despertado quase nenhuma resistência das empresas desapropriadas. Paga-se corretamente e em dia. Por outro lado, praticamente ninguém noticiou a demissão do prefeito de Caracas, depois que decidiu expropriar o Country Club local.

Ou seja, é alucinado na retórica, mas moderado na ação.

Durante cinqüenta anos dois partidos políticos se revezaram na Venezuela, criando uma diferença entre elite e povo que poucos países do mundo experimentaram. Dos anos 60 até recentemente, os recursos da PDVSA (a estatal de petróleo venezuelana) ajudaram a formar legiões de PhDs nos Estados Unidos, com uma abundância de recursos (fruto também da apreciação da moeda local) de causar inveja aos colegas latino-americanos.

Chavez tornou-se o primeiro governante do país a oferecer algo ao povão. E tem uma estratégia clara pela frente, da qual o Brasil pode se beneficiar.

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Para consolidar seu modelo, ele pretende estreitar relações econômicas com os vizinhos em torno de interesses comuns. Hoje em dia 30% da força de trabalho da Venezuela é de latino-americanos que migraram para lá. Daí, também, a importância que dá ao gasoduto latino-americano.

Do ponto de vista econômico-financeiro, seria mais interessante vender gás para os Estados Unidos, onde o mercado é muito mais amplo e a venda não fica na dependência de um só comprador – como é o caso do gasoduto. Chavez corre esse risco, de apostar no gasoduto, tomando como exemplo a Rússia e a Argélia que, ainda no período da guerra fria, passaram a ter uma convivência pacífica com os países europeus, em torno dos interesses comuns em torno do gás.

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Hoje em dia, Chavez tenta atrair um conjunto grande de empresas para ajudar a explorar setores estratégicos do país – que tem minérios essenciais e carvão de alta qualidade. As negociações esbarram no nacionalismo de Chaves (exigindo 51% do capital do empreendimento) e da resistência das empresas. Mas se negocia.

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Um dos problemas de Chavez é o fato de ser extremamente desorganizado, sem horário – embora seja um trabalhador incansável. Além disso, tem uma cabeça militar, de para-quedistas, que tende a considerar que amigos dos seus inimigos são seus inimigos. Ele não tem a sofisticação de entender que um país -ainda mais da dimensão do Brasil—tem que montar estratégias específicas em cada negociação. Por esse pensamento linear, há quem aposte em algum estremecimento com o governo Lula por conta do encontro com George W. Bush.

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Outra dificuldade de Chavez é quanto à conceituação do seu “socialismo do século 21”. Segundo o interlocutor, ele tem algumas idéias claras, mas não sabe expressá-las de forma sistemática. Falta um ideólogo para colocá-las no papel, permitir uma melhor compreensão e uma melhor crítica sobre elas.

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