Senna e o samba de uma nota só

Em sua entrevista ao “Estadão”, o economista José Júlio Senna explica que não se deve conferir mais que um objetivo a cada ferramenta de política econômica.

Sua afirmação visa rebater as propostas de Yoshiaki Nakano, de que devem-se reduzir os juros para desvalorizar o câmbio. Para ele, a única missão dos juros deve ser atuar sobre a inflação.

Esse é o problema da falta de visão sistêmica sobre a economia. Utiliza-se a taxa de juros exclusivamente para manter a inflação abaixo da meta. Os juros elevados provocam uma apreciação do real. Essa apreciação gera uma vulnerabilidade externa. A vulnerabilidade aumenta a percepção de risco por parte dos capitais externos. Em determinado momento, esses capitais saem correndo do país, provocando nova desvalorização cambial que traz de volta a inflação.

Ora, esse círculo vicioso marcou a política monetária brasileira praticamente desde a implantação do real. A nova volta no círculo foi adiada por razões que nada tinham a ver com essa teoria, mas com o advento da China como grande consumidora de commodities internacionais.

Se a utilização cega dos juros para combater a inflação leva a um círculo vicioso que, depois de cada volta, traz de volta a inflação (devido à desvalorização provocada por contas externas vulneráveis), como Senna pode se alicerçar nesse princípio? ‘E a mesma miopia do especialista em rins que não cuida de avaliar os impactos do excesso de antibiótico em outras partes do organismo. Não questão de visões diversas sobre a economia ou sobre o organismo humano. É a constatação de que, ao não se analisar de forma sistêmica os efeitos de cada instrumento de política econômica, corre-se o risco de que ele não cumpra sequer o objetivo específico a que se destina.

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